Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


13 Junho 2007

É O FIM DO MUNDO! (English readers, please proceed over here. They're all over the place!)

Este é o primeiro dos meus relatos deste dia terrível. Muito aconteceu desde o início da manhã, e muito irá suceder, estou certo, até ao cair do dia. Estou com cada vez mais dificuldade em aceder à internet e em fazer telefonemas. As comunicações que subsistem estão saturadas. A quem me conhece quero apenas dizer que me encontro bem, por ora. Estou em casa, aqui ainda não chegaram. Novos desenvolvimentos têm sido revelados, a maioria surpreendentes.

Confesso que não relacionei a principio o crescente ruído de buzinadelas e berros com qualquer acontecimento estranho, embora fosse feriado e a cidade estivesse supostamente calma pela manhã. Estava relutante em que qualquer coisa perturbasse o pequeno almoço com os simpáticos alemães, não só por minha causa mas em grande medida pelo meu sócio, que começava a perder noites de sono com a nossa falta de sucesso. Por mim estava quase convencido a abrir o Expresso e voltar à procura de emprego, mas ele deixava-se abalar mais fortemente pelo fracasso, e estava como um homem em mal alto a tentar suster-se à tona a todo o custo, chegando a segurar no braço do alemão mais idoso quando procurou levantar-se da cadeira e perceber o que estavam os restantes clientes do bar a espreitar pela janela. Fiz sinal ao meu sócio para ter calma, mas ele levantou-se, irritado, e foi pedir outro café ao criado. Foi finalmente que me apercebi que há já bastante tempo que o barulho prosseguia, e que inclusive estava a aumentar. E os comentários murmurados de espanto e perplexidade em diversas línguas pelas pessoas que não desgrudavam os olhos da janela impeliu-me finalmente a abrir um espaço junto dos meus potenciais clientes e espreitar para baixo.

O bar panorâmico do Sheraton sempre proporcionou uma perspectiva fabulosa da cidade. Dele consegue ver-se a colina das Amoreiras, o parque Eduardo VII, a rua que vai dar ao Rato, o início da Avenida, o Marquês, e um mar de telhados e estruturas até perder de vista. Poucas são as vias não escondidas pelos edifícios, o que normalmente não interessa porque a vista distrai-se com o nível do horizonte. Não sei se continua aberto, nem qual será a sua nova função na actual conjuntura, visto que se situa em pleno coração do novo bairro, e lhes pertence agora. Foi um sítio, para mim, de distracção, conquista e negócio, e no final, símbolo marcante da transição entre o mundo antigo e o novo. Foi ali que os vi pela primeira vez.

Por sinal, pensei que fossem manifestantes. Ou um golpe publicitário. Ou um evento das Festas da Cidade. Ou apoiantes da Helena Roseta. Ou adeptos do Benfica. Ou tudo junto, produto de agendas mal coordenadas. Mas havia algo de muito estranho. Desciam pelo parque, pelas ruas, de forma incerta e lenta, como se lhes fosse difícil andar. As cabeças pendiam para o lado, a progressão não era a direito. Mas eram muitos, muitos, como um magote de formigas. Viam-se as pessoas a afastarem-se deles, a correr. Entravam pelo asfalto, obrigando os carros a parar, a chocarem uns contra os outros. Vi alguns a serem atropelados. Vi o condutor a sair, de mão na cabeça, e dobrar-se sobre a vítima. Vi então outras destas estranhas aparições cairem sobre o condutor e os braços deste a agitarem-se no ar. Vi pessoas a assistirem à cena petrificados, a gritarem em silêncio na distância. Vi dois jovens a acorrerem de paus nas mãos, batendo nas estranhas aparições, apenas para serem derrubados sob o ataque de mais seres. Apesar de se deslocarem devagar, quando atacavam (porque apenas podia descrever o comportamento como ataque) pareciam ganhar vida e cercavam a vítima. Vi isso acontecer nos dois minutos seguintes a um grupo que subia o parque, a uma rapariga no marquês, aos quiosques de jornais.

A confusão em cada um dos grupos atacantes não deixava ver nada do que estaria a acontecer, embora não indicasse nada de bom. Finalmente, o primeiro grupo desfez-se. Um por um os atacantes iam-se afastando, levando consigo bocados de qualquer coisa que jogavam à boca. Poucos se mantinham ainda junto do condutor caido. Havia manchas no chão e o homem não se movia. Pior, parecia já não estar inteiro.

A incredulidade não me fez relacionar todas as evidências, até que alguém mais expressivo concluiu: Estão a devorá-lo!

Caiu um silêncio na sala.

Isto é a sério?, perguntou o nosso alemão mais novo. O meu sócio, aproveitando a deixa, começou a dizer que devia tratar-se de algum filme ou encenação de rua, e que tínhamos de voltar às negociações. Foi cortado pela chegada do elevador, e de uma senhora britânica extremamente agitada, que correu para os braços de um homem da sua idade.

Vamos sair daqui, depressa! Estão a vir para o hotel!

Foi obviamente a palavra-chave. Os clientes dirigiram-se em uníssono para os elevadores e para as escadas, ante os protestos ligeiros dos criados do hotel e o ataque de frustração do meu sócio. Uma das mulheres mais velhas estava a insistir com os filhos que iam já para o aeroporto e voltar para casa.

O meu telemóvel tocou. Era a Mariana. Estava muito agitada.

- Estás bem? Estás bem? - não conseguia dizer mais nada. - Onde estás?

- Já sabes o que se está a passar?

Queria dizer que sim, mas na verdade não sabia. Não sabia o que era aquilo. Olhei pelas janelas, agora completamente desimpedidas. As ruas estavam pejadas de atacantes, pareciam baratas a emergir de todos os cantos. Não podia ser um mero espectáculo.

- Estamos em guerra?

- Luís, a televisão está a dizer que são mortos. Os mortos regressaram à vida. Estamos a ser atacados por zombies. E é em todo o mundo.

Estão a bater à porta. Espero que seja o meu sócio. Não o voltei a ver desde o êxodo do hotel. Espero voltar em breve com mais detalhes. Entretanto, fiquem a conhecer relatos de outros sobreviventes.

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12 Junho 2007

SOMOS O ESTADO DO KENTUCKY, e o Brasil o de Nova Iorque (parabéns ao Brasil)... Pelo menos não somos o Alabama (embora seja intensamente divertido pensar na Califórnia como sendo substituída pela França...) Confirem aqui.

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11 Junho 2007

A INTERNET DAS COISAS tal como descrita por Bruce Sterling num dos últimos debates nas instalações da Google (uma das vantagens de uma empresa bem cotada na bolsa que trabalha na vanguarda da interacção social por intermédio da tecnologia é que pode dar-se ao luxo de ser cool e convidar - pagando, claro, o processo criativo nos EUA é um negócio, e assim é que deve ser - visionários desta natureza). O conceito da internet das coisas é poder saber, a qualquer momento, onde se encontra fisicamente qualquer objecto, qual a sua situação (integridade física, ambiente, etc) e respectivo ciclo de vida (no caso de fazer parte ou ser um produto) - por intermédio de transmissores inteligentes embutidos que trocam informação com receptores rádio. O que se seguirá? Uma internet de pessoas? Ou será isto um pleonasmo?

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10 Junho 2007

(AINDA UM POUCO DE ARTE, MAS TAMBÉM FC). Mas garanto que se trata de TecnoFantasia: arte que não poderia existir na presente forma sem o recurso à tecnologia, e muito em particular, à informatização globalizada do planeta. Porque só através da tecnologia podemos telefonar para a Islândia, directamente para o coração de um glaciar, e escutar a agonia do seu derretimento. Essa instalação fez-me recordar outra magnífica (porque o edifício em si é magnífico e imponente e feito de metal e ferrugem como a Central Tejo de Lisboa) situada em Montreal, num silo de armazenamento de trigo para descarga de navios, no qual um conjunto de altifalantes e microfones permitem reproduzir no espaço oco sons gravados no computador pessoal e enviados pela internet (ou escutar os milhares de sons enviados pelos curiosos ao longo dos últimos anos): o Silophone - pode escutar o seu eco a 5000 km de distância, e sem sair de sua casa... E para terminar, o link de FC: a entrevista de Roberto de Sousa Causo, eminente autor brasileiro, a Orson Scott Card, pela iniciativa de publicação da saga completa de Ender na Devir Brasil (em Portugal, os dois primeiros volumes encontram-se na editorial Presença).

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ENTENDO QUE SE TRATE de uma questão de definições distintas e de hábitos de leitura diferentes sobre o género. E de certa forma poderei ser alvo de uma sensação semelhante quando finalmente ler o livro. Mas confesso que fiquei algo surpreendido com o comentário do Nuno Galopim (personalidade que tem seguido e acarinhado o género em português desde sempre) sobre A Estrada de McCarthy, no qual afirma categoricamente que o livro "de ficção científica nada tem". McCarthy definitivamente não é reconhecido como fazendo parte do panteão da FC americana, pois à semelhança de Philip Roth trata-se de um autor de mainstream que necessitou de recorrer a instrumentos literários normalmente desenvolvidos no seio do género para passar uma mensagem... (ao contrário de Michael Chambon e David Mitchell, bastante mais próximos e conhecedores da FC, mesmo apesar da sua principal condição de fabulistas de mainstream). Contudo, mais adiante o Nuno refere-se refere ao livro «(...) cuja escrita, simples, mas precisa e eficaz, transpira imagens expressivas, através das quais imaginamos uma caminhada para o fim de tudo. Visões de melancolia cinzenta que convocam memórias de, por exemplo, um Stalker, de Tarkovsky.» Não se trata aqui de demarcar um território em torno da obra, no sentido de ter de apropriar tudo o que pareça ser minimamente especulativo como FC. Mas o mero tema de uma América desolada pela qual pai e filho encetam viagem e na qual a memória perdida do passado deu lugar a um novo, desconhecido e angustiante mapa mitológico sugere-me de imediato imagens fortes de FC, semelhantes a cenas e retratos do filme Os Filhos do Homem (embora não no livro original), do qual também muito se afirmou não conter nada de ficção científica. Creio que é algures entre a certeza daquela afirmação inesperada e o seu respectivo não desenvolvimento que reside a minha curiosidade - a curiosidade de entender o que haverá na obra (e o que poderá haver em obras semelhantes), por um lado, e o que se entende como FC na mente inconsciente, por outro, que efectivamente as separam...

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UMA CAÇADA COM FINAL INESPERADO. As turvas águas do capitalismo num mundo em mudança. Os humildes poderão herdar o reino dos céus mas os resistentes terão hipótese de começar já nesta vida. Um vídeo que muito possivelmente seria censurado pela mentalidade branco-cristã dos estúdios Disney (talvez não nos tempos actuais, porque os não caucasianos detêm finalmente um efectivo e significativo poder de compra nas américas). E sim, os próximos posts voltarão a ser sobre ficção científica...

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VENEZA AFUNDADA. Bem, na verdade é mais para o lado de Grenada, Índias Ocidentais, mas fica a ideia, preconizada por Kim Stanley Robinson na colectânea O Planeta Sobre a Mesa, mais uma das edições relativamente despercebidas do nosso mercado (a história de Veneza finalmente conquistada pelas águas, ao lado da fabulosa hipótese que o Enola Gaye poderia ter lançado o Little Boy ao lado de Hiroshima apenas como aviso e mesmo assim conquistado uma vitória militar). Um conjunto de esculturas subaquáticas do artista Jason Taylor. O mais perturbante é talvez o slideshow da decomposição da estátua deitada, retrato da vida enquanto morte.

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09 Junho 2007

HOOKED ON CLASSICS. Um percurso pelo feminino na arte. Atentem em particular na transição dos olhares.

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06 Junho 2007

UMA EXPLICAÇÃO MUITO RACIONAL para as questões do trans-humanismo (que por vezes transpiram atitudes pseudo-religiosas). E uma resposta saudável ao espanto de perdermos tempo e energias da nossa economia e sociedade a desenvolver melhores cosméticos, embalagens, sitcoms... esta espécie parece merecer a extinção...

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