Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


01 Junho 2008

O INTERESSANTE É QUE NINGUÉM PARECE NOTAR o efeito derradeiro que se retira da Praça LeYa, e de toda a discussão que ocorreu em torno desta, tal como se apresenta nestes dias húmidos e frios de Feira do Livro. Apenas Eduardo Pitta lhe faz menção («Editoras com fundos imemoriais, como a Asa, a Dom Quixote, a Caminho, etc., reduzidas às novidades dos últimos 15 dias»), mas como muitos considera que foi um acidente de caminho, um much-ado-about-nothing, e revê na luta de galos dos stands da Feira um incorrecto e ingénuo exemplo de como o mercado livreiro se comporta (senão não acrescentaria «Portanto, em vez da batalha campal, a concorrência devia estar agradecida. Dali não vem (não pode vir) prejuízo», esquecendo-se de que os canais de distribuição onde realmente se vende ao longo do ano não são tão democráticos quanto uma Feira que dá igual oportunidade a todos os editores). Se a escaramuça LeYa terá partido de uma decisão consciente ou aconteceu como sucedâneo de uma mais vasta estratégia de gestão (cujo aspecto trapalhão e prepotente como terá sido conduzida escondeu o facto de ter, aparentemente, resultado de uma decisão súbita, como se tivesse surgido algum factor novo que levou os administradores a mudarem de opinião - o que, em linguagem de gestão de topo, significa normalmente uma oportunidade tentadora em vista), a verdade é que em pouco menos de seis meses, ninguém mais se lembra que terá existido uma Caminho, uma D. Quixote, uma Asa, nem restam quaisquer esperanças que as voltemos a ver como editoras ou marcas independentes, como antigamente o eram. Tudo agora é LeYa, vermelho e indiferenciado entre si, demarcado dos restantes. Assim se acaba com a reputação de décadas e a importância dos catálogos distintos de editoras sem as quais (se a LeYa tivesse partido do nada) o novo grupo não teria qualquer relevâcia no mercado. Livros e autores assim misturados no mesmo caldeirão, uma nova marca presente na consciência do público e dos meios de comunicação - eis o que se consegue com uma pequena polémica, envolvendo associações e Câmaras e influências óbvias. Que nunca mais se diga que os livros não se conseguem tornar em arma política, mesmo nesta época pós-censura em que se pensa que os romances servem principalmente para satisfazer as volúpias fantasiosas das solteironas e das mal-casadas... Algo é certo: a Praça LeYa não está ali para vender livros em grandes volumes, está ali para vender a marca LeYa. Se este foi realmente o propósito, se não estou completamente equivocado na minha leitura, tiro o meu chapéu de gestor. Eis uma manobra económica e eficiente. Contribuiram sem dúvida para tirar o mundo editorial português da situação de apatia e auto-comiseração em que se encontrava há muito, qual cordeirinho deprimido. Embora não creie que, pelo menos no curto prazo, venha daí algum benefício concreto para a cultura portuguesa. Até porque não parece ser esse a finalidade do grupo, muito ao contrário da estratégia da Guimarães. O que se segue, agora que esta única e super-poderosa marca com um imenso goodwill acumulado se tornou presença efectiva e consolidada? Arrisco-me a adivinhar: venda antecipada antes do final de 2009? Talvez a algum grupo importante do Brasil, de Espanha? Seguiremos a telenovela com muito entusiasmo.

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O SOLDADO QUE MORRIA EM ALGIERS. A descoberta do mundo literário sempre se assemelhou ao mecanismo da internet, razão possível pela qual a natureza das páginas (hiper) ligadas seja, de certa forma, intuitiva. Uma citação discreta num texto biográfico, uma menção de memória que desperta curiosidade. Universos assim contidos em meras frases, cuja viagem de descoberta pode mudar o rumo do nosso destino. Sem isso não teria procurado por Stephen Crane (autor da Red Badge of Courage) e sido impelido a ler «The Open Boat» - tudo porque Dan Simmons, num texto que me encontro a traduzir para a próxima Bang!, o considera como um dos melhores contos jamais escritos. É fácil perceber porquê. E felizmente que tenho a maravilha do mundo virtual para vos poder apresentá-lo, aqui, assim, sem esforço.

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27 Maio 2008

E POSSIVELMENTE JÁ SERÁ DO CONHECIMENTO DE TODOS, pelo menos se têm por hábito frequentar o Tecnofantasia.com ao invés de apenas subscrever o feed deste blog (tantos anglicismos para descrever as nossas actuais opções de vida!), mas surgiu no catálogo da Saída de Emergência o novo número da revista electrónica gratuita Bang!, que já vai no número 4. Este número reveste-se de particular importância porque:
  • contém um extenso artigo meu sobre as dores de parto da antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, que, a não ser que morem noutro planeta, já devem estar fartos de saber que foi resultado de uma colaboração de dois anos entre a minha pessoa e o Jorge Candeias para abrir um espaço de publicação de ficção curta de literatura fantástica em língua portuguesa; se de facto moram noutro planeta (ou estão a ler este texto num outro site), têm aqui uma explicação mais detalhada; contudo, se moram em Lisboa ou arredores, ou planeiam por cá passar durante as próximas semanas, sugiro que dêem um salto à Feira do Livro de Lisboa, para arreganhar o cenho antes o mistério do parque LeYa (mais comentários num post futuro) e adquirir um exemplar da nossa antologia à venda no stand da Saída de Emergência (e porque a editora é malta porreira e tem bons livros, acompanhar com algumas das recentes edições deles - sugere-se vivamente a Criança Roubada, de Keith Donohue);
  • contém um conto de Wolmyr Alcantara, «Oberon», em gloriosa representação da nossa antologia, e que serve como gostinho para mais (assim não têm de comprar às escuras...);
  • e contém ainda a minha participação meta-literária à paisana, muito discreta, numa emocionante saga de João Barreiros sobre o estado actual da nossa literatura fantástica...

A somar a isto junta-se o regulamento da antologia Pulp Fiction à Portuguesa, que todas as semanas cresce em colaborações, e que irá manter-se aberta a colaborações até 31 de Outubro (o prazo inicial era o próximo 31 de Maio). Face ao interesse, à nossa aposta na qualidade e na apresentação de novos valores, e no adiamento estratégico da data de publicação para o início do próximo ano de forma a que o livro não se perca no meio das edições de treta habituais da época festiva, estendemos o período de submissão e leitura - já não precisam de terminar à pressa, aproveitem o Verão para polir as vossas emocionantes aventuras rocambolescas.

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15 Maio 2008

SI A EVLUÇÃO DECORRES por vio de alterazões inexperadgas no cógido gepético, prodozondo una vareadadi di serez com diferrents capaxiddes de adatapção ao maio ambionte, dus cuais só u maiz capasse sobrvive, porke tratare a linguaxem de furma difrante? Para que preocupassãos kom akordus artogróficos, come si foxxe pussibivel ficsar no temp i no espaç a dinômica da lingooaxe? Venhão antes us errs ortogróficus, as palarvas mal dotas, as encorrexões de escriba... e tal komo no veidio a xeggir, ixperar ke naçsa una noiva forgma de falare.

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12 Maio 2008

LIVROS À MEDIDA? A ideia é um pouco mais sofisticada: soluções à medida para a indústria do livro. A aposta inovadora dos Booktailors (no meu humilde entendimento) pretende assim trazer conhecimento especializado e abordagens diferenciadoras por uma equipa de especialistas, ajudando o editor a desempenhar a sua actividade e disponibilizando-lhe a informação necessária para tomar decisões de negócio fundamentadas. Serão nesse sentido dos poucos consultores profissionais da indústria do livro a actuar junto das nossas editoras, com conhecimento do mercado, e, factor essencial, gosto pela literatura. Foi com satisfação que vi a empresa surgir, pois a mera existência e viabilidade deste modelo de negócio é um dos indícios mais importantes da profissionalização do sector editorial português. A equipa mantém um blogue interessantíssimo, capaz de suscitar comentários e participação. Por algum motivo (decerto insanidade...), consideraram um dos meus comentários de qualidade suficiente para ser transposto para a página principal, honra que agradeço imensamente. É uma das minhas chamadas de atenção para os modelos de divulgação por internet que se encontram a ser utilizados pelos nossos compadres editoriais norte-americanos, sempre atentos à melhor forma de aproveitar meios de comunicação baratos ao nosso dispor. Algo que abra um pouco mais a porta das nossas mentalidades ainda demasiado empoeiradas e tacanhas.

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11 Maio 2008

E NÃO SE TRATA PROPRIAMENTE DE SINCRONICIDADE (ver post anterior), porque, enquanto grande defensor da liberdade da informação e da disseminação de ideias, Cory acabou de disponibilizar, outra vez gratuitamente, o conteúdo integral do seu romance juvenil Little Brother, um apelo ao individualismo e à liberdade de movimentação aos jovens numa sociedade tecnocontrolada. A mensagem é importante, e embora não tenha ainda tido oportunidade de apreciar a obra, é imprescindível comece a surgir numa fase em que a tecnologia de vigilância não seja ainda ubíqua. Encontramo-nos todos embevecidos com o deslumbramento da internet, que nos esquecemos (e as gerações mais velhas são particularmente culpáveis) de que, há apenas vinte anos, a maioria da informação hoje disponível em poucos segundos só conseguiria ser obtida pelo acesso, por vezes complicado, a enciclopédias e manuais de referência e bibliotecas, e que poucas décadas antes as pessoas incorriam em risco físico se proferissem ideias que não agradavam ao regime de então. A natureza humana não mudará tão facilmente, no sentido de quem estiver no poder não estar na disposição de cedê-lo sem luta. Se dantes era possível trocar palavras de revolta numa esquina, num bar, na privacidade do lar, era por não existirem microfones nem telemóveis nem câmaras dissimuladas nem sistemas de interpretação automática de contextos. Será cada vez mais difícil, a partir de agora. Com uma enorme economia de mão-de-obra, apenas com um conjunto de processadores ligados em rede e muita memória (uma arquitectura técnica cada vez mais barata e conveniente), a hipervigilância não só é uma realidade possível como começa a concretizar-se dissimuladamente em tudo o que nos rodeia - não apenas na consciência dos cartões electrónicos de identidade e de pagamento/crédito, como nos dispositivos identificadores imbutidos nas nossas roupas (os RFID), elaborados com o objectivo de controlar processos de fabrico ao pormenor mas que ultimamente poderão servir os propósitos de governos demasiado ansiosos. Lembrem-se: num regime tecnofascista ninguém vos ouvirá gritar.

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30 Abril 2008

SINTAM-SE VINDICADAS, miúdas de 16 anos, pois o John Scalzi, que acaba de publicar um livro no qual uma protagonista tem a vossa idade, compreende que não é fácil compreender-vos. Mas isso decerto vocês já desconfiavam. Como afirmava uma das Virgens Suicidas ao médico, «o doutor sabe lá o que díficil que é ser rapariga e ter 13 anos» (citado de memória). Scalzi é um paz-de-alma do mundo online, que escreve ficção científica igualmente paz-de-alma com toques de humor. Nada de mal nisso. Doctorrow é um testa-de-ferro de uma corrente de opiniões que defende que a informação deve ser livre e que não devem existir sistemas de protecção de conteúdos, o que não o torna do agrado das corporações mediáticas (nem, a bem ver, da maioria dos autores com algum nome). Publicou um livro para adolescentes sobre o perigo eminente dos sistemas ubíquos de vigilância estatal e como conseguir subvertê-los recorrendo a meios técnicos ao dispor (num dos capítulos, o jovem protagonista utiliza uma X-box hackada para estes fins). Não tanto romance como panfleto de atitudes liberais que possivelmente nos transmite alguns bons conselhos. O vídeo serve também como exemplo de uma forma de auto-promoção que não se leva muito a sério (e logo incentiva a ser usada como marketing viral, como este próprio post comprova...)

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