Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


06 Julho 2008

Alguns dos Melhores Filmes Passam Despercebidos. Incluo este no lote. O trailer de The Fall oferece promessas de uma história densa, cheia de alegorias concretizadas em realidade e uma forte paixão pela narrativa, paralela à paixão da juventude pela vida (retirem os computadores e as canetas aos adultos, só escreverão sobre a monotonia, os deveres familiares e o desencanto! O mesmo se aplica à maioria dos autores de mainstream). Ecos do Labirinto de Pan e de um exotismo longínquo intensificado pela tradição oral. (Via Ecstatic Days)

E aqui uma curta viagem aos bastidores.

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29 Junho 2008

Profilaxia do Tabaco Autorizada para o 1º Ciclo «Esta é uma data marcante para a indústria tabaqueira», afirmou Asgaard Nooren, presidente delegado da Tacabos & Saúde SA quando o interpelámos para obter uma reacção oficial, apresentando um expansivo sorriso de contentamento. E boas razões tinha para se sentir assim, pois acabara de ser informado que a proposta pela qual lutara duante dois anos e meio, durante os quais promovera eventos de sensibilização e esclarecimento pelas feiras industriais e tecnológicas de toda a Europa, defendera e patrocinara a realização de estudos de viabilidade por entidades autónomas e interpelara o Parlamento Europeu para a realização de plenários extraordinários sobre a matéria, tinha sido aprovada por maioria, necessitando apenas de ser ratificada pelo Presidente Representante Europeu para se tornar realidade. Este último passo, que na opinião do holandês radicado no nosso país desde que assumiu a liderança do braço ibérico desta produtora mundial de tabaco profilático, é «uma mera formalidade, podendo considerar-se que a lei se encontra já em vigor», irá permitir que se inclua a educação do tabaco nos currículos do 1º ciclo (actualmente só se encontra a partir do 2º ciclo), e que a idade mínima para o uso desta terapia preventiva seja reduzida dos actuais 14 anos para os 10 anos de idade. Em termos numéricos, o contentamento do sr. Nooren é evidente: representa um mercado potencial de 45 mil compradores, ou 150 milhões de euros anuais, até agora monopolizado pela indústria dos doces e alternativos alimentares, veículos de administração e gestão médica da saúde bastante preferidos pela faixa jovem. Asgaard não teme a concorrência, que prevê dura e implacável. «O tabaco perdeu já toda a conotação negativa que merecidamente tinha no passado», relembra, «graças ao avanço da tecnologia.» O que no início do século era considerado como um vício nocivo, responsável por doenças graves e mau ambiente comunitário, tendo sido vítima de medidas sociais e políticas implacáveis para a sua erradicação, sofreu uma reviravolta incrível há apenas sete anos, ao ressurgir como um dos métodos usados para a gestão médica mandatória das populações adultas, normalmente difíceis de convencer a seguir medidas profiláticas determinadas pelas entidaeds estatais. Entre os produtos que se podem encontrar nos tabacos actuais encontram-se vitaminas básicas, antibióticos, antivirais, profiláticos de desordens como a diabetes e o colesterol, e muitos outros, em dosagens e composições regulamentadas por institutos oficiais, e distintas consoante grupos etários, genéticos e territoriais. Mas também outras indústrias começam a utilizar cada vez mais o cigarro como meio terapêutico, como por exemplo, as da gestão da aparência, cujas soluções dietéticas marcam forte presença nas nossas farmácias e supermercados. Todos estes factos deixam Asgaard Nooren feliz, e mesmo as acusações públicas de lobbying político e de financiamento oculto de determinadas campanhas eleitorais não são o suficiente para lhe perturbar o sono. «A concorrência, como disse, é feroz, e essas declarações fazem parte do jogo. Pensavam que fumar era um acto enterrado e acabado. Mostrámos que ainda se podia fazer dinheiro, muito dinheiro, com isso. Bastava ser-se inovador e eliminar os aspectos nocivos do produto. Dar-lhe a volta, por assim dizer.» E o futuro? «O futuro é conquistar cada vez mais mercados e fazer do cigarro profilático uma constante da vida das populações.» Como se consegue isso? «Conquistando os últimos monopólios. Como por exemplo, o da chucha. Acredito que se fizermos bem as coisas, não haverá mercado mais fiel que o dos bebés...» [Agência Nacional de Notícias, 29.06.2023]

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25 Junho 2008

Dos Lábios do Escritor. Rick Kleffel, o incansável editor e produtor de um dos mais interessantes e prolíferos podcasts literários, cuja missão é apresentar um autor novo praticamente todos os dias (a maioria dos quais nossos velhos e novos conhecidos desse grande género que é o fantástico) conversa desta feita com Salman Rushdie, acontecimento ao vivo no Rio Theater californiano realizado ainda na semana passada, quando da promoção do novo livro The Enchantress of Florence (cuja trama decorre, obviamente, em plena Renascença, com Maquiavel e os Medici à mistura, símbolos emblemáticos da era de uma cidade que, culturalmente e no espírito dos autores, parece ter parado no tempo)- autor britânico-indiano que durante alguns anos terá sido figura emblemática de uma estranha mistura de alívio e inveja por parte dos colegas: alívio por não terem sido tragicamente amaldiçoados pela força das suas próprias palavras; inveja devido a uma esposa como esta, que preferiu um autor vinte e poucos anos mais velho à escolha mais habitual de um desportista da sua idade... No meio da divertidíssima conversa, misturando anúncios, tiradas políticas e àpartes literários, algumas lições preciosas, entre as quais a necessidade de disciplina no acto de escrever (encarar a escrita como um trabalho; ou como Neil Gaiman afirmou em outras paragens, a escrita tanto é um trabalho que o principal requisito para que resulte feita está em, simplesmente... comparecer) e a necessidade de se crescer, enquanto pessoa, como requisito essencial para que o autor se torne interessante de ler. Algo que rema contra a corrente das pressas de publicação dominantes no nosso mercado. A entrevista está dividida em duas partes, que aqui incluo directamente para vossa conveniência (também poderão ouvi-las directamente na Agony Column).

Player cortesia de SourceForge

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22 Junho 2008

E Assim se Propaga o Marketing Viral. Mas será possível resistir à inteligência deste booktrailer bem humorado? Tudo nisto é Estória, tudo nisto é descoberta do mundo. Tudo nisto é vontade de ler. Em tempos de Festival de Bibliofilmes, uma forma de promoção e apresentação do livro que começou já a espalhar-se pelo nosso mercado. (via SFSignal).

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21 Junho 2008

UMA FÁBULA DA NOSSA CIVILIZAÇÃO? Quem é neste caso a criança fechada numa sala escura, sacrificada pelo bem da Utopia? Quem é ela, para si? Quando fecha os olhos, qual é o rosto que o assombra?

Em Omelas, ela está escondida da vista pública, guardada no cofre, deixada lá a sofrer. Contudo, assim é fácil: longe da vista, longe do coração. A capacidade humana para a empatia pelo sofrimento dos outros só chega a determinado ponto: a partir daí, os velhos mecanismos de sobrevivência passam a funcionar, e o pensamento normal é «antes ele do que eu». Le Guin teria conseguido uma história diferente, e uma análise mais profunda sobre o comportamento humano, se a sociedade obrigasse a que, quando a criança sacrificada morresse e fosse necessário substituí-la, todas as crianças de determinada idade fossem sujeitas a escolha; para poderem gozar a perfeição e a felicidade daquela forma de vida, todos os pais, todos os adultos e jovens, teriam de aceitar que um filho, um irmão, um amigo, lhes poderia ser retirado e teria de viver o resto da vida preso numa cela sem voltar a ter contacto humano, sol, liberdade (e, dadas as condições, possivelmente essa vida não seria sequer longa).

Aliás, vamos ser perfeitamente dramáticos e vamos colocar todas as crianças nessa cela, durante a fase de selecção, vamos fazê-las temer e borrar-se de medo da possibilidade de nunca mais sairem, vamos colocar pressão sobre essa sociedade para que escolha a vítima o mais rapidamente possível. As famílias querem as crianças de volta, assombrados pela lembrança dos dias terríveis em que, na sua infância, eles próprios habitaram aquele lugar horrendo. Vamos inclusive, para tornar o pecado absoluto, obrigar que a escolha seja feita por voto unânime. Todos têm de ser culpados, não há cartuchos em branco neste pelotão de fuzilamento. Não há a possibilidade de redenção. Vamos tornar todos cúmplices, nesta sociedade-modelo perfeita e absoluta e feliz, da condenação consciente à miséria de um inocente apenas para benefício próprio. Se não escolherem, as crianças não saem. Se alguém não votar, as crianças não saem. Se alguém votar diferente, as crianças não saem. E uma escolha tem de acontecer. Mesmo para os pais da criança. Sacrificar o seu filho único. Escolher um de entre os seus rebentos. Pode ser o teu irmão, pode ser a criança do vizinho que vinha bater-lhe à porta em noite de festa.

A escolha feita dá lugar ao alívio dos restantes pais, ao alívio das crianças libertadas, à possibilidade de retomar a normalidade dos dias; excepto para um. Excepto para uma das crianças, condenado para a vida, sem possibilidade de recurso.

Na verdade, para todos. Agora que tinham participado num sacrifício consciente e deliberado de alguém que consideravam inocente (não era um estrangeiro, não era uma minoria, era alguém integrante na comunidade), estavam moralmente tão presos quanto a criança, igualmente fechados numa cela, embora esta fosse dourada e cheirasse a campo.

Sim, teria sido uma história bastante diferente.

Desistiriam de Omelas, vocês que tinham passado por este trauma? Iriam para uma cidade desconhecida, outro país? Fugiriam para o campo, tornar-se-iam eremitas? Será que no fundo dos vossos espíritos não teriam receio de que a outra cidade tivesse rituais bizarros, ainda mais cruéis, mas sem dúvida desconhecidos (porque obviamente nunca ninguém menciona o assunto), a que tivessem de se sujeitar? Será que desta vez não seriam vocês os sacrificados?

O contrato social é algo terrível. Todos nós temos crianças fechadas naquela cave, a sofrer, a morrer aos poucos. Há quem consiga não viver com isso. Mas é parte integrante da condição humana. Estamos todos conscientes disso, ou a própria autora, tendo descrito uma sociedade utópica e imaculada, não perguntaria «Acreditam no que vos conto? Aceitam a realidade do festival, da cidade, de toda esta alegria? Não? Deixem-me então mostrar-vos mais uma coisa.» 

E se chegaram até aqui sem perceber o contexto inicial da minha mensagem, obrigado por isso, e resta-me apenas informá-los que me refiro ao conto «The Ones Who Walk Away From Omelas», da mestre Ursula Le Guin, publicado no período de activismo político da sua obra literária, e cujo texto podem aceder através de um link indicado neste blog. Infelizmente não está traduzido para português. «Aqueles que se Afastam de Omelas» poderia ser uma tradução possível, embora na minha opinião «Aqueles que Desistem de Omelas» seja o mais correcto.

E depois de o lerem, vão comprar Os Despojados na colecção da Europa-América. Dificilmente encontrarão outro romance no qual a especulação social, a consciência ética, a postura política e a dissertação filosófica estejam tão bem integradas. 

(Stephen King, em A Tempestado do Século, concebeu um cenário parecido, mas neste caso não se tratava de manter um estatuto de civilização, mas de um grupo de pessoas ameaçadas por ser todo-poderoso e demoníaco, e forçadas a escolher (por loteria) e entregar-lhe uma criança, para salvar as vidas de toda a cidade. Fazem-no por uma questão de sobreviência, não para manterem o conforto de uma civilização com sofás e televisões e carros e cinemas. Uma questão ética totalmente diferente.)

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15 Junho 2008

Cinco Horas de Terror em Directo. Passados dez anos do trágico 16 de Junho de 2017, que para sempre ficará na história da Europa como o dia das Cinco Horas de Terror, será transmitida amanhã no Canal 99, numa emissão directa e em simultâneo com canais europeus e alguns norte-americanos, uma recriação dos acontecimentos que captivaram a atenção do mundo e obrigaram a profundas alterações na indústria da aviação comercial. Este teledrama conta com a participação de uma vintena de actores e mais de duas centenas de figurantes, que irão actuar em cenários construídos para o efeito nos mais diversos centros de produção europeus. A transmissão será particularmente exigente a nível logístico, pois irá envolver a coordenação em directo entre vários países, bem como a sincronização precisa do ritmo narrativo – um relógio irá acompanhar o desempenho dos actores, desde o início do ataque informático ao momento em que os 120 aviões foram levados a despenhar-se, numa tentativa de recriação precisa dos momentos cruciais. A história, elaborada a partir dos relatórios oficiais, procura ser um testemunho isento, apresentando em igual medida o ponto de vista das vítimas, dos militares, do Parlamento e dos terroristas, e não poupará sequer as explicações técnicas de como conseguiram estes penetrar nos sistemas de controlo de tráfego aéreo. Afirma o press-release que é também intenção, além de manter viva a memória, relembrar as lições aprendidas e as medidas tomadas posteriormente para tornar a aviação comercial mais segura. [Agência Nacional de Notícias, 15.06.2027]

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