Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


07 Setembro 2008

No Último Filme da Saga Indiana Jones, John Hurt tem uma das falas mais idiotas de toda a sua carreira - quando a espaçonave dos extraterrestres (sim, tem espaçonaves, sim, tem extraterrestes, não se preocupem com este spoiler pois é um desenlace que qualquer espectador atento ou ainda acordado conseguirá antever logo desde o primeiro acto) levanta vôo e um dos personagens lança a pergunta que mereceria o olhar reprovador de imbecilidade de qualquer pessoa, «Será que vão para o espaço?», Hurt no papel de um professor arqueólogo alucinado (o enredo tenta convencer-nos que se deve aos efeitos de uma caveira de cristal alienígena com poderes psíquicos, mas eu desconfio que se tratará de um comentário subtil aos efeitos secundários das políticas do nosso Ministério da Educação) lança este maravilhoso repto, «Não, vão para o espaço entre os espaços»... (por outro lado, aplicar a observação em causa à lógica de raciocínio do referido Ministério explicaria muita coisa) - seguida surpreendentemente de uma das melhores - quando Indy reencontra e se casa finalmente com a sua antiga paixão, da qual se separara muitos anos antes, implicando assim o retomar de uma vontade interrompida, Hurt comenta «Tanto que se perde de uma vida humana à espera...».

De resto, uma história banalíssima, que merece ser esquecida e de facto rapidamente o é, seguindo a herança do segundo e o terceiro filmes da saga, os quais nunca conseguiram chegar aos calcanhares do primeiro, embora o desastre, neste, tenha sido maior. Poderia discorrer como outros colegas na internet sobre as ligações desta história com as raízes do pulp, não fosse ter ficado com a sensação de que o filme era uma private joke de rapazes crescidos, nos seus cinquenta e sessenta anos, despretenciosos e com vontade de se divertirem mais um pouco, e não um retomar de uma tradição narrativa nem uma homenagem a tempos antigos como foi o primeiro filme (de acordo com entrevistas de Spielberg de então) nem sequer uma necessidade de manter a coerência temática do mundo Indiana Jones (desde logo comprometida com a evidência física de um castigo divino no primeiro filme, misturando-se a fantasia mundana com a fantasia religiosa de uma forma que já não se encontra muito nos laicos tempos actuais).

Melhor expressão da existência na terceira idade é Duma Key, uma das mais recentes obras de Stephen King e que por sinal tenho estado a apreciar, apesar das minhas ressalvas relativamente ao que o mestre do horror costuma verter em formato romance. Um estilo solto, menos carregado dos tiques habituais, uma quase perfeição na medida em que vai soltando os pequenos indícios da trama narrativa, um bom controlo dos personagens, este é Stephen King desnudando a forma de pensar e conviver de personagens que já passaram o seu primor, imperfeitas, idosas, assoladas pelas maleitas dos anos acumulados, dos azares e dos erros do passado. Se fizer juz ao que conheço dos romances dele, King irá desiludir-me mais adiante, ele que sempre foi um excelente tecedor de teasers e promessas, antes de as espatifar com finais pouco imaginativos e inócuos. Quase desejo que prolongue a introdução dos elementos fantásticos, que se mantenha enraizado numa história de filosofia humana até não poder mais, que não se distraia das relações entre pais, filhos e estranhso, e a necessidade de se reencontrar um rumo da vida perante a tragédia, que neste livro estão tão bem retratados. Mas, claro, encontramo-nos na chamada «ficção de género», e noblesse oblige, ou mais certamente obrigará o cheque, o fantástico entrará nesta casa com as patorras enlameadas, para salvar o mundo de acabar amanhã se ao mestre, ó Horror dos Horrores, desse na tola escrever mainstream...

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05 Setembro 2008

Técnicas de Relaxamento. De facto, qual o escritor que nunca se viu necessitado de fazer uma pausa depois de abater civilizações inteiras em guerras interplanetárias com armas tão terríveis como distorçores decafaseométricos (que dividem o espaço-alvo em minúsculos blocos tridimensionais e de seguida os baralham numa configuração aleatória), polinversores temporal-sincrónicos (que alteram a seta do tempo vertical da vítima para uma posição horizontal, se vos for possível conceber tamanha atrocidade), inibidores do deslocamento cognitivo histórico individual para orientação antecipatória face a temporalizações imediato-futuras (cujo excesso de uso por empresas de marketing e orgãos eleitorais conduzem a médio prazo à extinção da cultura)? Felizmente este iluminado saiu ao caminho para nos oferecer conselhos tão úteis quanto o presente.

(Na verdade uma campanha viral da nova comédia de Jared Hess, Gentlemen Broncos)

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01 Setembro 2008

Um Comentário Bastante Agradável para um conto minúsculo. Obrigado à Ana do Cão que Comeu o Livro pela inesperada e simpática crítica entusiástica, e por chamar a atenção para textos que julguei que passassem despercebidos. (E para não dar a ideia que este blogue só se destina a ego-tripping, apresentem-me críticas negativas fundamentadas que também lhes farei referência.)

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31 Agosto 2008

Os Computadores São o Instrumento de Preferência para despertar a criatividade. Mesmo quando desligados. Como comprova este pequeno vídeo de Donato Giancola. O meu singelo Asus encolheu-se a um canto, desconsolado.

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24 Agosto 2008

Uma Modesta Antologia que Passou Despercebida teve no entanto direito a crítica por parte de Jonathan Cowie, que lutou contra a adversidade das traduções e escreveu um resumo conciso do conteúdo desta amostragem de FC europeia. Fala-se muito da antologia do Jim Morrow, que apresentou autores europeus de língua não inglesa ao mercado norte-americano. Embora um excelente e inovador projecto, cheio de seus riscos e dificuldades, é também uma bofetada na cara dos europeus, que não parecem capazes de se juntar para realizar algo semelhante. Creatures of Glass and Dark foi uma excepção, publicada em 2007 por ocasião da Eurocon em Copenhaga, e na qual participei. Cowie tem isto a assinalar do meu conto:

«Appendix to an Unknown Work by Luis Filipe Silva (Portugal). In the future fragmented records are discovered that suggests a past covert and coordinated attempt to takeover society might have taken place, but then again the 'records' could just be a fictional story? Actually I found this to be a very engaging tale once I had struggled through the translation.»

O que é excelente. Na introdução, Klaus Æ. Mogensen, o editor, refere-se à falta de meios para revisão e tradução profissional para um inglês literário. De facto, quando revi a versão inglesa do conto à luz desta observação estava por demais insuficiente. Que tenha conseguido entusiasmar o leitor, apesar das dificuldades, é uma recompensa acrescida. O conto, de inspiração Ballardiana, saiu em português no NOVA n.º 2, e em espanhol na Axxón.

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Fui BoingBoing'd. Por ter traduzido e publicado o conto Printcrime de Cory Doctorow aqui no TecnoFantasia. Já era tempo de os fãs portugueses darem o seu contributo.

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23 Agosto 2008

NÃO É ALGO QUE COSTUME FAZER, mas numa era de pseudo-espiritismo e de ensinamentos de auto-ajuda perfeitamente insalubres (e bastante irresponsáveis, sejamos claros; em grande medida, quem procura sugestões para se orientar na vida encontra-se essencialmente na situação do amnésico que de repente acorda e se descobre ao comando de um Jumbo 737 cheio de passageiros; «caro Mestre iluminado, não faço ideia do que significam todos estes manípulos, alavancas, indicadores, volantes, pedais... socorro! Onde está o manual desta coisa?», e o grande Mestre iluminado exala uma baforada do cachimbo de ópio ornamentado a marfim e com olhos raiados dá-lhe uma palmadinha nos ombros, dizendo, «Procure dentro de você, meu jovem, procure bem dentro de você», enquanto lhe retira disfarçadamente a carteira) destaco uma mensagem é bastante prática, directa e pessoal. Chegou-me de uma forma inesperada, e possivelmente não teria investigado mais nem lhe teria dado crédito se não tivesse uma obrigação profissional associada que me levou a investigar. Ao contrário de Segredos e conferências sobre segredos e contra-segredos, é gratuita, pelo menos para nós, que não fomos quem pagou (pelo menos, por enquanto) o verdadeiro preço. Como dizia o autor no final, a mensagem não se nos destina verdadeiramente. As suas duas melhores observações por sinal não se encontram neste vídeo mas numa entrevista posterior - que o melhor conselho para pais que ouvira, tinha-lhe sido dado por assistentes de vôo: «Em caso de emergência, coloquem primeiro as vossas máscaras de oxigénio e só depois as das crianças»; e que, se havia algo realmente importante que tivesse querido realizar na vida, não era agora (na situação em que se encontrava) que o ia conseguir. Por sinal, serve também como reflexão da função e do papel do professor na sociedade, em particular para os próprios professores. Quanto a mim, conquistou-me quando revela que a sua conversão espiritual às portas da morte foi ter comprado um Macintosh. Estejam à vontade para ver aos poucos.

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