Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


07 Outubro 2008

Richard Morgan no Fórum Fantástico. A apresentação de domingo, um argumento interessante sobre as expectativas dos géneros e os impedimentos impostos aos autores. Em duas partes. Cortesia do Ricardo.

Richard Morgan     Richard Morgan - parte 2

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A Estrada Coberta de Vidros, e Estou Descalço. (Recuperação de um texto meu de Janeiro de 2001, quando ainda prometia haver futuro. Sobre Jano. Quem será Jano?)

2001. O ano mítico do contacto. O que temos e o que perdemos são as duas faces de um Jano impiedoso, que se pode chamar Tempo ou Entropia, mas ocultam normalmente um terceiro rosto, que é o do que não chegámos a ter.

Simbolicamente, onde se encontra o universo das nossas expectativas? Existirá mesmo esse universo, será real segundo o dogma de Everett (universos paralelos) ou o decair da onda probabilística, o desnudar da partícula, remete o que não chegou a ser para o reino do impossível, e portanto para sempre longe do nosso alcance? E contudo, se existir, poderemos ter acesso a ele? Acesso potencial e acesso efectivo são duas realidades distintas, como os arquivos governamentais e militares já nos fizeram ver - e não se trata apenas de uma questão de permissões. Num arquivo público milenário, tudo o que não se encontrar devidamente indexado estará para sempre perdido no meio de milhões e milhões de bits de informação, num estado potencial de não-existência, ou existência virtual, idêntico ao da física quântica. Ah!, poderia ter dito Murray Gell-Man, afinal são iguais as regras da informação e da física de partículas. Ou nas imortais palavras dos sábios orientais: «Se uma página web for colocada na internet, mas não estiver indexada em nenhum motor de pesquisa nem em nenhum portal, irá ser alguma vez acedida?»

Assola-me por vezes este conceito, que poderia dizer pesadelo, da biblioteca de Borges, onde estão contidos todos os livros alguma vez escritos, alguma vez por escrever. Todo o conhecimento da humanidade está lá, misturado com todas as mentiras e ficções e factos distorcidos. Um corredor de estantes que poderia atravessar a distância entre o Sol e Alfa de Centauro, ou secalhar até Tau Ceti (não fiz os cálculos, na verdade, o que é um mau exemplo de especulação), e tão inútil, tão desprovido de sentido e pragmatismo como a sua não-existência. Quanto tempo levaríamos a distinguir o que era verdadedo que o não era? E=mc2 ou E=m2c? O caminho da iluminação, tão querido aos praticantes das artes orientais, teria de ser percorrido com igual esforço - ou talvez maior, pois não teríamos bases, ponto de partida.

Talvez o modo de funcionamento do nosso universo seja então o correcto. Perde-se algo, ganha-se outro algo. Na transição encerra-se a experiência. Na experiência acumula-se a sabedoria para acelerar e melhorar o resultado da próxima escolha.

Mas alguma vez é a certa?

O mundo acordou para 2001 com sonhos de frigoríficos que encomendam leite a servidores remotos que despejam os pedidos em companhias de transporte, que por sua vez têm sistemas de gestão de inventário que fazem encomendas automáticas e previsões de vendas para outros sistemas remotos, controladores das linhas de produção, que fazem estimativas dos litros, e por consequência, do número de vacas necessárias para dar resposta ao pedido inicial do frigorífico, que não entende porque é que precisa de leite, mas sabe que precisa. Sonhos de silício. Máquinas que falam, portas que se abrem sozinhas, lojas que seduzem quem passa, quais protitutas de neón e vidro. Prateleiras customizadas. Livros que se escrevem enquanto se lê. Livros quese apagam depois de serem lidos. Livros que nem é preciso ler. O mundo como um brinquedo, um brinquedo típico de adultos: monumental, erótico, perigoso.

Kundera escrevia há tempos, «A infância é o futuro da humanidade». Ao que acrescentei, numa fase de rebelião juvenil, «e dos governos a paternidade» - mas a queda do Muro pôs fim às primaveras de Praga, e suas ameaças. Já não temos de temer os homens nos castelos altos, eles estão aqui connosco, sujeitos aos mesmos fantasmas. Os fantasmas dentro das máquinas. Nós. O que ganhamos, o que perdemos? A resposta terá de ser dada pelos nossos pais ou avós, e mesmo eles não entenderão a pergunta. Enebriados pela velocidade, sem regras de comportamento numa estrada que ninguém percorreu, dentro de um carro que ainda não sabemos conduzir muito bem, aceleramos todos juntos. No meu lugar, estou tão inebriado como os outros, a adrenalina corre, quero ver a próxima curva. Há uma sensação de desastre eminente, mas está tudo bem - não vai acontecer no nosso tempo, não vai ser a nossa geração a prejudicada. Ou estaria, se não olhasse ocasionalmente pela janela.

Aqueles rostos perturbam-me. Não são as formas esguias que cobrem a paisagem, indistintas e deformadas pela rapidez, que visualmente seriam árvores mas no espaço das metáforas, poderão ser os fantasmas de oportunidades perdidas, filosofias de vida diferentes, outras paixões - não são os vales e precipícios por onde alguns de nós vão tombando, pois desde cedo nos resignamos à certeza da morte. São os malditos rostos impassíveis, as faces brancas no meio da noite, observando-nos sem juízo nem curiosidade, que me perturbam. Os rostos todos, os pontos brancos, a cor da cal, os olhos negros cavados sem alma no interior, sem agitação, fantasmas ou apenas vizinhos do lado vivendo segundo outras regras. A maldita impassividade de todos eles que me faz sentir inseguro nas convicções, sentir que tudo isto é falso e irónico. O rumo não tem saída, o nosso fim não será o ponto de partida dos próximos, e como fósseis deixaremos apenas um sentimento generalizado de intriga.

Em 1968, quando Kubrick e Clarke andavam às voltas com o guião místico-mágico, à procura de verdades fundamentais e da abordagem cinematográfica correcta que disfarçasse a banalidade do enredo, deles era o sonho de uma Lua colonizada, de um espaço semeado de colmeias nos pontos de Lagrange, na expedição tripulada a Marte e Júpiter and beyond. Um futuro pontificado e beatificado nas páginas da Analog, nas palavras de Heinlein, nos ditames de Clement. O que tinham ganho, o que tinham perdido e do que estavam à espera, tudo era então diferente.

Jano não perdoa. Jano não tem duas, mas três faces.

1984. 2001.Qual o terceiro ano literário?

E será que dessa vez se irá cumprir?

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06 Outubro 2008

Três Perspectivas, Três Citações Diferentes que se retiraram da apresentação do documentário de António de Macedo no decorrer da modesta homenagem efectuada durante o Fórum Fantástico deste ano. Dizemos modesta porque é preciso que seja feita uma retrospectiva completa da sua obra e recuperação dos seus filmes. O documentário versava sobre a figura de Almada Negreiros, uma das pessoas mais citáveis do século XX. Das observações pertinentes registadas pelo João e pelo Pedro, deixo-vos com esta: «Pergunta: O que pensa da morte? Resposta: A morte não é como a vida, mas é como as etapas da vida.»

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05 Outubro 2008

There's a New Kid in Town. Para já o link e o titulo: O Terceiro Rosto de Jano. Mais tarde a explicação. Passem pelo Fórum Fantástico.

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02 Outubro 2008

Se Estiverem Interessados, uma pré-visualização da apresentação de mais logo nesta página. Com um pouco de sorte, conseguirei transmitir em directo. Depende da tecnologia. Tudo depende da tecnologia!

ACTUALIZAÇÃO: Afinal, a tecnologia não me serviu (ou eu não servi a tecnologia), uma vez que a banda larga de um dos serviços nacionais de telecomunicações tem dificuldade em atravessar paredes, o que entendo. Fiquem então com a apresentação e uma promessa de relato mais logo.

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01 Outubro 2008

Conselhos de Escrita do mestre Stephen King, que toca num ponto fundamental. Escritores que não têm por hábito ler industrialmente - ler não apenas blogues ou notícias, e nem sequer apenas um género, mas mergulhar de forma diversificada e abundante nos livros, desde literatura mainstream, mistério, thrillers, romance histórico, novelas românticas, ficção científica, fantasia, horror, ensaio, biografia, temas actuais, em suma, tocar em tudo para conhecer como se faz e que temas e peculiaridades caracterizam cada género, antes de se concentrar num preferido - tornam-se profissionais desirmanados das ferramentas do ofício. A linguagem banal do quotidiano não é a linguagem usada na prosa, nem um romance segue a estrutura dos dias. Um romance é um universo-cápsula, um conjunto de instantes capturados e organizados na sugestão de um sentido e de um progresso (ou retrocesso). A estória de um romance, quando este é bem feito, ocorre dentro de uma estória maior, de igual forma que o autor não pode ser separado da vida de tudo o que o rodeia nas suas breves décadas de passagem por este plano. A única forma de polir as ferramentas da linguagem é estar atento a ela, ao ritmo das narrativas, à peculiar evocação de ambientes conferida pela organização das frases e dos parágrafos. E para isso, é preciso estar em constante diálogo com os autores, com os livros. Nada os substitui.

Além disso, é importante uma educação basilar no momento correcto. Também na leitura há épocas. Contactei com os clássicos (Melville, Sartre, Homero, Eça, etc.) durante a juventude, quando havia tempo e paciência, nos tempos em que a técnica se desenvolvia e tinha sede de aprender. Lia Ellery Queen e Ruth Rendell e Conan Doyle e Louis L'Amour e James Fenimore Cooper. Enchia as prateleiras de ensaios de física, astronomia, biologia e sociologia. Lia toda a ficção científica a que conseguia deitar mão e que a mesada conseguia financiar. Era uma perfeita esponja, absorvendo e analisando como os autores faziam, o encerramento de capítulos, a passagem entre cenas, ficando maravilhado quando descobria alguém que tinha feito algo de diferente com excelentes resultados (como, por exemplo, contar uma história em sentido inverso, que só encontrei uma vez e que me inspirou na experiência que poderão encontrar n'O Futuro à Janela). A razão entre horas passadas a ler e escrever pendia proporcionalmente para beneficiar a leitura. Hoje em dia, por motivos óbvios da falta de tempo que decorre de uma vida adulta, é impossível dedicar tanto tempo e ter igual paciência e vontade de mergulhar em todos os autores e temas. Há muito para ler, anos insuficientes pela frente, e escolhas acabam por ser feitas.

Não sei se ainda se lê tanto, se os jovens autores percebem o que lhes falta antes de procurarem criar textos de ficção. Das minhas actividades como seleccionador para antologias e prémios, é nítida a falta de contacto de certos participantes (infelizmente com maior frequência do que esperava) com a riqueza da palavra escrita. A escolha de frases banais de uso corrente, a falta de percepção de ritmo e do suspense (suspense no sentido lato de manter uma história interessante e não somente o que decorre de revelações intervaladas), a incongruência inclusive entre afirmações proferidas (por exemplo, o autor afirmar repetidamente que uma determinada cidade tem 500 anos de idade, para, a páginas tantas, no decorrer de outra descrição, mencionar que há mil anos que não sofria uma invasão... - este exemplo, já agora, é do passado e não está relacionado com os meus actuais processos de selecção). E muitos outros problemas que impedem que a boa intenção do escritor seja transmitida para a página. Não sei que fenómeno seja este, mas desconfio que esteja relacionado com o facilitismo da publicação («publica-se fácil e rapidamente na internet, porque não em papel?») e com a ausência de foros de crítica responsáveis nos quais a sensível auto-estima do pretendente a autor seja alvo de fortes pancadas, como nos templos shaolin das tardes da SIC, até sair dali um valoroso guerreiro da prosa. A leitura abundante resolve alguns destes problemas, porque normalmente enche o espírito do jovem autor de exemplos e inspirações que naturalmente quererá verter nas suas próprias obras de forma organizada.

O tema é vasto e voltarei a ele brevemente. Deixo-vos com o Steven.

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29 Setembro 2008

Cinco Horas de Terror em Directo, Passados dez anos do trágico 30 de Setembro de 2017, que para sempre ficará na história da Eupora como o dia das Cinco Horas de Terror, será transmitida amanhã no Canal 99, numa emissão directa e em simultâneo com canais europeus e alguns norte-americanos, uma recriação dos acontecimentos que captivaram a atenção do mundo e obrigaram a profundas alterações na indústria da aviação comercial. Este teledrama conta com a participação de uma vintena de actores e mais de duas centenas de figurantes, que irão actuar em cenários construídos para o efeito nos mais diversos centros de produção europeus. A transmissão será particularmente exigente a nível logístico, pois irá envolver a coordenação em directo entre vários países, bem como a sincronização precisa do ritmo narrativo – um cronómetro comum irá acompanhar o desempenho dos actores, desde o início do ataque informático aos primeiros aviões que foram levados a despenhar-se, numa tentativa de recriação precisa dos momentos cruciais. A história, elaborada a partir dos relatórios oficiais, procura ser um testemunho isento, apresentando em igual medida o ponto de vista das vítimas, dos militares, do Parlamento e dos terroristas, e não poupará sequer as explicações técnicas de como conseguiram estes penetrar nos sistemas de controlo de tráfego aéreo. Afirma o comunicado de imprensa que é também intenção, além de manter viva a memória, relembrar as lições aprendidas e as medidas tomadas posteriormente para tornar a aviação comercial mais segura. [Agência Nacional de Notícias, 29.09.2027]

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