Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


29 Outubro 2008

Acabou de Dar Entrada no Meu Covil, cortesia da Gailivro, um exemplar de um romance extraordinário, da autoria de um dos mais interessantes e inovadores criativos de Ficção Cientifica: Ian McDonald. Britânico radicado em Belfast, a escrita de McDonald representa possivelmente um dos mais perfeitos exemplos do que significa escrever-se neste género: a senda por lugares exóticos distantes do conforto urbano do mundo ocidental; a mistura conflituosa entre tradição e misticismo com modernidade e ciência/tecnologia; uma escrita exigente, flexível, que corresponda às necessidades da obra. Brasil é o seu romance mais recente e também o próximo livro da colecção 1001 Mundos; sobre ele falaremos com maior detalhe quando se encontrar nas bancas, já em inícios do próximo mês. Para já, fica a indicação de que foi um concorrente ao prémio Hugo deste ano e que foi galardoado com o British Science Fiction Association Award. E que caminha para se tornar num clássico de culto. Eis uma apreciação crítica de Adam Roberts, também ele autor de FC. E apresento a capa da edição estrangeira (ainda não tenho imagem da edição portuguesa, mas segue fielmente a original, ostentando o título BRASIL), uma inebriante ilustração de Martiniere recheada de neón. Para já encontra-se no topo da minha lista pessoal das melhores obras lidas este ano.

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28 Outubro 2008

O Não-Book Trailer. Ou trailer de não-book. A verdadeira questão encontra-se na página 42, perdão, na resposta ao sentido da vida, do universo e tudo o resto. Mas qual é a pergunta?

(Via PP)

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27 Outubro 2008

Para Equilibrar as Diferenças face ao outro post, eis agora uma abordagem a partir do outro ponto de vista... obey-your-command...

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Já o Sherlock Holmes Se Preocupava com a insensata disparidade entre disseminação de conhecimento e ausência de memória.

To carry the art [of knowledge] (…) to its highest pitch, it is necessary that the reasoner should be able to utilise all the facts which have come to his knowledge; and this in itself implies, as you will readily see, a possession of all knowledge, which, even in these days of free education and encyclopaedias, is a somewhat rare accomplishment.

The Five Orange Pips (1891)

O que diria então da internet?

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26 Outubro 2008

«Tudo o Que Possa Acontecer, Acontece». Mas como explica Garrett Lisi (brilhantemente descrito como «físico-surfista»), não implica que tudo tenha efectivamente de acontecer. Esta palestra, críptica na sua maioria para alguém que não seja especialista (e eu não passo de um mero espectador distante que em tempos escolheu não se aproximar), apresenta momentos de encantamento, pois permite uma entrada na mente do matemático e do físico como alguém cuja missão na vida é encontrar a beleza pura do mundo, a que se descreve por meio de padrões perfeitos e intocáveis, e que não é perturbada pelo ruído do macrocosmos mundano. Em grande parte, a missão da Ficção Científica, na medida em que possamos falar de uma missão, encontra-se intrinsecamente ligada com esta procura de beleza e harmonia transcendente ao ser humano, cujas raízes não se centrem na imperfeição do espírito ou de misticismos e deuses da nossa invenção, mas na observação dos factos e das regras que rejem os factos, na contemplação do sublime no universo.

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«Contos Bizarros» é uma revista que teima em ressurgir da campa, pois sempre que se tentou terminá-la, desde o momento em que foi criada em 1923 pelo jornalista J.C. Henneberger, outro editor ou entusiasta decidia adquiri-la e fazê-la respirar por mais um punhado de números. Como todas as revistas da era pulp e subsequentes, serviu de laboratório para o surgimento de novos autores e como impulsionadora de carreiras literárias - a presença constante e demarcante através do formato conto permitiu a muitos nomes, hoje bastante conhecidos (Robert Bloch, Robert Howard, Fritz Leiber, Theodore Sturgeon, entre outros), construir um base de leitores e saltar para o formato livro quando este se começou a tornar relevante nos anos 50. Uma estratégia que passa ao lado de muitas editoras actuais...

A última encarnação da revista leva Ann VanderMeer, esposa do conhecido autor que nos visitou em 2006, ao leme, e digamos que a escolha não podia ter sido melhor. Entre as inúmeras mudanças, encontra-se um sítio web melhorado e uma iniciativa de One Minute Weird-Tales, cujo primeiro número vos deixo, uma mini-história que fará as delícias das seguidoras «os-homens-não-prestam» da Margarida Rebelo Pinto:

(via SfSignal)

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25 Outubro 2008

Que Um Autor Tenha um Momento Hemingwayesco como este (refiro-me a este momento) nos dias que correm é, lamento dizê-lo, pura ingenuidade. Nem me refiro ao roubo. Os computadores são instrumentos instáveis, cheios de manias e humores, que é preciso amansar com flores e chocolates e idas ao cinema (esperem, confundi-me...). Guardar o nosso trabalho mais importante nas entranhas de um destes bichos e esperar que tudo corra sempre bem é como deixar o nosso bebé vigiado por um leão. Na era dos bits e da electrónica, caros aspirantes a escritor, façam cópias. Não custa nada. E no que toca à escrita (que se possa traduzir num punhado de documentos de texto contendo diversas variantes do livro, listas de links e excertos para referência, talvez PDFs ou ficheiros de imagem contendo páginas scanneadas de bibliografia, tudo arquivado numa meia-dúzia de pastas organizadas), nada mais simples do que produzir um ficheiro comprimido com toda a parafernália envolvida e guardá-lo, não apenas num disco externo, pen ou cartão digital, mas online.

Sim, online. Existem dúzias de sítios que, gratuitamente ou por poucos dólares, guardam ficheiros para acesso remoto em qualquer parte do mundo (por exemplo, este). Contudo, para o fim em questão, nem isto é necessário. Basta abrirem uma conta no Gmail, criar uma mensagem, fazerem a anexação do ficheiro e guardarem a versão rascunho com uma indicação no «Assunto» do conteúdo. Não a enviam a ninguém - este rascunho irá manter-se indefinidamente até o apagarem, bastando aceder a esta área e descarregar o ficheiro para outro computador ou substitui-lo por outro mais actualizado quando quiserem. Roubaram-vos o equipamento, o controlador do disco pifou, deixaram de ter acesso à informação? Rapidamente sacam de outro computador, alugado ou emprestado, e continuam a escrever alegremente para cumprir o prazo anunciado. Mudando primeiramente as palavras-chave dos sítios online, obviamente. Vão de viagem e não querem perder o contacto com a obra? Entrem num cibercafé por alguns euros à hora (cuidado com as palavras-chave, novamente) e é como se continuassem em casa. Eis o milagre da globalização.

E para situações nas quais não se tenha a certeza de dispor do software correcto para continuar a trabalhar no texto (algo muito comum a quem muda constantemente entre Mac e PC), existem aplicações online para processamento de texto que apenas necessitam de um navegador e de uma ligação à internet - Google Docs, Zoho Writer, entre outras. Ou então abrem um grupo num fórum de discussão do qual sejam vocês os únicos participantes (e talvez alguns amigos mais chegados), como o Yahoo! Groups ou o Google Groups, e poderão ir enriquecendo, directamente no grupo ou por envio de emails, a obra, pedaço a pedaço. Li em tempos um artigo sobre alguém que aproveitava os tempos mortos no emprego para enviar emails a si mesma (actividade que não despertava as suspeitas dos colegas), nos quais ia construindo o romance.

Dirão que nenhum método é seguro, que todos estes são falíveis - as contas podem ficar bloqueadas, o fornecedor pode desaparecer. Concordo absolutamente. Por isso é que defendo que se devem usar todos eles. Guardar ficheiro e escrever num grupo e colocar o texto num blogue privado e manter cópias de segurança físicas. Distribuir o risco para evitar a perda completa. Ter o cuidado de datar os textos para se poder voltar atrás e conseguir-se conjugar as versões. E escolher-se soluções que permitam um acesso rápido a partir de qualquer dispositivo, em qualquer momento, para aquela situação em que, enquanto se espera na fila, surja a cena perfeita que deve ser registada imediatamente - bastando só sacar de um telemóvel com teclas e escrever alegremente...

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Enrico Fermi, Extraterrestres e John Hodgman. E também o Algarve, Sagres, Faro e cães (quase no final). Uma estranha mistura. Todos somos os extraterrestres de alguém. (Via Bibliotecário de Babel.)

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Uma Prova De Como o Poder da Ficção pode ser usado para condicionar a opinião das populações. Um ambiente distópico, em close-up e planos fechados (senhores realizadores portugueses, vêem como não é preciso grandes orçamentos para curtas de ficção científica), um exagerar dos medos amplificados pelos meios de comunicação, um ambiente de ironia, e de repente, no final, o espigão político. Basta apenas pegar em conceitos simples e levá-los às últimas consequências. Como se de facto a renovação do Executivo venha realmente resolver problemas tão estruturais como estes no decorrer de um mandato, seja qual for a face da mesma moeda que vença. (Fico curioso para saber de que forma este concurso de personalidades influenciará as nossas vindouras eleições lusas, em particular com uma ausência tão demarcada de carisma em todos os nossos concorrentes. Irão pintar o rosto da candidata social-democrata de graxa? Não percam os próximos episódios.) (Obrigado, Pedro.)

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22 Outubro 2008

Intermináveis Horas de Trabalho grassam as páginas dos volumosos manuscritos com que os autores nos honraram no decorrer da participação nesta primeira edição do prémio Bang! de Literatura Fantástica. Palavras intrépidas percorrem os ficheiros das submissões à antologia de pulp fiction (a caminho da centena!). Inúmeros parágrafos após parágrafos enchem as participações a este sítio web, a outras iniciativas e antologias, a solicitações voluntárias de apreciação. No decorrer dos últimos anos tenho tido a oportunidade de contactar directa e indirectamente com a produção em bruto de literatura luso-brasileira na área do fantástico. Tenho visto material nos mais diferentes níveis de qualidade, do mais elevado ao mais baixo. Escrita exemplarmente cuidada ou criminosamente desleixada. Enredos vincados ou enredos ausentes. Personagens credíveis e personagens que, a bem dizer, é melhor não. E as diversas cambiantes pelo meio.

Há de tudo. Há, também, erros, alguns óbvios, outros menos óbvios. Diferentes participantes têm diferentes posicionamentos na grelha de partida – alguns estão tão atrás e tão às escuras que se chegarem à meta é uma sorte. Outros parecem ter nascido para a coisa e surgem como o Michael Phelps da escrita. Como falamos de literatura, não acredito que seja genético. Não creio que haja uma aptidão natural para contar e lidar com as palavras. Creio, isso sim, num problema de desinteresse e ingenuidade. O bom escritor está atento aos comentários dos outros escritores, aprendem com os exemplos, observam com atenção o mundo editorial, lêem as novidades e os clássicos. Os escritores menores estão distraídos, ou pensam que basta fazer uma pirueta e já está, ou copiam material desta fonte e personagens da outra julgando, como qualquer puto de escola, que o editor não os apanha a copiar.

Como em tudo na vida, o respeito com que tratamos o nosso trabalho (e por conseguinte, o respeito com que nos tratamos a nós próprios) reflecte-se no próprio trabalho e por sua vez convida ao respeito dos outros. A falta de respeito segue a mesma regra.

Eis algumas observações, não exaustivas, para aspirantes a escritor:

Aprendam a gramática. Parece óbvio. Um condutor profissional deve ter primeiramente tirar uma licença de condução. Um médico deve fazer um curso e uma especialização. Um advogado precisa de credenciais e referências de estágio. E todos precisam de experiência. É assim, inadmissível, que um autor não tenha igual cuidado nos manuscritos que envia. Em época de validação automática de caligrafia e de regras gramaticais, continuam a surgir manuscritos nos quais os géneros das frases não concordam, ou o plural dança desarticulado com o singular, ou as frases encadeiam-se umas nas outras com ausência de pontuação (ou, excesso, de, vírgulas,e,pontos;e;vírgulas;), ou, pior dos crimes, «há» confunde-se com «à» e vice-versa. As palavras são o instrumento do autor, os parágrafos os edifícios com que constrói o edifício. Erros todos cometemos, mas quando se é confrontado constantemente com a preposição «á» durante 200 páginas, é natural que a irritação fermente…

Enviem de acordo com o espírito do género. De uma vez por todas, um concurso de literatura fantástica não é um concurso de romance de cordel. Histórias para um prémio de literatura policial é bom que incluam detectives ou polícias ou criminosos ou mortos, à descrição ou às pazadas, mas não que os omitam, nem que os ignorem, nem que se preocupem em explicar porque não se encontram lá. Romance histórico deve estar muito bem demarcado no tempo e no espaço. Se vão participar num género, leiam o género, percebam as regras, as expectativas, e já agora, é bom que gostem do tema, ou que seja excelentes a esconder o desprezo. Tudo o demais é perder oportunidades e tempo – ao autor e aos editores. E se porventura o motivo porque cometem este pecado seja o desespero – enviaram o manuscrito a várias editoras, não receberam resposta e pensam que ao menos o prémio vai obrigar alguém a passar-lhe a vista por cima -, apenas dois comentários: primeiro, se o editor quisesse encontrar livros fora daquele género, não tinha anunciado um prémio dessa natureza; e, segundo, se o manuscrito já deu várias voltas e continua a ser rejeitado, talvez seja a hora de aceitar a possibilidade de que seja efectivamente mau.

Não vendam gato por lebre. Uma história intimista de escolha entre um amor e outro não se torna fantástica só porque ao invés de Lisboa nos encontramos em Xorpetes, por exemplo, ou chamamos Tribo ao país, ou ao invés de presidente temos o Ancião, e Todos os Lugares e Nomes Existem em Iniciais Maiúsculas. Também não vale entregar um ceptro mágico ao protagonista para resolver situações difíceis, mas apenas estas e não outras mais básicas, como por exemplo, perceber onde está (o ceptro nem sequer tem uma função de GPS?). E o uso de um ceptro mágico deve ter um custo associado, como por exemplo, reduzir tempo de vida a quem o usa – céus, até usar um telemóvel gasta bateria. Regra de ouro: se não há motivo válido para que a história seja fantasia, não escrevam fantasia. Escrevam mainstream, policial, thriller. Não é uma desonra.

Sejam constantemente interessantes. Não demorem sete capítulos e trezentas e vinte páginas a chegar à parte entusiasmante. Em particular, se todas essas páginas forem gastas a contar uma história exactamente igual à que se pode encontrar no Tolkien, no Jordan, numa série televisiva, num livro infantil. Uma história que logo à primeira página podemos adivinhar com rigor todos os acontecimentos das centenas seguintes. Não há nada mais sonolento. Perderam vocês dias a labutar entre frases e falas, e o leitor limita-se a passar os olhos pelo texto e avançar rapidamente de página para página para página, até chegar a algum ponto interessante, e nem cinco minutos gasta.

Releiam várias vezes o material. Escreve-se um romance como se devora um elefante (às fatias), e é natural que surjam inconsistências e distracções. Por isso, é necessário reler, e reler com atenção, o que implica deixar o livro assentar durante semanas ou meses e voltar a ele com novos olhos. Assim se percebe que o personagem é António no capítulo três e Alberto no sete. Que a Maria se torna em Manuel sem alteração corporal (coisas que acontecem...). Que a paz dura há cinquenta, trinta, vinte e sete e seiscentos anos (a paz é volátil, pois então). Assim se evita situações embaraçosas de ter uma espécie alienígena que começa por ser descrita como reclusa e ameaçadora para qualquer ser humano, para logo se comentar que afinal tinha uma fisionomia débil e diminuta, e revelar-se logo a seguir que era perseguida pelos caçadores das aldeias - tudo isto na mesma página. Por favor, decidam-se...

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