Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


27 Abril 2009

Em Obediência Ao Velho Ditame que os portugueses só olham para o passado, o 25 de Abril é um dos poucos acontecimentos históricos recentes que, inevitavelmente, serve de contraponto para situar histórias de encontros e desencontros, perspectivas pessoais, esperança e transformações, dada a natureza revolucionária. Torna-se assim triste ficar a saber, no decurso dos documentários apresentados durante o passado fim de semana nos nossos canais televisivos, que o principal instigador dos acontecimentos daquele dia tenha sido, após o inevitável cansaço da guerra, questões de pormenor relativas à carreira militar... Enfim, retira bastante da nobreza e do altruismo da ocasião, embora os actos e as decisões dos militares tomadas no decurso do movimento continuem a ser colocados no alto de um pedestral - e a decisão única, louvável, de evitar a todo o custo o derrame de sangue. Acontecimento romântico por excelência, traduziu-se numa capacidade de mobilização e motivação deste povo (inevitavelmente levado ao exagero em certas situações, antes de começar a acalmar face à crise que se lhe seguiu), a qual, efectivamente, apenas voltei a encontrar aquando do Euro 2004, que agora começa já a ser objecto de saudade... Mobilização e motivação que acaba por se traduzir em ficção intervencionista, ou pelo menos, repleta de insinuações (um romance nunca deveria causar menos impacto que uma arma carregada).

Não deixa de ser interessante notar que é um dos poucos momentos da nossa história que é alvo de análise (no formato romance) das possibilidades alternativas do seu desfecho. De acordo com o noticiário recente, Alvorada Desfeita de Diogo de Andrade é uma entrada recente para este cânone (ainda não me deparei com a obra nas livrarias para poder formular uma opinião), mas recordo-me de não ser a única - embora não tenha presente todas as obras, tenho encontrado, desde talvez o início deste século, versões publicadas em editoras menores sobre o que teria acontecido ao país se a Revolução dos Cravos não tivesse sido bem sucedida.

Esta necessidade de efabular um outro desfecho possível de um acontecimento histórico apenas encontra eco no regresso de D. Sebastião e no caso muito particular do exemplo falhado (enquanto exercício de história alternativa, como já tive ocasião de explicar) da conquista da capital aos mouros tal como retratado pela História do Cerco de Lisboa. Para uma terra repleta de passado e mergulhada de cabeça nos feitos de outrora como a nossa, é estranha a necessidade de respeito absoluto e reprodução total dos acontecimentos - sabendo nós que qualquer ficção histórica, por muito rigorosa que pretenda ser, acaba por tornar-se numa versão alternativa dos acontecimentos, nem que seja pela mera suposição que o desenlace e a participação dos intervenientes aconteceu em conformidade com os poucos registos existentes. Os nossos autores respeitam demasiado, subvertem pouco. Precisávamos de obras nas quais os Descobrimentos não tivessem ocorrido, ou tivessem sido ganhos por Castela. Nas quais o Estado Novo nunca se tivesse concretizado. Nas quais o exército napoleónico tivesse entrado e permanecido durante anos. Nas quais Isabel, A Católica tivesse preferido Afonso V ao aragonês D. Fernando e estabelecido uma diferente união ibérica. Na qual Colombo fosse financiado pelo reino portucalense e disseminado a nossa língua pela América do Norte. Ficções histórias baseadas em alternativas razoavelmente possíveis, sem motivações ulteriores e que sejam fruto de uma análise fundamentada - e não reflectindo possíveis fantasias utópicas inverosímeis, ou críticas políticas actuais disfarçadas de romance, como os casos de A.D. 2230 e Euronovela, para mencionar dois dos exemplos mais conhecidos.

Que Portugal teríamos, então? Que povo, que mentalidade? De que feitos nos poderíamos orgulhar? Que futuro se nos depararia? Não basta descrevermos a imagem reflectida no espelho para nos sentirmos caracterizados. Por vezes, há que considerar o que poderíamos ter sido, e perceber quanto de nós se deve à permanência e quanto se deve à circunstância.

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22 Abril 2009

A Importância da Índia. É uma estranha coincidência ter tido oportunidade de viajar naquele frenético e vigoroso comboio que é Slumdog Milionaire de Danny Boyle, um virtuosismo de fotografia e montagem que consegue retratar uma parte da Índia, da sua cultura e complexidade, não obstante a abordagem leve e necessariamente ligeira, e segundo me foi dado a entender - não tendo tido ainda contacto com a obra de Vikas Swarup - , o ter passado ao lado das questões mais negras do livro. Aparte estes detalhes, e considerado como mero espectáculo cénico, é uma história de telenovela vestida com saris e punjabis, a apresentação de uma infância a todos os níveis miserável mas que não consegue derrubar o espírito positivo dos protagonistas. É contudo, uma telenovela para ocidentais, estranhos à terra - Bollywood não retratará assim o próprio país, será mais doce e elegíaco, na tradição confirmada de que preferimos conhecer as misérias alheias que as da própria casa. Será assim em territórios circum-atlânticos e mediterrânicos que encontraremos audiências presas num misto de fascínio e horror pela brutalidade da existência, mas, tal como os protagonistas, emergindo do encontro incómules - sem passar pela violência emocional de perder um dos entes queridos da narrativa, por exemplo, nem ter de defrontar-se visualmente com a presumível violação sexual da rapariga Latika -, o não deixa de ser uma batota em termos narrativos. Mas depois existe toda a energia, o contraponto da música, a vontade contagiante de viver, a colocação vertiginosa da câmara, que desde o início nos confessa que vai ser bondoso para com os personagens. Que distância o separa do Watchmen, pensei. Como se consegue realizar uma adaptação que faz sentido em termos cinematográficos e ser-se simultâneamente uma incursão verosímil num espaço cultural distinto do nosso - ao contrário do perfeito desastre que consistiu a presumível adaptação de uma das mais importantes obras da Banda Desenhada, não obstante o igual virtuosismo a nível de efeitos (incluindo cenas perfeitamente fascinantes na superfície de Marte). Embora não discordando completamente da opinião fundamentada do David, inclino-me mais para a do Lucius e pergunto-me, como este, «para quê que isto serviu». Que propósito serviu quando a obra original está disponível e é tão acessivel visualmente quanto o filme. Tentar ser-se fiel ao livro não contribuiu para tornar a peça numa obra cinematográfica, e neste caso creio que foi contraproducente. E depois aquelas ridículas escolhas (o voice-over de Rorscharch, o tema «Aleluia» durante a cena prolongada de sexo, ou se quisermos ser picuinhas, o completo desenquadramento da banda sonora). Os actores fizeram o melhor que podiam com o material. Mas perdeu-se em estrutura narrativa (a versão bd aproveitou a publicação em fascículos para o desenrolar da trama e dos personagens de uma forma que o filme nunca seria capaz, contribuindo para a experiência total literária) e na ideia de filme como um todo, autónomo enquanto objecto de cinema, enquanto viagem . Uma experiência falhada, na minha opinião.

Mas comecei, referindo-me à Índia e a coincidências - e não poderia haver maior que encontrar-me profundamente mergulhado no futuro deste país, conduzido pela mão segura de Ian McDonald, adentrando-me nas 600 páginas de River of Gods, a segunda escolha do Círculo de Leibowitz, cuja entrega crítica foi acordado entre os diversos membros participantes ser adiada para Maio (as críticas deveriam ter sido apresentadas ontem) dada a complexidade e extensão da obra. Espero que nos acompanhem igualmente neste clube de leitura.

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16 Abril 2009

Talvez Não Seja A Mais Interessante entrevista com um dos grão-mestres da Ficção Científica, mas é um testemunho raro - e ao qual possivelmente jamais teríamos acesso se o nosso único divulgador audiovisual fosse a televisão. Isaac Asimov atravessava aqui o período final da sua carreira, no qual tentou unir, com sucesso questionável, a saga da Fundação (quase toda editada pela Livros do Brasil nos anos 90) com a dos investigadores R. Daneel Olivaw e Elijah Baley (apenas editados: As Cavernas de AçoAmeaça dos Robots, também pela Livros do Brasil, nos anos 60).

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14 Abril 2009

E No Princípio Eram Os Clássicos, sem os quais não existe o agora da literatura. Por um lado, Philip K. Dick e Beyond Lies the Wub. Por outro, um tratamento muito diferente: «The Man Who Lost The Sea», talvez a primeira das inúmeras ficções que detalham uma primeira incursão ao planeta vermelho que termina em desastre, aqui trabalhada com uma tal maestria da linguagem e propósito que a tragédia se transforma em arte e não num mero acaso de enredo. Eis a diferença entre literatura popular e literatura. Sturgeon ter-se-ia possivelmente estragado num outro tempo, num outro género. Felizmente, escolheu escrever FC. (E já agora, dêem graças todos os dias pela existência da internet e de tudo vos estar assim facilitado; como todos os que viveram na esquecida Idade Offline, amarguei até, por mera coincidência, encontrar uma cópia em n-ésima mão de uma antiga antologia de contos de FC num alfarrabista, na qual se escondia timidamente este conto). 


Digamos que eras aquele miudo: digamos, no entanto, por fim, que és o homem doente, uma vez que são a mesma pessoa; serás certamente capaz de entender o motivo pelo qual, embora desfeito, em estado de choque, a sofrer de radiação calculada (à partida) radiação computada (à chegada) e radiação além do suportável (prostrado junto aos destroços da Delta), irias recordar o mar. Pois não há lavrador que manuseie a terra com amor e sabedoria, não há poeta que sobre ela cante, não há artista, construtor, engenheiro, nem sequer uma criança em pranto ante a impossível beleza de um campo de narcisos - nenhum destes indivíduos terá uma relação tão íntima com a Terra quanto os que vivem, habitam, respiram e erram nos mares. Eis os pensamentos que te devem ocupar; os pensamentos que te vão distraindo até te sentires menos doente e seres capaz de enfrentar a verdade.

A verdade, então, é que o satélite que ao fundo se desvanece é Fobos, que as pegadas são as tuas, que não há nenhum mar por perto, que te despenhaste e te deixaste matar e em breve estarás morto. A gélida mão que aperta e detém o teu coração não é a da anoxia nem sequer a do medo, mas apenas a da morte. Logo, se houver algo mais importante do que isto, eis chegado o momento de se revelar.

O homem doente encara a sequência das pegadas que ele próprio fez, testemunhas do seu completo isolamento, e os destroços mais ao fundo, que afirmam não haver retorno, e para o branco leste e o difuso oeste e o satélite pálido e tremelucente no alto. O som das ondas ecoa nos ouvidos. Escuta-lhes o pulsar. Ouve o que resta da sua respiração. O frio cinge o abraço e envolve-o para lá da sensação, para lá dos limites.

Fala, então, berra: que em glória levará o triunfo para o outro lado da morte, como se levasse um peixe grande, como se completasse uma tarefa hercúlea, recuperando o equilíbrio no final de um salto ousado e heróico; e como antigamente diria «apanhámos um peixe» não se refere a si mesmo:

«Deus», berra, enquanto morre em Marte, «Deus, conseguimos chegar!»

 

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04 Abril 2009

Se Ainda Tinham Dúvidas, eis a crise explicada ao pormenor. A situação portuguesa não espelha este ciclo (temos um sistema de crédito à habitação fortemente protegido por legislação) mas sem dúvida que fomos levados na onda de choque (o dinheiro não tem pátria nem raça nem ideologias). Via Artur.

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03 Abril 2009

Sim, É Incrivelmente Amador e um tudo-nada sentimentalóide (previ sem dificuldades a cena final das mãos), mas é um curioso filme sobre o fim de um mundo enquadrado no fim de outro mundo, e talvez uma possibilidade de renascimento. Como curta, toma algumas liberdades de produção, como as cenas de exterior na rua estranhamente ausente de pessoas a correr em desespero e com os carros todos bem arrumadinhos, estacionados junto ao passeio como se o futuro fosse efectivamente uma promessa. O recurso à explicação via telejornal acaba por ser bem aproveitada, e parece-me que o locutor é o único de todos os personagens que realmente está ciente de que o mundo vai acabar. No entanto, algo que todos os autores deste tipo de histórias catastróficas sempre se esquecem é de que a infrastrutura tecnológica da sociedade deixaria de funcionar após poucos dias sem ninguém a supervisionar. Alguém ainda estaria a trabalhar a poucas horas do fim do mundo para que o protagonista conseguisse fazer telefonemas por telemóvel? Para que a própria televisão funcionasse? A electricidade? De tudo, isto é o que me parece ser verdadeiramente implausível, pois não entra em consideração com o comportamento normal do ser humano.

Quanto à evidência de uma relação inteira vivida num par de horas, acabou por funcionar para mim como o contrário do que certamente seria a intenção do autor. Um par de horas não substitui uma vida, a não ser que a experiência emocional seja intensa, imensa, como no caso de um grande amor ou de uma grande carência. Ao optar pela apresentação das vinhetas típicas de uma relação normal (nem sequer uma relação de amor mas uma que se torna rapidamente de habituação), o autor pode ter demonstrado como se consegue acelerar uma história de vida, mas infelizmente optou por uma vida monótona, como se se tivesse esquecido que um minuto junto da pessoa que se ama e com quem sentimos que queremos ficar alonga-se no tempo...

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