Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


30 Maio 2009

O Futuro dos Nossos Avós ao lado do presente dos nossos netos. O primeiro não passa de mera curiosidade, aparte o comentário jocoso no final a respeito da indumentária masculina, que teria de ter obrigatoriamente espaço para um telefone, um rádio e caixas para moedas - substitua-se esta última por dinheiro de plástico, e acabamos por perceber que as necessidades de então tornaram-se nas respostas tecnológicas de agora (estão a ver a utilidade da ficção científica em explicar o presente?). Relativamente ao segundo,  basicamente uma demorada e fascinante explicação do novo sistema de comunicações da Google, apresentada com o profissionalismo habitual destas empresas norte-americanas (mas tão longe dos sonolentos TechDays da Microsoft), é na sua simplicidade e pragmatismo uma efectiva promessa de revolução da forma como comunicamos e interagimos em sociedade. 2010 não será o ano da Lua nem de monolitos em Júpiter mas o do networking - talvez um conceito menos romântico e não tão belo de representar visualmente, mas sem dúvida essencial para a nossa sobrevivência enquanto espécie (assumindo claro que o sol não se torna em Nova nos próximos tempos). O que será possível realizar no limite com estas formas de comunicação é algo que começamos a ter dificuldade em antever, embora desconfie que o próximo passo significativo será o da introdução de mecanismos efectivos de conversão de fala em texto e vice-versa, para eliminação da interface teclado - se aliado à tradução instantânea, teremos o nosso primeiro peixe de Babel. Efectivamente, a geração a que se destina já nem é sequer a dos nossos filhos adolescentes, que com a sua dependência de SMS, blogues, tweets e outras modas se tornaram subitamente antiquados, mas sim aos pequenos que estiverem a dar os primeiros passos no uso das tecnologias de comunicação. Se o futuro dos nossos avós é algo que nos traz um sorriso (porque efectivamente acabamos por ser nós esse futuro), o futuro dos nossos netos encontra-se para lá do horizonte, e muito dificilmente conseguimos discernir uma sombra do que virá a ser.

(Nota para futuras discussões: a singularidade está à porta e somos nós - um organismo social inteligente composto por seres humanos individuais em comunicação permanente; ou por outras palavras, Medusa.)

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28 Maio 2009

A Finalidade De Uma Livraria é de ter livros. Não colunatas gregas, castiçais de ouro, escadarias vitorianas, vitrais de eras perdidas glorificando heróis que possivelmente nunca o foram. Que o tenham, é um acrescento para os sentidos, mas infelizmente é também uma glória inútil, um desvirtuar da função, pois sabemos que tal não acontecerá sem o sacrifício inevitável de espaço para livros. Muito e muito espaço para muitos e muitos livros. Por isso perdoem-me se não consigo reproduzir nas Byblos deste país a absoluta rendição do espírito à beleza da livraria e continuo a medir cada Fnac, cada Bertrand, cada Pó dos Livros, cada Livrododia, cada cantinho independente de bairro - sem prejuízo do interesse dos projectos e da simpatia das pessoas envolvidas - contra experiências de outras terras, essas sim monumentos à realeza da palavra. Deixo-vos um pequeno vídeo narrado de Jeff VanderMeer, que aqui explica a razão do porquê - ao olhar para estes corredores feios e belos, apertados mas que afinal contêm universos, percebo tão bem o que ele quis dizer.

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27 Maio 2009

O Dia Amanheceu com lembranças de uma antologia que vai envelhecendo aos poucos mas que graças à tecnologia da impressão a pedido nunca ficará amarelada nas pontas nem bafienta nem de capa apagada. Quem não se deu bem com o processo complicado de compras pela gráfica Lulu.com pode agora utilizar também a página mais amigável daquela mega-livraria internacional que é a Amazon. Infelizmente acrescentam a sua taxazinha, que não é pequena, e infelizmente não pedem opinião sobre o assunto, surgindo perante o editor com a atitude Fnac de «ou queres ou vai-te embora». Para contornar isto, lembramos que as outras opções de encomenda continuam disponíveis. A ver se é desta, meu caro?

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24 Maio 2009

Dos Deuses, o Rio que poderá enganadoramente ser o Ganges. A certo ponto McDonald afirma que a Índia não é a terra do individual mas do colectivo, que tudo é confluência e experiência partilhada, e para tal compara-a a uma viagem de comboio (também simbolizando o destino) cuja paragem final é a da própria morte, a qual acaba retratada, na perspectiva indiana, como uma troca de locomotivas, um entroncamento, em suma, uma fase da viagem e não o fim da mesma - algo que não encontra reflexo no pensamento ocidental, que consideraria o comboio como uma prisão, enquanto imposição da vontade de outrém e perda da liberdade individual, e a morte... bem, o que efectivamente é.

Efectivamente nunca saberemos na pele se esta é a verdadeira perspectiva dos nados e mortos em indo-território, a não ser que alternassemos de universo e de vida e mergulhássemos de cabeça num renascimento, dentro deste território milenar do misticismo e que como tal se assume (e é encarado mundialmente), mesmo em pleno século XXI da dita globalização e da procura de deuses mais sofisticados - algo que McDonald, sendo escritor e por isso incorrendo no pecado dos escritores de nos quererem convencer que em meras palavras conseguimos adoptar a alma de outrém, muito ardilosamente tenta conseguir. E são palavras rápidas, frases que nos atiram para outras frases, somos passados de mão em mão numa escuridão desconcertante que só no absoluto movimento alcança significado. Nada no livro nos convida à contemplação. McDonald não detém o veículo que conduz para nos explicar ou encantar, ele que saberá centenas de histórias e milhares de pormenores derivados da sua extensa pesquisa. O guia veio bem preparado, mas está com pressa, tem outros fins em mente, não se incomoda com o obséquio das apresentações. Estamos num comboio de alta velocidade, os conceitos surgem e passam, estão do outro lado da janela, não os tocamos, não nos tocam. Ele não quer que percamos tempo com o que já devíamos saber. A viagem acaba por ser um destino, e não um percurso. Um compasso de espera para observação enquanto a estação final, aquela onde a história do viajante realmente começa, não chega - uma atitude deveras ocidental.

É no entanto um percurso enebriante, pois as paisagens são coloridas e os eventos apresentados com salpicos de linguagem e maneirismos locais, tanto que se torna difícil, no conforto e protecção da nossa cabina de passageiros, de desviarmos o olhar. O guia sabe bem o que chama a nossa infantil atenção. Há um grau de virtuosismo evidente, um orgulho na exibição de poses de difícil equilíbrio que não esperaríamos de um britânico de meia-idade radicado naquele pedaço roubado pela Grã-Bretanha à Irlanda - o roubo consentido, tão incongruente à noção de uma Europa unida (a par de Gibraltar, por sinal) que por si só a invalida. O britânico tem plena consciência disso, e por isso explica pouco - talvez por saber que numa era internética todo o conhecimento pode ser questionado, mas creio que será mais pela incapacidade em efectivamente extrapolar para além do razoável a evolução de uma terra que não é a sua, o progresso de uma cultura que não moldou o seu modo de pensar, a alteração de um contrato social cheio de limitações e cláusulas em letras miudinhas - como qualquer contrato social - que não lhe limitou as opções de vida, ao contrário do que acontece com qualquer escritor indiano. Perceber esta limitação não é um defeito, antes um acto de plena honestidade, e como tal não oferece mais do que é capaz, não explica além do ele próprio entende. O resto... o resto é pecado de escritor, mas um pecado paternalista, pois procura tranquilizar o nosso sono com ideais de um futuro no qual a tecnologia, e logo o Homem, se proclama como único e absoluto Redentor de si mesmo.

E o que oferece McDonald? Nada mais que um tradicional conto de FC (questões quânticas e problemas informáticos, como convém na era pós-século XX da física) - universos paralelos, transsexualidade, corporações à escala nacional, e o paradigma do Alienígena Entre Nós em que se tornaram as Inteligências Artificiais (I.A.s) à solta, o único artificio literário da FC que ainda é aceite como factor quase divino pela mente céptica, tecnocrática, do leitor de FC. Sobre este enredo, ou a sustentá-lo, situa-se o filtro colorido da Índia, em jeito de cenário, um toque de caril, um cheiro a cravinho, um volteio de saris. A tecnologia impele o enredo, a tecnologia justifica o enredo, a tecnologia proporciona o desfecho do enredo. Mas é uma tecnologia completamente ocidental. Ainda que o polícia da unidade Khrishna tenha baptizado as suas armas I.A, de acordo com as divindades do panteão hindu, consoante as respectivas funções informáticas, isto não passa de uma cortina de fumo - é uma tecnologia nascida do método científico, da evolução de racionalismo da mentalidade europeia, da cibernética norte-americana e dos laboratórios de investigação&desenvolvimento japoneses. Não algo que Bangladesh tivesse concebido em isolamento segundo a sua maneira muito própria de pensar.

O que não é necessariamente mau. Se o livro se destaca no espírito do leitor habitual da FC, se as palavras saltam das páginas e é acolhido como um dos grandes romances de FC deste início de século, não deixa de ser também por esta rendição absoluta, perfeita, ao poderio do mundo físico sobre o mundo do espírito. Por esta subversão do que a Índia é e do que representa a nível de conceito, das suas pretensas religiosidades e encantamentos e posições de lótus, como se fosse suposto esquecermo-nos da exploração desumana dos trabalhadores, do sistema de castas tão ou mais nocivo e impermeável que o racismo no Ocidente, da pobreza imensa, imunda, que invade o olhar do turista e lhe revela a verdadeira Índia, a Índia do intenso desrespeito pela natureza sagrada da vida humana. Não seria a intenção do autor, e possivemente é uma interpretação contrária à sua vontade, mas o que conseguiu demonstrar - pelo menos na sua incursão de turista ocidental convicto da salvação da espécie pelo conhecimento das leis físicas, genuínas, do universo - foi a incapacidade de conciliação da ficção científica ocidental com os arquétipos religiosos do oriente. Pelo menos quando a solução literária do romance de ficção científica é de apresentar um futuro de glória tecnológica.

Haveria outra solução? Possivelmente. Mas creio que não ao nível da ficção científica Tal Qual a Conhecemos. A ocorrer o nascimento de uma indo-FC, esta terá de provir das mãos de autores próprios à terra, autores com o mínimo dos contactos com a FC ocidental e que consigam desenvolver um racional literário e especulativo baseado na expansão e conhecimento intrínsecos ao país. O erro de McDonald foi precisamente de querer seguir a norma. Frank Herbert, neste aspecto, ao negar o desenvolvimento científico e tecnológico do universo de Dune e basear a narrativa em arquétipos messiânicos, conseguiu o que poucos imitaram: um universo fantástico conciliado com os ditames culturais do povo no qual se baseava. Dune, que se passa noutro planeta, é mais fiel ao que seria uma ficção científica islâmica do que River of Gods, decorrendo na própria Índia, o é a respeito da cultura indiana.

Não deixa contudo de ser um dos grandes romances da Ficção Científica. Para conhecerem mais a seu respeito, sugiro que leiam os textos de João Seixas e Nuno Fonseca, estes sim críticas na verdadeira acepção da palavra, a respeito da obra que este mês o Círculo de Leibowitz se comprometeu a apresentar-vos.


(Amazon inglesa)

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17 Maio 2009

(Desculpas Para) Momentos Monty Python. Não sei dizer se isto é uma prova da ironia do mundo ou simplesmente uma constatação da completa insanidade deste... (seja como for, o dono do cibercafé não conhecia certamente estas tácticas preciosas na arte de auto-defesa contra fruta fresca, correndo assim perigo de vida...)

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Um Homem Revisita-se no Passado. Em «Anel da Memória», de Alexander Jablokov, traduzido com maestria pelo João Barreiros, um conto que devia ter acompanhado um romance por publicar numa revista que não chegou a ser. Na Bang! nº.5, para vós que tratais como cascalho as pérolas que vos são dadas.

Salomon sentiu‑se maravilhado. Como era possível ter sido assim tão jovem, tão comunicativo? Como é que alguma vez teve a lata de se pôr a namorar com a filha da dona da pensão? Espreitou pela fresta da porta. E ali estava ele sentado, esguio e jovem, com o cabelo coberto de brilhantina, vestido com um fato de linho listrado e um chapéu de palhinha a condizer. Parecia não ter uma única preocupação no mundo.

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16 Maio 2009

O Requiem Pelos Autores Despercebidos deste fim-de-semana é atribuído a R. A. Lafferty, autor norte-americano já falecido que poucos (honrosamente) conhecem. Qual segredo bem conservado (mais bem conservado que o próprio Segredo, imagine-se), o prazer da sua descoberta fica na memória. Embora não seja fácil a leitura - muitos dirão que é mais propriamente um autor que só outros autores poderão apreciar devidamente, sendo a sua perspectiva e ironia e erudição de elevado calibre, à semelhança dos (ligeiramente) mais conhecidos Howard Waldrop e Avram Davidson. Como na história pela qual, em meados dos anos 60, antecipou, e satirizou, de forma tão perfeita o mundo globalizado, irrequieto, adolescente deste novo século XXI. Dele, em português, só conhecemos três contos em edições de alfarrabista. Felizmente temos a internet para nos presentar com bibliografia e referências e terminar este requiem com uma nota alegre de um futuro talvez promissor...

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