Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


25 Julho 2009

E Pensar Que Já Tinha Escrito Sobre Isto numa das minhas anteficções. Refiro-me a voltarmos à Lua. Para concluir o tema.

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20 Julho 2009

And Now For Something Completely Similar. Reportagens sobre a Lua dos diferentes senhores e senhoras da Ficção Científica:

Há mais. Vão ver.

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Pai, Que Horas São Na Lua? O relógio recomeça, filho, o relógio recomeça.

Vivemos na presença de uma dezena de homens (infelizmente nenhuma mulher) que colocaram os pés noutro planeta. Ainda que fosse por motivos egoístas de índole política (alguma vez se conseguiu algo sem ser por motivos egoistas? O que julgam que foram os Descobrimentos?). Realizado por um pequeno grupo de pessoas (comparativamente aos milhares de milhões que éramos e agora somos mais). Pessoas munidas de computadores básicos e muito engenho matemático. Enquanto espécie adoramos o espírito de equipa. Fomos, e ainda mais milagroso, voltámos, incólumes (a grande tragédia do programa Apollo aconteceu em Terra). Eis algo que os nossos netos não conhecerão. Somos a geração que não precisa de deuses para rasgar os céus.

Hoje muitos olhos vão estar postos no passado. Vão utilizar a tecnologia para reviver, passo a passo, os minutos daquele acontecimento extraordinário. Vão aguardar pela EVA de Neil Armstrong, vão pedir-lhe que pouse fisicamente no terreno. Duvido que os astronautas conseguissem resistir a sair da cápsula. É patente a emoção que os domina na singela frase «Tranquility Base here, the Eagle has landed». Aldrin descreveria a Lua com outra tirada de mestre, a Desolação Magnífica. Quando a ocasião assim inspira, todos nos tornamos em poetas.

O sempre inovador João Seixas lançou um desafio para contribuições relativas ao tema, que se encontra a publicar no blogue, a um ritmo moderado. Leiam a do António de Macedo e as do próprio João, sendo que daqui a pouco o João Barreiros entrará em cena com outro conto de mestre. Enquanto não chega, e se estiverem interessados, podem ficar a conhecer a minha modesta participação, escrita durante este fim-de-semana. Não sei que outros textos nos aguardam, neste formato que consiste, em si mesmo, num canal muito particular, muito pessoal, uma janela sobre o passado. Não estivemos lá, mas a verdade é que ainda lá estamos.

Ninguém melhor para exprimir a Desolação Magnífica do que os Pink Floyd, nesta gravação que capta a desgarrada emitida em directo pela BBC, na noite do evento. Que possa trazer alguma paz a (mais) uma celeuma que assolou a comunidade portuguesa de fantástico nos últimos dias, potenciada pelo imediatismo da internet como o restolho seco potencia os incêndios florestais. Apesar de tudo o que foi dito, é o silêncio que irá revelar onde se situam os interesses, como sempre tem revelado. Neste caso, e de forma muito explícita, o silêncio sobre o presente feito, sobre o aniversário, sobre um sonho ao mesmo tempo realizado e impedido. Nenhum verdadeiro apreciador de Ficção Científica lhe fica indiferente - não é um dogma mas uma constatação quase genética. Do outro lado, nenhum verdadeiro apreciador de Fantasia lhe confere igual fascínio - não é um juízo de valor, mas um assumir de postura. Somos água e azeite, semelhantes na nossa forma líquida mas de difícil convívio. Eis a nossa natureza. Isso nos cria. Isso nos destroi.

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18 Julho 2009

40 Anos Depois Dos 40 Anos da ida à Lua foi o desafio do SAPO. Foi-me impossível responder ao convite presencial de gravar umas palavras sobre o assunto, mas contribui com um pequeno texto, caso a reportagem vídeo fosse acompanhada de um artigo. Fica aqui o destaque ao trabalho dos jornalistas (no qual surge o nosso «enviado a Marte», José Saraiva), bem como a minha contribuição.

A espécie humana é lenta e acomodada por natureza e só nos movemos pela força da necessidade ou do incómodo. Não há nada de moralmente errado, trata-se do mais básico imperativo genético: chegados à fértil pastagem ou à pradaria recheada de caça, há que parar e reproduzirmo-nos. O esforço termina quando o objectivo é alcançado e se assegura o futuro.

Isto, infelizmente, é a postura pragmática da mentalidade adulta, anti-heróica, desprovida de ideais, contrária à perspectiva romântica de quem ainda é jovem. Sabemo-lo bem, já o fomos ou estamos em fase de o ser, e não há quem não passe por esta transformação.

As sociedades humanas não são diferentes neste aspecto, e se jovens e românticos sonhámos com a exploração espacial, a conquista dos outros planetas e elaborámos ficções a esse respeito, quando finalmente lá chegámos deparámo-nos com a pergunta que não soubemos responder antes.

O que fazemos agora com isto?

Perante os riscos (enormes) e o esforço (imensurável) de colocar humanos em condições muito precárias no espaço e noutros planetas, por reduzidos períodos de tempo, o sonho desfez-se, e não se voltou a ouvir falar de exploração espacial a não ser pelos métodos muito mais razoáveis, mas menos idealistas, de sondas não tripuladas. Inclusive a ficção científica virou-se para dentro, para o planeta e para os problemas humanos. Éramos o filho que, tendo-se aventurado para fora de casa, se deparara com um mundo inóspito e agreste.

Voltar ao espaço terá, assim, de ser um empreendimento de adultos, de uma espécie madura. Já não pelo entusiasmo da descoberta mas pelos passos pequenos, progressivos, seguros, da necessidade. O espaço terá de nos dar o que a Terra não é capaz, e alguém irá ganhar dinheiro com isso. Pode não ser uma atitude nobre, mas a conquista espacial é, acima de tudo, uma conquista financeira.

Existem efectivamente condições únicas no espaço, ou mais especificamente, na imponderabilidade. Certas ligas metálicas só conseguem ser produzidas em ambientes de queda livre, ou determinada cristalização de compostos. É possível que os novos computadores quânticos, cuja capacidade de processamento será amplamente superior à dos computadores actuais, necessitem de ligas supercondutoras e que estas só possam ser fabricadas em órbita. É possível que situações de crise energética levem determinados países com escassez de recursos a montar plataformas em órbita para capturar a luz solar e enviá-la para estações espaciais em feixes concentrados de infra-vermelhos (não obstante os riscos inerentes). É possível que a aviação consiga recorrer a trajectórias balísticas sub-orbitais para reduzir os tempos de viagem e os custos de combustível, habituando assim uma geração ao fenómeno da queda livre e promovendo o turismo espacial.

São processos graduais. Todos derivados de uma necessidade concreta. Mas quando acumulados, irão estabelecer as condições para avançarmos para o espaço. As fábricas construídas em órbita necessitarão de uma tripulação permanente, o que conduzirá ao estabelecimento de condições adequadas de vida para período prolongados no espaço. Nascerão crianças longe da superfície terrestre, constituir-se-ão famílias, comunidades, culturas. O fenómeno humano a acontecer, como sempre na nossa história.

Ignoro se isto surgirá nos próximos 40 anos - é possível que sim. Mas em último caso, será necessário darmos este passo fundamental. O sol não durará para sempre, o nosso planeta é extremamente frágil, como temos visto, e para sobrevivermos daqui a uns milhões de anos teremos de começar, um dia, a tornarmo-nos numa espécie capaz de sobreviver à dureza de ambientes não planetários.

Fica esta pequena/grande curiosidade, impossível de satisfazer: como será a Ficção Científica desses magníficos novos seres humanos?

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16 Julho 2009

Falta Menos De Uma Hora para o fim da infância da Humanidade, há quarenta anos. Encontram-se já em posição e a aguardar a contagem final que os lançará, dentro do prazo governamental (e ainda dizem que a função pública não é capaz de grandes feitos...) para o abraço do destino, há quatro décadas. Os espíritos aguardam ansiosos, há quase meio século.

Hoje podemos seguir esse dia que também é hoje, e os dias que se lhe seguiram e que não voltaram a ser. Temos tecnologia e meios para o simular e devemos aproveitá-la. A história, contudo, já se encontra contada. Ainda assim, vale a pena revisitá-la como se a víssemos pela primeira vez, pois possivelmente é pela primeira vez que a vimos.

Não assisti à transmissão original. Embora já não fosse ideia, ainda estava a caminho da minha alunagem pessoal, da minha entrada neste universo maravilhoso. Nasci deste lado da era espacial da Humanidade, mas fui concebido quando ainda era Ficção Científica. Eis, julgo eu, a mais maravilhosa das dicotomias.

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Para Encerrar o Destaque das comunicações relativas à situação da FC internacional que principiei por apresentar aqui, o blogue SF Signal apresenta as partes III e IV, a primeira das quais inclui a participação do Luís Rodrigues, que num inglês impecável resume a triste situação actual da nossa Ficção Científica (e fantástico em geral). Digo triste porque parada, porque pouco inovadora, porque imitativa, porque sem originalidade, porque pouco profissional, porque em muitos casos inclusive com deficiências de português - e este último ponto é bastante difícil de perdoar; porque pode não haver condições para uma Ficção Científica Portuguesa, poderá nunca haver a possibilidade de tal acontecer pela natureza do género, mas que haja no mínimo o respeito e o preceito pela qualidade da língua. Não se admite que o mainstream tenha a excelência gramatical de autores como o Agualusa, o Direitinho e o Venda, e o nosso género, ainda que publique em vanity presses, ainda que coloque as ficções na internet, escreva o português a pontapé, sem revisão nem atenção ao ritmo, ao estilo, à poesia. Se não se consegue inovar na substância, ao menos que se comece pela apresentação.

(Como redenção, as participações ao Pulp Fiction à Portuguesa contiveram os dois extremos da equação: entre contos genuinamente bem trabalhados a textos que se notava de imediato encontrarem-se num estado preliminar de rascunho - mas ainda assim, quase nenhum de Ficção Científica pura, muito poucas space-operas. Um aparte quanto aos textos inacabados: tenho dificuldade em entender porque haveriam de querer os autores apresentar obras manietadas à partida, com finais apressados ou ausentes, com incongruências de lugares e tempos e personagens... vale a pena participar no despique de sapateado quando se está descalço e não se sabe bem a lição? O estado de concorrência não vos impele a esforçarem-se mais um pouco? O vosso texto não merecia melhor?)

O meu post original incentivou dois activos participantes do género português a apresentarem os seus pontos de vista - e felizmente para o debate, nos dois lados da barreira. Além de agradecer as palavras a respeito do meu artigo, e agradecer principalmente por terem continuado o debate com bastante erudição, creio que o que se impõe a seguir é perceber: porquê? Porque é a FC virada para o continente norte-americano? Porque os modelos que se originam daí extravasam pelo mundo, mas não conseguimos identificar outros pontos de origem? Será como diz o Jorge, apenas uma questão de hábitos de leitura? Mas por outro lado, não será o próprio hábito sustentado de leitura uma reconhecimento (primeiro pelos editores, que têm faro para estas coisas, e depois pelos leitores, que não pararam de comprar) da capacidade de encantamento e adopção das soluções literárias que se reconhecem a esses livros? Ou seja, se a máquina se alimenta por si mesma não será este indício suficiente de que é em si mesma que reside o melhor alimento?

A questão volta a ser: porquê? Sejamos crianças por instantes e vamos até ao fundo da razão. Não pode ser apenas a facilidade da língua - entre outros, o francês ainda é importante a nível mundial, e, no mínimo, seríamos expostos aos autores franceses via traduções inglesas; não pode ser apenas o domínio da divulgação - o western, literatura de fronteira por excelência, teve igual tratamento do tema do herói e da influência do indivíduo num mundo em desenvolvimento, igual divulgação internacional, uma melhor tradução para cinema, e no entanto, aparte experiências italianas (de qualidade), não se reconhece a internacionalização do género, permanecendo sobejamente americano. Algures, no triângulo tema-postura-propostas, estará a resposta.

Podem ir pensando nos vossos argumentos. Voltaremos ao ataque...

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15 Julho 2009

O Uso De Termos Específicos é determinante para o estabelecimento do cenário e das expectativas na narrativa. Poderia ser uma frase de uma tese académica, mas é a conclusão que se retira imediatamente deste divertido exercício de David Malki, que ao apresentar variações sobre um excerto (não o mais brilhante exemplo, admita-se), pela alteração subtil de algumas palavras, transforma a percepção da história na mente do leitor.

A questão particular de estabelecerem-se expectativas deve ser considerada com atenção porque o leitor, ao identificar o texto como pertencendo a este ou aquele género, sentirá atracção, repúdio ou eventualmente indiferença. Ou seja, não é só o facto de as pequenas variações das frases em questão poderem ser identificadas com diferentes tipos de histórias, como cada uma das frases destina-se a públicos-alvo distintos. Tudo isto no singelo milagre da alteração de três ou quatro palavras.

Um texto destaca-se ou desaparece por virtude da excelência das palavras que usa, como as organiza e em que ponto da narrativa as apresenta - sem deixar de servir o imperativo «enredo».

Não é fácil ser-se escritor, mas é por vezes bastante divertido. Como demonstram as (sobejamente) mais interessantes alternativas propostas nos comentários daquele post. (via Bibliotecário de Babel)

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13 Julho 2009

Certas Notícias Não Deviam Surgir Assim. No meio de outras, comentários em blogues, respostas a tweets, lançamentos e críticas, e Charles Brown morto. O fundador da revista Locus, aos 72 anos. Possivelmente o ser humano que conhecia pessoalmente o maior número de autores de Ficção Científica e Fantasia de todo o mundo. Esteve em Portugal em 1996, por ocasião dos Primeiros Encontros de Cascais, e novamente em 1998, por ocasião dos Terceiros. De entre as últimas memórias desses tempos, a de um jantar na zona do Guincho em amena conversa com ele e a acompanhante, e depois trazê-los de regresso a Cascais no humilde Micra no meio das ruas compactas perto do Teatro Gil Vicente (e o comentário de espanto da acompanhante, que estariam sem dúvida habituada a ruas estadounidenses um pouco mais à-vontade...). E um comentário interessante sobre indumentárias profissionais (perante a minha ubíqua farda de fato e gravata) na qual afirmava que, desde que tinha deixado de ser engenheiro que nunca mais usara sapatos fechados na vida. Nesse ano, deixou-nos também uma mensagem, lida numa das noites de plateia quase vazia, naqueles estranhos Encontros sem espectadores, tão próximos do início da cisão da Simetria, e que atempadamente publiquei na primeira das encarnações deste sítio («A Ficção Científica e o Mundo Editorial dos Nossos Dias», partes um e dois). Uma mensagem que ecoa, num sincronismo bizarro, a questão da internacionalização da FC que debati abaixo (acompanhado por outros compadres destas andanças). Charles Brown publicou os meus primeiros escritos em inglês - relatórios sobre as míseras andanças do nosso país numa época em que pareciam fazer algum sentido - e assim entrava Portugal no rol dos países com uma FC em andamento. A Locus estabeleceu-se sem encetar polémicas nem causar disturbios, e permanece há quarenta anos. Há quarenta anos que serve como ponte e memória, a glorificar a permanência de um género pela divulgação e crítica indispensáveis ao seu crescimento. As grandes revoluções ocorrem pela calada. Os grandes homens passam discretamente. A obra fica. Godspeed, Charles.

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