Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


01 Maio 2010

Será Um Problema De Excessiva Subtileza? Confesso que fico incerto se será desentendimento do conto ou do leitor. E mesmo sendo de ambos, qual se esforçará menos. Poucas mas honradas pessoas conseguiram despertar para a revelação completa do monstro que se esconde no narrador, um maior monstro do que possivelmente o regime fascista em que decorre parte da acção. Está lá, escondida nos últimos parágrafos da história, em tons suaves e discretos. Releio e está lá. E se essas pessoas descobriram, sei que outras descobrirão. Ficou ainda mais explícita entre a primeira versão, publicada na Bang! 1, e a publicada no Imaginários 2 e aqui ao lado. Também sei que, se essas pessoas descobriram, foi por que se preocuparam e releram. Não ficaram contentes até descortinarem a razão de ser do conto. Uma razão de ser que só se consegue perceber quando: a) se tenta dar resposta à principal dúvida: porque queria este protagonista recuperar a casa com tanto afinco?, e b) se entende a recuperação do vigor aquando da chegada a casa, não como uma metáfora literária, mas como uma descrição literal própria da Ficção Científica.

Continuam no entanto as críticas que, apesar de simpáticas e agradáveis, mostram tristemente que não entenderam. Mesmo havendo espaço para melhorias (e uma história nunca está acabada enquanto se poder desdobrar na sua complexidade), ainda assim acredito que a mensagem não deve ser enfiada a martelo na cabeça do leitor. Eis um problema da Ficção Científica e do Fantástico em geral, géneros ainda demasiado destinados à criança dentro de nós sem se compenetrar que a criança não é mais que um adulto - inexperiente mas adulto. Entendo que isso possa prejudicar a experiência das carapaças cranianas demasiado espessas para certas subtilezas da literatura, mas infortúnios genéticos não são culpa do estabelecimento.

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26 Abril 2010

Possivelmente, Ainda Não Saberão, mas a antologia pulp que estou a organizar encontra-se a ser divulgada aqui.

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24 Abril 2010

Confesso Um Saudosismo pelos debates públicos de antigamente, em que cronistas se degladiavam, cada qual no seu espaço próprio de jornal ou da rádio, trocando opiniões, insultos velados e galhardetes, comentando o comentário do outro sobre um anterior comentário do primeiro. Uma literatura em hipertexto, mas diferido no tempo e que nos obrigava a sair à rua e comprar o jornal de modo para clicarmos na hiperligação. Opinar, por sua vez, implicava escrever uma missiva e enviá-la à redacção. Era um processo mais pausado, naturalmente; por outro lado, isto permitia alguma reflexão, e mesmo que as posições fossem incendiárias, ao menos havia uma noção de texto literário, aquela responsabilidade de escrita a que só a palavra impressa obriga.

Daí que encare as caixas de comentários como algo de certa forma acessório, embora convidativo à participação; destinado a informações breves e pequenas conversas, mas não apropriado ao debate. O debate sério deve ser conduzido no espaço mais nobre do post, tentando evitar o fenómeno da resposta instantânea que normalmente conduz a resultados infelizes, sabendo-se que, nesta era de hiperligações e googlismo, é muito difícil a mais tímida frase conseguir esconder-se durante muito tempo no mais recôndito dos sítios Web.

Ainda assim, se este blogue não tem actualmente comentários, foi tão somente por uma questão técnica. Não sendo suportado por tecnologia proprietária, mas por um sistema de content management pessoal (cada qual com a sua mania) que vai sendo desenvolvido com esforço na obra e graça dos tempos livres - os quais há meses que não me visitam - significa que a funcionalidade regressará mas ainda sem data marcada. Uma regra vai manter-se: a aprovação dos comentários para que se tornem visíveis. Isto não está relacionado com questões de anonimato mas de decência e pertinência. Tal como em casa, gente rude e maltrapilhos sem educação ficam à porta. E se querem afixar publicidade gratuita, tenham a gentileza de pedir «por favor» e «com licença» ao dono, ou no mínimo apregoar produtos que sejam do interesse dos leitores do sítio. Sejam criativos, inesperados, inteligentes, irónicos, sarcásticos, irreverentes, informativos, mas acima de tudo, adultos. O dia que amanhã se comemora trouxe-nos um novo tipo de Liberdade há algumas décadas, parido com suor e lágrimas. Infelizmente, há quem não perceba que até a liberdade tem Manual de Utilizador. E se a gente rude e mal-educada tiver mesmo necessidade de expelir o conteúdo intestinal que lhes sai da boca, é perfeitamente livre de criar os blogues e fóruns gratuitos que queira - mas longe daqui, para que não se sinta o cheiro.

Creio que esta posição aborda a preocupação da resposta a esta reacção. O Rogério explica melhor (algo que não era obrigado a fazer, mas a que generosamente se voluntariou) os critérios que orientaram a sua escolha dos livros portugueses na mostra internacional. Tem razão quando afirma que há pouca FC nacional na passada década e foi pertinente lembrar-se da disponibilidade das editoras. Infelizmente, este rigor nos critérios não foi seguido pelos restantes participantes e acabou-se num resultado desigual, surgindo Portugal como um dos que teriam menos a oferecer. Por vezes, nestas coisas, é preferível pecar por excesso, e ir além dos limites da pergunta. Diga-se de passagem que, a nível de Espanha, por ser o outro mercado que acompanho com alguma regularidade, estou convicto de haver um bom par de exemplos que muito dificilmente teriam interesse aos leitores anglo-saxónicos... Bem, haverá certamente outras ocasiões.

Fica o apelo à reflexão ou debate sobre clássicos e FC, que tenho a certeza que não vai acontecer. Existe uma grande apetência para discussões acesas sobre temas generalistas, muito pouca sobre livros em concreto. Passar da fase do «gosto/não gosto» para a da interrogação sobre a pertinência do tema, a integridade da estrutura, a boa ou má caracterização dos personagens. É com grande pena que não encontro vontade para estes debates nos fóruns, e talvez a principal razão pela qual não contribuo. Creio que ainda não é desta que vamos saber se, na mente dos leitores, Os Caminhos Nunca Acabam será o primeiro grande clássico da FC portuguesa...

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23 Abril 2010

Está Online O Conto que acompanhou o excelente artigo de Maria Leonor Nunes, «A Invenção do Futuro» no JL, sobre os desafios da criatividade num mundo de contínua evolução tecnológica. Uma peça bastante modesta, como aliás, já aqui se tinha referido.

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22 Abril 2010

É Como Se Nesta Era guardar memória fosse um hábito decadente e o passado, algo de que nos envergonhamos. Refiro-me à atitude da nossa civilização a tudo o que cheire a bolor, que fique no báu demasiado tempo. Nesta era, aos livros não se permite a dignidade de se desfazerem em folhas soltas de lombada partida, fruto do manuseamento e testemunho do Tempo, as margens não amarelecem, as capas não se apagam lentamente ante a exposição prolongada ao sol numa montra que nunca muda, qual polaroid às avessas. Nesta era, os livros não são como o vinho, não repousam nas livrarias a aguardar que o leitor nasça e cresça e finalmente os descubra, vinte anos depois, arrumados num canto - não acontecerá esta história de descoberta, esta vivência do amor de dois seres que estavam destinados.

Nesta era, os livros são transformados em polpa por causa do número que aparece numa linha própria de um outro livro feito de números. Todos sabemos que as palavras são esguias, enquanto que os números são disciplinados. As palavras vivem das sombras e das curvas, os números vão directos à questão.  Um livro feito de palavras não é páreo para um livro feito de números. As palavras podem cantar, mas os números berram e fazem-se ouvir. A beleza que existe nos números não é a beleza estética das palavras; se num mundo justo ambos poderiam brilhar, neste mundo tortuoso e complicado travam um combate desigual. Em particular se a pessoa que os avalia tem também números a pesar-lhe na alma.

Que os livros não esperem por nós, é um incumprimento da natureza do livro. Que nos seja negada, pelas circunstâncias da nossa civilização, a oportunidade de descobri-los como antigamente, é uma perda na nossa vida. E depois esta sensação de algo irrecuperável que vemos afastar-se, como se lançado à forte corrente. O que se afasta somos nós. Aquilo que fomos. Aquilo que fizemos.

Quando esta descoberta não acontece, a experiência de vida não acontece. A ausência de memória torna-se na memória da ausência. Se o livro não está na prateleira, não o compramos. Se não o compramos, não o lemos. Lemos o próximo, lemos o livro ao lado, mas não lemos aquele. E porque o livro não volta, nesta época que rejeita a figura da coisa antiga, lentamente desaparece, desvanesce-se, nunca se ouviu falar. Não se escreve sobre. E por isso, não existiu.

Entende-se que a tendência do esquecimento tenha influenciado as escolhas limitadas. Que o ritmo diário e a pressa de responder tenham abreviado a reflexão. Ninguém é infalível, leituras são subjectivas e gostos não se discutem. Talvez se desconheça inclusive até que ponto outras obras preencheriam os requisitos adicionais de destaque na imprensa (o que se entende por destaque e qual a imprensa em causa?) e de best-seller (como medir best-sellers em diferentes épocas?). Em particular se as recomendações que acabaram sendo apresentadas são irrepreensíveis, todas as duas.

Mas depois não se entende - o destino é falar de clássicos, e clássicos, em eras de antanho, costumavam abranger décadas que não a presente. O truísmo de que há pouca FC em Portugal não deixa de ser incompleto, ao não informar que na década anterior, e nas décadas antes dessa, o fantástico que havia era quase exclusivamente FC. A ausência de informação vai tornar-se na informação da ausência. 

Ao ombrear com listas que remotam ao início do século XX e ostentam inúmeros galardões literários (ainda que, se formos esmiuçar as recomendações estrangeiras, possamos chegar à conclusão que a recomendação nacional terá sido, correctamente, mais exigente no cumprimento dos critérios pedidos), resta uma inadvertida mas infeliz sensação de pobreza de exemplos, de uma cultura figurativamente menos expressiva.

A esta sensação mistura-se um certo desconforto pessoal - estará na suspeita de quem lê e não faz sentido negá-lo. Ainda que não tenham sido pedradas no charco - longe disso -, há obras do próprio que mereceriam ser incluídas, pois aconteceram na aridez que sempre caracterizou o género neste país. 

E muito antes destas, mandando devidamente o próprio à fava, ainda que não se quisesse incluir o tal calhamaço de referência a quatro mãos, existiriam uma Pedra de Lúcifer, um Limites de Rudzky, um Veleiros do Tempo Cósmico... 

Perguntarão: quer-se assim dizer que tem de haver uma lista mandatória de obras a mencionar em todas as ocasiões, e se não for cumprida comentários como este vão imediatamente surgir, qual prima-dona apupada em palco? A resposta imediata é não. 

Excepto talvez no caso em que a resposta imediata é sim. Em que somos embaixadores da História do país no palco das Histórias de muitos países. Lágrimas de Luz (para falar do concreto e do conhecido) é um livro cheio de falhas que marcou a geração de 1980 em Espanha. Temos equivalente? Diria: Os Caminhos Nunca Acabam. Cheiinho de falhas, é verdade, mas é nosso, é um marco, merece destaque, e precisamos de aceitá-lo. E como a este, outros.

Não pretende isto ser mais do que um comentário cordial, que, antes da publicitação do feito, talvez surgisse em conversa privada. É algo que está longe de ser importante, perante a vontade partilhada de desenvolver o Fantástico nacional - e reconheça-se neste âmbito a tal incrível e muito admirável capacidade em reunir e incluir as mais diversas franjas do Fantástico nacional, inclusive contra trabalhosas e inesperadas resistências do dentro do próprio meio. Mas ainda assim é um comentário que não podia deixar de acontecer. 

Talvez o que valha a pena seja perceber questões mais profundas. Existem clássicos do Fantástico português? Temos todos consciência dos mesmos? Variam por pessoa, por faixa etária, por preferência de género, por experiência de leitura? É fácil definir um «clássico»? E será exequível apontar sem falhas o que se considera por Fantástico nacional? Fica o desafio à reflexão.

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19 Abril 2010

Mais Do Que Todas as políticas de protecção do livro, mais do que uma reviravolta na eficiência da indústria livreira, mais do que fusões e aquisições destinadas a reduzir o custo de produção e obter economias de escala para colocar exemplares em mais pontos de venda a melhor preço, mais do que um aumento brutal da qualidade das traduções, mais do que uma estratégia bem sucedida do livro de bolso, mais do que livrarias com cafés e música para atrair clientes, mais do que capas inovadoras com relevo e prateados, mais do que expositores altos ostentando personagens enigmáticas, mais do que promoções e pacotes de descontos, mais do que reportagens na imprensa e espaço nobre no telejornal, mais do que passar palavra em blogues, mais do que criar booktrailers, mais do que falsear polémicas para chamar a atenção, mais do que inventar dias de festa temática e feiras locais, mais do que andar a vender de porta em porta e à entrada do metro, mais do que qualquer esforço nacional, o Eyjafjallajökull será, com grande probabilidade, o principal contribuidor para o crescimento que este ano se irá verificar na procura de livros de edição portuguesa, pelo simples facto de impedir que as habituais edições estrangeiras, encomendadas por particulares ou pelas distribuidoras, cheguem por via aérea ao nosso país, retidas na origem ou nos hubs europeus de distribuição do correio internacional situados na Holanda e Alemanha. A par do que já contribuiu para a redução das emissões de carbono e do consumo de petróleo graças a todos os vôos não realizados.

Há duas formas pelas quais podemos inscrever o nosso nome no grande mecanismo do progresso: sermos excepcionalmente eficientes e criativos para que se desenvolva e cresça de forma inédita, ou sermos abismalmente obtusos e «empatas» quando chega a nossa vez de contribuir de modo que nada avance até que nos venham pedir (e oferecer) favores. A Islândia, sem prever, terá encontrado o seu lugar na História.

Actualização: surgiram dúvidas perfeitamente razoáveis de que os meus comentários poderiam estar a referir-se a um recente debate sobre a natureza da edição da FC em Portugal, agora e no passado. Nada poderia estar mais longe da verdade, inclusive porque, por afazeres pessoais, não dediquei o tempo necessário a ler e ponderar os extensos argumentos apresentados e logo nem sequer o tinha em mente quando escrevi isto. O referido acima aborda o mercado livreiro nacional como um todo de forma generalista, e não a FC ou posturas e opiniões pessoais. Apenas queria deixar aqui este esclarecimento.

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