Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


08 Maio 2010

O Mistério Dos Escritores Fantasma. Por vezes a edição apresenta-nos estas agradáveis surpresas. Um autor, necessitado de ganhar uns trocos, aceita contribuir para a marca mais vendida de uma editora – seja autor, personagem ou colecção –, escrevendo um romance, normalmente sob anonimato. É uma verdadeira prestação de serviços, pagamento garantido, esforço reduzido. No caso em que se trata de uma série, existem normalmente orientações que explicam o grau de liberdade a assumir com os personagens e as situações; por vezes os enredos são à partida delineados pelos criadores da série e o que resta é dar corpo ao esqueleto, encapá-lo e lançar para as livrarias. Não há vergonha nisto – ajuda a pagar as contas, ajuda a desbloquear os dedos, e é mais um livro para o currículo. É pena que não tenhamos em Portugal um mercado e uma prática tão grande que mais e melhores autores consigam subsistir com esta actividade.

E depois, por vezes, temos as tais agradáveis surpresas.

Ellery Queen é um dos detectives mais interessantes da literatura policial. Não tendo granjeado da fama de Doyle e Christie, é no entanto dos poucos que reconheceu a natureza do jogo deste género, tendo ficado famoso pelo seu «Desafio ao Leitor» - chegado a determinado momento na narrativa, é dito ao leitor que se encontra na posse de todas as pistas necessárias para identificar o assassino, e que estas não enganam. A partir deste ponto, a história prossegue para, item por item, irem eliminando os restantes suspeitos até ficar, inequivocamente, o verdadeiro culpado. Fosse a realidade assim tão simples...

Quem conhece o género sabe sem dúvida que o detective foi criado por dois primos nova-iorquinos e que Ellery Queen nunca existiu realmente, encontrando-se no mesmo universo maniqueista de Holmes e Poirot, repleto de agentes do bem que com argúcia científica renegam todas e quaisquer explicações metafísicas, confiantes que a observação do real e do concreto lhes revelará a verdadeira história oculta. É possivelmente um género que, na forma pura, terá mais dificuldade que a própria Ficção Científica em reconhecer soluções divinas ou intervenções fantásticas, devendo os instrumentos do jogo encontrarem-se em cima da mesa à partida. Asimov falava da dificuldade de misturar Ficção Científica e Mistério, pois era necessário, como autor, resistir à vontade de apresentar, vindo do nada, elementos do futuro com capacidade de adivinhação e que estragassem o prazer do jogo ao leitor. Mas por vezes os próprios procedimentos de investigação forense conseguem ser tão avançados que entram na aura do fantástico, como pondera a criminosa de um dos romances de Lawrence Block.

Tendo alcançado a fama e inaugurado uma revista mensal de contos policiais que ainda hoje é publicada, a Ellery Queen’s Mistery Magazine, os primos autores (Frederick Danny e Manfred B. Lee) decidiram alargar o leque de colaborações (supostamente por que Lee atravessava uma crise de bloqueio de escritor) e contrarar outros autores para alargarem o cânone do famoso detective. Eis como, em 1963, surgia uma colaboração invulgar com Theodore Sturgeon, um dos melhores autores de FC dos anos 50/60: The Player On The Other Side.

O tema não podia ser mais propício: a dualidade intrínseca do homem para o bem e para o mal, explorada como um jogo de xadrez entre vítimas e assassino. Uma dualidade, neste caso, concretizada num indivíduo em particular. Um indivíduo capaz de conter multidões. Sturgeon, que não era alheio ao tema da personalidade gestáltica, ao qual dedicara o famoso Mais Que Humanos na década anterior, deu corpo e vida a uma sinopse de 42 páginas preparada por Dannay. Ao resultado final, os primos autores acrescentaram umas coisas e mudaram outras tantas – por isso, infelizmente, não se pode apresentar aquela obra como sendo um texto puro e típico de Sturgeon. Ainda assim, os parágrafos finais, uma íntima reflexão sobre o eu e o outro, têm aquele toque introspectivo de que só este autor seria capaz com tanta maestria.

É um mistério extremamente invulgar no conjunto de romances habituais de Ellery Queen, com um perpretador que, afinal, é do mais divino que pode haver, mas igualmente humano. E mais não digo...

Deixei, contudo, o pormenor mais importante para o fim: o romance foi editado em português. Com o título de O Mistério dos Cartões de Despedida, é um dos números iniciais da colecção de bolso da Europa-América, lançado em finais dos anos 80.

Não deixa de ser uma coincidência interessante que, de entre as dezenas de obras possíveis de escolher, escritas por Lee e Dannay ou pelos futuros colaboradores, a de Sturgeon tenha sido incluida na curta presença de Ellery Queen naquela colecção. E que exista, escondida e discreta, em língua portuguesa, para ser descoberta pelo observador atento. Qual verdadeiro desafio ao leitor.

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07 Maio 2010

Existe Uma Liberdade Intrínseca a um texto mainstream (dir-se-ia «literatura do quotidiano», embora na verdade represente tudo o que não se encontra categorizado como um género) que não consegue ser duplicada pelos autores de Ficção Científica e Fantástico. É uma liberdade patente na voz do narrador e no estilo da história. Os bons textos de mainstream preocupam-se com a experiência da leitura – ao invés de procurarem um estilo transparente, directo, hemingwaysco, sem sabores nem odores, assumem que a percepção da narrativa por via das palavras é diferente, e deverá ser diferente, da percepção visual ou auditiva, e esforçam-se por nos conduzir nessa viagem. O autor de mainstream não se preocupa apenas com a necessidade de contar uma história, mas de como deve contá-la. Obviamente, como em tudo, há exageros ou pressuposições falsas. Um bom autor deixa-se conduzir pelo estilo que melhor serve a história em questão. Os autores menos bons – inclusive os autores que outrora foram bons mas se deixaram estagnar num modo muito próprio de escrever, por que, além de conveniência, também serve de imagem de marca – perdem-se em malabarismos de imagens e metáforas e excessos descritivos e acabam partindo a loiça. Cada história necessita da abordagem que melhor a serve.

Não é por isso de todo disparatado dizer-se, por exemplo, que «havia uma velocidade no teu olhar». É uma questão de contexto. Apresentada assim, despida, corre o risco de tornar-se ridícula. Enquadrada numa descrição sobre a sagacidade do personagem ganha sentido e poesia. O contrário acontece com frases como «o cais é uma saudade de pedra». Esta frase encerra o contexto de si mesma, é uma unidade perfeita, e por isso mesmo serve como epígrafe, citação, descrição e verdade universal, caso seja necessário. Mas é por estes e outros exemplos que o Pessoa é o Pessoa e o autor da frase anterior o mero escrivão desta crítica.

Daí que a experiência de ler mainstream por quem lê exclusivamente obras de géneros, e vice-versa, seja intensamente frustrante. Não se obtém igual tipo de alimento. O leitor de géneros procura a experiência da história, e o texto não é mais do que um veículo eficiente para a mesma. O leitor de mainstream equipara, lado a lado, a história com a efabulação da escrita, e estilos secos e directos apenas podem ser compensados pela relevância do conteúdo - além, claro, dos normais conflitos de expectativas. Possivelmente o mainstream considera que o íntimo é a medida de todas as coisas e que uma história deve considerar o mundo exterior como um incómodo necessário ao centrar-se na evolução da percepção individual, e o género borrifar-se-á tanto para o íntimo do personagem como para o íntimo do vizinho e o que pretende é o deslumbramento infantil de observar a interacção entre objectos, circunstâncias e pessoas enredar-se numa complexidade de padrões e significados. Um encara a existência como uma série de circunstâncias aleatórias das quais pode retirar entendimento, o outro acredita que existem pequenas narrativas ocultas na grande narrativa que é a existência. Como em tudo, ambos estarão correctos, ambos estarão errados.

Onde, por vezes, a distinção entre mainstream e géneros surge mais vincada – e ao mesmo tempo, mais próxima – é na descrição de uma experiência intensamente pessoal. Ao tentar expor-nos algo que imesuravelmente o fere ou encanta, o autor deixa transparecer o seu envolvimento, deixa que a história se conte por si mesma, o que é suficiente para derrubar critérios literários e expectativas. Sabemos assim que estamos perante uma obra-prima.

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao poderá não ser essa obra-prima, mas sabemos que contém muita dor e vivência pessoal. Basta folhear os capítulos. A mistura de pontos de vista, a existência de capítulos curtos e saltos no tempo, a inserção quase excessiva de notas de rodapé, dá-nos de imediato a sensação que se trata de uma história com muitas facetas e muitos exemplos mas que é na verdade uma história simples. Que há muito para contar, mas é muito do mesmo e portanto há que saber contá-lo. E sem dúvida, a premissa narrativa é explicada nas primeiras páginas, ao apresentar-nos um adolescente «geek» (em tempos chamar-lhe-íamos totó), gordo e socialmente desajeitado, que encontra na Ficção Científica e nos jogos de computador e R&D o seu pouco encanto com o mundo. Esta travessia por um período tão difícil da vida não é ajudada pela necessidade premente de encontrar uma rapariga, por ser amado e aceite num meio latino com uma pressão cultural intensa pela evidência do homem em cada rapaz.

Latino? Sim, Oscar Wao é de ascendência dominicada, como o próprio autor, Junot Díaz, mas cresce num bairro de Nova Jersei. Oscar é então emigrante em terra estranha, mas transporta nos genes e no pensamento os ecos da terra que o gerou. Esses pensamentos ensinam-no que o fukú existe, que é basicamente a má-sorte, o fado, e que quando assenta numa família e numa pessoa, esta encontra-se condenada a um inferno cristão em vida. Terá sido o fukú que lhe deu aquele aspecto e sina, como foi o fukú que condenou a República Domicana a submeter-se ao jugo de Trujillo, um ditador aqui descrito como um verdadeiro animal selvagem que um povo passivo não foi capaz de destronar (bem, o nosso próprio exemplo acabou destronado por uma cadeira defeituosa e pela senilidade, por isso também não temos muito de que nos orgulharmos). Oscar é fruto de uma família desgraçada pelo fukú, cujo azar foi ter uma filha muito bonita que chamou a atenção do ditador – um apreciador de meninas bonitas – e dos seus lacaios. Quem brinca com fogo...

Junot tem obviamente muito para contar, e quase se atrapalha a contá-lo. É também filho de duas culturas, expatriado cultural, e terá sentido que um único idioma não faria jus à salada linguística que lhe povoa o pensamento. A Breve e Assombrosa Vida é assim um livro inglês salpicado de espanhol, ou talvez o contrário – contraste evidente na edição original, mas que se dilui por completo na edição portuguesa. Diga-se de passagem que a Porto Editora assumiu a atitude corajosa de não italicizar o estrangeirismo, embora por vezes isto perturbe a leitura, pois o castelhano não salta tão à vista como no texto original. A tradução é no mínimo competente, com alguns momentos infelizes, quando procura explicar algumas das citações da Ficção Cientifica... ah, não vos disse?

Oscar Wao é um geek que observa o mundo pela lente das suas leituras. Estas parecem confinar-se a Frank Herbert, Gordon Dickson e Tolkien. Compara Trujillo a Sauron e imagina-se Dorsai. Uma atitude que me pareceria natural num adolescente com tais gostos, esta opção de contra-cultura de Junot Díaz foi enaltecida pelos críticos, quer do mainstream quer do género. Francamente, não consegui encontrar igual fascínio. Os críticos do mainstream louvam o autor por assumir a sua street-smartness e geekiness, como se se tratasse de um topping adicional na sobremesa – como se, efectivamente, e dada a história tão emocional em questão, fosse algo dispensável. Os críticos da Ficção Científica apreciam o respeito mostrado aos autores e temas do género, como se de facto as poucas descrições dos seus hábitos de leitura elevassem esta obra a uma introdução a leigos da complexidade inerente ao Fantástico.

Não encontro outras leituras que de tratar-se de uma história quase incomodativamente pessoal, um colocar a nú de velhas feridas – e há que admirá-la por isso. Um nú não apenas familiar mas de todo um povo e uma geração, que precisava de expor as injustiças por que passou face às injustiças que outros reclamam para si. Os melhores momentos do livro não se referem a Oscar Wao – um alter-ego possivelmente deturpado do autor – mas quando regressa a Santo Domingo e ao passado, quando conta a história trágica dos avós e do conflito com o ditador. São momentos poderosíssimos em que Junot apresenta as suas melhores qualidades de contista. Momentos,afinal, sem referências à Ficção Científica.

Um breve mas assombroso livro, sem dúvida.

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06 Maio 2010

Há Pouca Ciência Na Nossa FC. Embora a afirmação mereça ser fundamentada numa reflexão posterior, explique-se no entanto que me refiro à actividade de pesquisa e preparação científica fundamentais a uma obra de verdadeira FC.

E sim, podemos graduar a noção de «verdadeira» em diferentes tons do espectro do género; creio, contudo, que todos chegaremos facilmente a acordo: que as narrativas que têem por base um fenómeno conhecido de natureza científica (validado pelos investigadores ou ainda matéria de especulação), motivando, determinando e no final influenciando o decurso da história, irão destacar-se das que se preocupem com o factor humano ou íntimo em cenários futuros, alternativos ou pseudo-tecnológicos, e das que, por muito que atirem com jargão científico e salpiquem com pós de futuro, encontram no conflito entre os personagens, e apenas neste, a razão de ser do enredo.

E hard-SF, na nossa língua portuguesa, pelo menos na variante europeia, é raça que até pode existir, mas nunca foi avistada...

A recomendação de hoje vai então dar destaque, não à ficção mas à ciência. O Património Genético Português – A História Humana Preservada Nos Genes (por que um bom livro de divulgação científica requer sempre um título sério seguido de um sub-título mais explicativo) é um ensaio inesperado mas muito pertinente, que resulta da colaboração entre Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Como nestas coisas o currículo é importante, rapidamente se percebe que Luisa é bióloga, doutorada em genética populacional humana, investigadora do IPATIMUP e professora afiliada da FMUP. Filipa, por sua vez, é jornalista científica e mestre em Comunicação e Educação da Ciência. E (revelação terrível!) ambas são mais jovens que este vosso leitor...

É um prazer descobrir que a pequena comunidade científica do nosso país escreve artigos e é publicada e reconhecida internacionalmente – a internacionalização surgindo, não só como característica inerente ao meio como necessidade de sobrevivência face à nossa pequenez. Que haja uma história particular do nosso país que possa e mereça ser contada pelos genes, é um pensamento inovador, razão pela qual este pequeno e curto livro se torna tão interessante.

As autoras estruturam a apresentação de forma clara: primeiro explicam de que se trata e como se pode medir a Genética Populacional – pelo ADN mitocondrial (contribuição da mãe) e cromossoma Y (contribuição do pai). Neste processo, dos que não se reproduzem nem fazem por se reproduzir não reza a História. A seguir levam-nos numa viagem pelas eras, pelo surgimento do Homem e primeiras migrações pré-Históricas, revelando as pistas que se escondem nos genes actuais. O foco centra-se a seguir na Europa e no Paleolítico, explica a contribuição das Idades do Gelo para a actual dispersão humana e acaba por se centrar em Portugal, particularmente nas influências das populações africanas no nosso património genético, olhando para os exemplos de Belmonte e Mértola (exemplo que me é pessoalmente caro) antes de discorrer sobre as «influências» que os nossos digníssimos exploradores quinhentistas foram deixando por esse além-mar fora... As autoras salientam que uma das grandes questões é haver mundialmente maior homogeneidade feminina que masculina, algo talvez explicado por haver maior mobilidade, historicamente, para as mulheres que para os homens, além do factor poligamia.

O livro é conciso, directo, rico em factos, como se pretende. É interessante e bem estruturado – mais estruturado do que o próprio processo de descoberta científica, cheio de saltos, recuos, dúvidas, frustrações, até ao momento de glória em que tudo encaixa. Infelizmente, o que falta ao livro, enquanto material de divulgação científica para um público amador, é precisamente a rota da descoberta, o envolvimento emocional da investigação. É tão-somente uma questão de linguagem, nada mais. Seguir o investigador ou a comunidade científica de revelação em revelação, em particular as que contrariam as ideias vigentes derivadas da arqueologia e da antropologia: em que medida a genética populacional vem iluminar preconceitos ou suposições daquelas disciplinas ? Em que medida complementa os nossos conhecimentos históricos?

As autoras procuram efectivamente enquadrar a genética como uma forma de conhecimento do Eu, do ser humano, e sem dúvida que há ainda muito por descobrir. Não se questiona o fascínio. Mas enquanto objecto livro, penso haver espaço para melhorias.

Ainda assim, mais uma grande aposta da colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, que ainda mantém alguma da aura que há uns anos a tornava na série de divulgação científica mais procurada do mercado. Algo que é tão ou mais raro que colecções de Ficção Científica. Para nossa pobreza.

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04 Maio 2010

A Minha Recomendação de hoje chega-nos dos confins da memória. Estava-se em 1984 e noutro país: um país de escudos que mantinha fronteira com Espanha, apenas tinha uma ponte olissiponense sobre o Tejo e o microprocessador dominante não era Intel mas algo chamado Z80A que sustentava uma pequena caixa chamada Spectrum na qual muitos dos actuais programadores-séniores aprenderam o ofício.

Nesse ano, um ano mágico para a FC, que chegou a assistir à publicação mensal de quatro livros da colecção de bolso da Europa-América, aos quais se acrescentava a contribuição unitária da colecção Argonauta (compare-se com o raquítico número de quatro a cinco títulos por ano de hoje em dia), mantinha-se, ainda que de forma pouco convicta, uma colecção de bolso que juntava todos os «géneros menores» no mesmo prato: a BolsoNoite da Europress. Livrinhos pequenos de identificação cromática por tema, cujos números alternavam entre Western (tons amarelos), FC (tons azuis), Terror (tons negros) e Policial (tons vermelhos).

A Europress tinha uma tendência para publicar os mais conhecidos autores de pulp fiction nacional dos anos 70 (Roussado Pinto e Luis de Campos) – creio que o próprio Luis de Campos chegou a dirigir a colecção – e inclusive andou à procura de originais portugueses de FC. O primeiro livro do género seria a novelização do filme Tron, em 1983 (o qual me levou a ter uma nota menos boa num teste de História pois na véspera, ao invés de embrenhar-me nos estudos, perdi algumas horas a ir ao cinema e a desvendar o livro – há traumas que marcam, mas que valem a pena...), e desde então a colecção lá ia sendo publicada com ritmo irregular.

Obviamente que prestava mais atenção aos títulos de FC que dos outros géneros, embora então cultivasse um leque de leituras muito diversificado, graças ao tempo e ao interesse, que eram mais latos. A BolsoNoite incluia autores pouco habituais da Argonauta e da Europa-América, em particular o John Brunner. Após um interregno, chegaria a incluir, disfarçadamente, Um Caso de Consciência, de Blish, e A Rosa, de Harness, numa fase posterior de tentativa de reanimação falhada por parte da editora. Foi no entanto a primeira colecção a apresentar-nos C. J. Cherryh, e em particular, Vaga Sem Praia.

Vaga Sem Praia é uma novela curta e relativamente ligeira, que decorre na cidade de Kierkegaard do continente de Sartre do planeta Liberdade. Nessa terra, vive uma cultura humana cujo cerne da existência é o desenvolvimento do Eu. Não o Eu enquanto oposição perante o universo, mas o Eu enquanto medida de todas as coisas. O Eu enquanto centro e motivo de existência da própria realidade. Daqui decorre um conflito inevitável entre percepção e possibilidade, posto a nu pela interrogação do artista. Este artista é Herrin, cuja maestria com o cinzel e a pedra o tornam no mais popular e conceituado cidadão de Kierkegaard, despertando inveja e ressentimento em Waden, que faz o papel de político e de protagonista opositor nesta história (só mesmo na literatura é que os artistas são mais influentes que os políticos...) Para complicar são apresentados alienígenas e humanos Invisíveis, à margem da sociedade, ignorados por decreto social, cuja existência deverá ser integrada no fim para se atingir uma verdadeira compreensão do cosmos e em grande medida do Humano.

Se esta descrição não parece entusiasmante, o problema é da descrição e das décadas que separam a minha leitura, e não do livro. É, creio, um livro para jovens, ou para mentalidades jovens, ainda capazes de questionar o instituido e aceitar o diferente. Apresentar-nos de forma vívida sociedades de seres como nós mas que pensam de forma inesperada, com sistemas de valores quase incompreensíveis, é uma das grandes e antigas competências da FC. Este livro vale por isso, e pelas questões de identidade que coloca (o que é o Eu? Em que medida o Eu determina o valor do Outro?).

Pensar que em tempos se conseguia escrever FC assumidamente filosófica, ambientada em terras estranhas para disfarçar parecenças com a nossa... Pensar que, mais do que a dificuldade de publicar-se obras recentes de FC, encontrar hoje um editor que apostasse numa obra destas - cuja natureza está na especulação intelectual e não no ritmo trepidante da acção - é uma probabilidade estatística inferior à congelação de uma panela de água quando colocada ao lume...

Se correrem, vão encontrá-la nesta Feira do Livro – espero. Costumava ser vendida no meio de packs de 3 títulos da colecção.  Com um pouco de sorte, mesmo passados tantos anos, continuará ainda à vossa espera.

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03 Maio 2010

Não Se Pode Entrar Em A Criança Roubada de Keith Donahue (Ed. Saída de Emergência) sem levar na bagagem o famoso poema de Yeats, «Come away, O human child! / To the waters and the wild / With a faery, hand in hand, / For the world's more full of weeping than you can understand», que funciona perfeitamente como sinopse e aviso. Estamos perante um romance de seres mágicos da nossa infância, pequenos e traquinas que trocam as vidas dos humanos incautos, não por maldade mas por uma rebelia irritante e que por vezes resulta num drama pessoal. Henry Day é um normal miudo de sete anos que se aventura nos bosques e não regressa. Atacado por um bando de trasgos, é rapidamente afogado num lago próximo para iniciar o processo de transformação. Partir deste mundo não devia ser um processo tão imediato. Transformado também ele em trasgo ainda sem perceber bem o que aconteceu, recebe o nome de Anyday e em troca abandona toda a vontade de regressar a casa, de afastar-se da nova família, de crescer. E para que os pais não suspeitem, em seu lugar surge um velho trasgo, uma criança roubada à família alemã um século antes. Os trasgos, é-nos dito e mostrado, forçam-se a crescer, moldando o corpo a qualquer fisionomia e vontade. Também nos é dito que esta capacidade de metamorfose desaparece à medida que o trasgo continua longe do bosque e da vida antiga, o que representa uma capacidade de absolvição e regresso à sociedade.

É um romance calmo, calmo como a época em que decorre. Estamos numa zona rural nas imediações de Chicago, na década de 1940. Percebe-se que nos entranhamos no passado, num ritmo e forma de existir que ainda entendemos mas que nos é agora tão alienígena como qualquer cenário espacial. Funciona quase numa perfeição de terra mágica, este mundo sem computadores e telemóveis e sistemas sofisticados de detecção. Não é à toa que Donahue centra a narrativa numa época em que não se sente compelido a explicar e inventar um sistema no qual seres mágicos ainda existam no campo, tão perto de habitáculos humanos. É como se, na nossa conquista pela racionalidade e entendimento científico do mundo, tivessemos desalojado a capacidade para o mistério. Talvez se consiga ler aqui um dos motivos pelo actual predomínio cultural da Fantasia sobre a Ficção Científica. Talvez seja ler de mais.

O romance prossegue , alternando os capítulos entre o novo e falso Henry Day, e o Henry Day que já não é por ser agora um trasgo. Ainda que tenha dois actores a representar diferentes rumos da sua vida, o verdadeiro Henry Day morreu, e o romance, ciente disto, conduz estes actores em papéis que desconhecem, para os quais são forçados a actuar por instinto e sem guião. O falso Henry Day tem por preocupação regressar definitivamente ao mundo dos humanos, envelhecer, ter uma família, morrer. Anyday, até encontrar uma criança que possa roubar para si, terá de esperar as décadas ou séculos necessárias, deixar que o mundo que conhece desapareça; ainda por cima, como manda a tradição, os trasgos que o são há mais tempo têm precedência. Henry Day cresce; Anyday, como o Peter Pan de outro conto, mantém-se inalterado, criança, rebelde, selvagem, isolado.

Esta é a grande mensagem do romance, e tanto maior se torna por ser irredutível. O romance não consegue impedir um maior interesse em Henry Day que em Anyday. Ainda que lhes devote igual número de palavras, apercebemo-nos que Anyday está a ser guardado para um confronto final com o trasgo que o veio substituir. Todos os capítulos são passos nessa direcção – ainda que haja um interesse romântico mais ou menos sublimado, o romance não consegue verdadeiramente decidir se os trasgos são crianças selvagens ou adultos em tamanho pequeno, e opta pela solução mais oportuna, que é de considerar – ainda que não o diga expressamente – que a existência do trasgo é transitória, que não funciona como sociedade mas como um conjunto de seres nos bastidores, a aguardar a indicação para saltar para o palco. Esta sensação contrasta violentamente com os desafios narrativos do novo Henry Day, que luta para se enquadrar numa época e sociedade que não é a sua, temendo a cada instante ser descoberto pelos pais e professores e amigos. O talento fala com mais força, e não consegue evitar um apreço pela arte de tocar piano, algo que o antigo Henry Day nunca demonstrara. Isto, e outro conjunto de sinais, leva o pai a desconfiar, com resultados trágicos. Ainda assim, o novo Henry Day acaba por enquadrar-se na nova vida, cresce, aparece, torna-se também ele pai de família e começa a suspeitar e temer os malditos trasgos.

É como se o romance se deixasse derrotar à partida e reconhecesse um desinteresse pelo fantástico que ele próprio inventara: que não há fascínio verdadeiro na criança eterna, na criança que não cresce. Que a criança não é mais do que uma fase de um ser complexo, que precisa de afastar-se e esquecer-se de si mesmo para contar uma história. A amnésia funciona como o grande veículo de transformação desta história, sem a qual os personagens não conseguiriam superar as transições abruptas e funcionar imaculadamente na nova condição. A memória surge como um ladrão furtivo, roubando paz e semeando ansiedade – a lembrança de Anyday pelo conforto dos seus sete anos, de Henry Day jovem por um lar germânico do passado, do Henry Day adulto pela existência nos bosques. O passado é um lugar alienígena ao qual não regressaremos, nem sequer em memória.

No fim surge a mudança, imposta pelo mundo. Também este cresceu enquanto não estávamos a ver, tornou-se complexo e exigente e desalojou a magia que nele restava. Os trasgos, um dia, terão páginas no Facebook e marcarão encontros de Bookcrossing por este país fora. Talvez seja assim que roubam, hoje em dia, as nossas crianças.

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02 Maio 2010

Livros De Feira. Aproveitando a festa dos livros que anualmente nos visita, vou procurar deixar apontamentos diários sobre obras que poderão enriquecer a vossa experiência. Não serão necessariamente novidades nem títulos da moda - ainda que estes sejam fenómenos editoriais que apoio, pois proporcionam um incentivo positivo e uma (falsa) sensação de segurança ao investimento em publicidade e marketing do livro. Contudo, as obras não envelhecem todas ao mesmo ritmo, algumas permanecem eternamente jovens, e serem arrastadas para o fundo do palco pela chegada do futuro é uma injustiça difícil e demorada de combater. É possível que tenham de vasculhar nas promoções de fim-de-edição e insistir com os vendedores para encontrar algumas das recomendações mais antigas. O resultado será impressionante, impossível, inclemente, inovador, inodoro (riscar o que não se aplica).

Scott Siegler quis à viva força ser escritor. Ser escritor, contudo, não é para ele um compasso de espera e aprendizagem. Não significa participar em alguns concursos florais enquanto vai acumulando várias magnum-opus na gaveta, sonhando que algum dia será aberta e a verdade disseminada pelo mundo. Daria em doido se dele fosse o destino de Bolaño. Não: Scott Siegler escreveu um livro e vai mostrá-lo ao mundo. Pode ser um livro de tricot ou uma tarde na quinta da avó Esmeralda. Ele escreveu a porra de um livro e a porra do mundo vai colocar-se de joelhos e apreciá-lo. Nem que tenha de dirigir-se a cada um dos seis mil milhões de habitantes deste maldito planeta e forçá-los contra o chão. Nem que lhe leve a vida toda. Ele Escreveu Um Livro, Percebem?

Se lhe perguntarem, contará como a sua primeira tentativa, Ancestor, esteve quase para ser publicada quando os malditos terroristas derrubaram as Torres. Assim se comprova que o verdadeiro plano era impedir que Siegler tivesse uma carreia de best-seller, mas ninguém acredita. Aproveitando os benefícios da internet - uma tecnologia que não construiu mas da qual usufrui sem perdão -, começou a gravar leituras do romance e a dá-las de graça. Um capítulo de cada vez, regular e certeiro, como manda o figurino. Tranformando-as em podcasts, o que é o mesmo que dizer que existe um software que é avisado quando um novo episódio está disponível e descarrega para o leitor áudio. Se tivessem de ser os ouvintes a lembrarem-se, é bem provável que não tivesse um décimo da suposta audiência (e sublinha-se suposta, na ausência de empresas independentes de auditoria que analisem o tráfego de hits). Leu esse e entretanto escreveu outro, Infected, que também se tornou num sucesso de downloads – o que é o mesmo que dizer que o livro estava a ser lido primordialmente nas ocasiões de pausa do trânsito, das filas de espera, dos autocarros e das retretes (não se entenda por estas palavras uma caracterização depreciativa da pausa na retrete, esse sublime momento democrático de apreciação literária, destinado tanto às grandes como às minúsculas obras). Levando os números na mão, pois todos sabemos que os números são certeiros e as palavras tortas, esfregou-os na cara de alguns executivos, os quais acabaram por dar a oportunidade ao rapaz de figurar num dos milhares de títulos que saem anualmente no mercado norte-americano, ou para sermos mais substantivos, atiraram-no ao rio. O rapaz lá nadou e vendeu alguns exemplares e agora até se encontra a ser adaptado ao cinema.

Nada disto é prova de qualidade, quanto muito é desconfiança. O livro conta a história de uma Infecção, como afirma a versão portuguesa – ainda que a versão original, Infected, ou seja, Infectado, seja subtilmente mais apropriado. É uma pequeníssima infecção, muito localizada, mas que acaba por tornar a vítima propensa a actos de violência extrema, contra si e contra os outros (suponho que se conduzisse a actos de amor extremo, o livro seria enfiado numa prateleira diferente). A contra-capa sugere um drama épico, em que filhos matam os pais enquanto dormem, em que vizinhos atropelam as crianças do bairro, em que enfermeiros injectam com ácido todos os doentes do hospital. Uma infecção incontrolável, insidiosa, mesqunha... ãh? Não é nada disso? Não?! Então é sobre o quê?

A infecção é extra-terrestre? Tudo bem, mesmo assim haveria... ah, a taxa de propagação é quase nula? Mas nem pelo contacto físico?... Vozes na cabeça?! A violência é causada por vozes na cabeça?!

Vozes na cabeça que têm uma razão de ser. Mais não digo, para não estragar dos poucos prazeres da obra. Outro prazer é que é curta, e lê-se rapidamente.

Mas não é um bom livro. É um livro que, tire-se-lhe o chapéu, procura explicar cientificamente a infecção extra-terrestre. É um livro que sabe, inconscientemente, onde se encontra a força narrativa do autor, ainda que não a que deveria ter sido escolhida. O protagonista principal, um antigo jogador transformado em escriturário devido a uma lesão, é um homem irado. Totalmente irado. Tão cheio de violência e raiva que não admite sequer que as vozes na cabeça o obriguem a praticar actos de violência contra os outros. Mesmo que os pratique, as vozes na cabeça não lhe dão ordens, e para mostrar que só faz o que quer quando bem lhe apetece, auto-mutila-se até destruir alguns dos furúnculos que lhe invadiram o corpo e ensinar aos outros que o melhor é estarem caladinhos. Estes actos de mutilação são descritos em vívido pormenor, quase em câmara lenta, e constituem a grande polpa do livro. Isso, e o homem irado no processo de ser um homem genuinamente irado.

Tudo o resto – a investigação policial, a trama médica, o apressado motivo da infecção pelos extra-terrestres, a forma como expeditamente resolvem a infecção -, tudo o resto é acessório. Siegler contou a história que queria contar: alguém a quem lhe fora prometido o pódio e que falhara por via das circunstâncias.

É um livro de domingo à tarde, ou de sexta-feira depois dos copos com a malta. Lê-se, tem momentos agradáveis, tem muitos momentos gore. Entranha-se e expele-se, como um hambúrguer.

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