Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


11 Maio 2010

Esta Pretendia Ser uma recomendação diferente, mas a realidade, como sempre, enrola-nos e lança-nos para o lado. A imprensa divulgou ontem o falecimento de Frank Frazetta, que o João evoca especialmente no seu blogue. Desenhador de BD e ilustrador de inúmeras capas de Ficção Científica e Fantasia, com particular destaque para o trabalho que acompanharia as reedições de Tarzan e Barsoom, Frazetta tornou-se num sinónimo da imagem fantástica, repleto de heróis musculados, heroínas voluptuosas e monstros disformes no auge da batalha. De Frazetta, e que eu conheça, não existe nenhum álbum publicado em Portugal, o que espero seja corrigido brevemente. A minha recomendação segue assim o espírito e não o autor.

Fantasy Art Now é uma recente edição da Editorial Estampa organizada por Martin McKenna. Recolhe trabalhos modernos de ilustração de vários autores internacionais, que podem ter adornado capas de edições portuguesas. A organização é por temas, e as imagens surgem de forma ampla, com suficiente detalhe e destaque para uma apreciação demorada. Não dispondo neste momento do livro (trata-se de uma recomendação também para o crítico), não vos posso confirmar a lista de artistas que inclui (suponho que nenhum exemplo pela mão de Frazetta, se não surgiria destacado, seguramente, nas críticas estrangeiras) - e como não podia deixar de ser, a editora portuguesa é completamente omissa e negligente na promoção que dele faz, pelo que tenho de confiar nos sítios Web estrangeiros. Mas a edição é cuidada, os desenhos cativantes, e a Feira do Livro é uma excelente oportunidade para adquiri-lo com desconto. Em particular pelo incentivo que estarão a prestar à tradução e publicação nacional de livros sobre arte Fantástica; trata-se, afinal, de uma aposta arriscada e de um exemplo singular no nosso mercado.

Também entre nós existe uma (pequena) história de ilustrações originais para livros relacionados com o género, com particular destaque para o trabalho de Lima de Freitas na colecção Argonauta e Rui Ligeiro na Europa-América. Espero um dia poder ver uma colectânea comemorativa desses tempos esquecidos.

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Há Por Vezes Desabafos que são mais fortes do que nós e que não se conseguem evitar. Este foi um deles. Com imenso cavalheirismo, o Daniel Borba descobriu e aceitou o desafio. Resultou nesta apreciação. Poderia ter tido um resultado diferente e seria igualmente apreciado. Deixo o meu agradecimento ao Daniel, que me ajudou a comprovar que a subtileza funciona e inclusive se torna num prazer maior quando relida. O conto, como sabem, continua aqui. Qual é a vossa opinião?

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10 Maio 2010

É Impossível Deixar-Vos estas recomendações sumárias sem incluir duas das principais colecções de Ficção Científica que actualmente só se conseguem encontrar na Feira do Livro ou em algum alfarrabista: a Argonauta e a Livros de Bolso FC da Europa-América.

Para quem não tenha atravessado os anos 80, é quase impossível imaginar o domínio destas colecções. Não havia praticamente livraria que não dedicasse uma secção extensa a expor uma grande parte ou inclusive – no caso da Europa-América – a totalidade dos números publicados. Eis um grande ensinamento para as práticas modernas: ainda que hoje existam colecções – a 1001 Mundos e a Bang!, para destacar as principais –, as livrarias não se dedicam a reunir os exemplares segundo uma lógica numérica e num espaço independente, preferindo seguir as suas próprias regras de catalogação; o leitor recém-chegado à colecção sente-se naturalmente desamparado (será o livro acabado de comprar o número mais recente?) e terá de recorrer a outros recursos, como pesquisar na internet ou contactar a editora, para entender que obras constam do catálogo e mesmo do planeamento futuro. Contudo, encontrar alguns números mais antigos irá revelar-se uma tarefa frustrada, obrigando-o a comprar online – de que nem todos os leitores gostam – ou esperar por uma Feira do Livro, para completar a colecção. O facto de os títulos anteriores estarem disponíveis no momento, ou serem facilmente encontrados pela pesquisa na outra livraria mais próxima, ajudava bastante os novos leitores, acabados de chegar por via de uma novelização de um filme em cartaz, por seguirem uma recomendação pessoal, por conhecerem o autor ou por mero acaso.

O leitor ocasional era assim imediatamente fidelizado; o mercado expandia-se. Além disso, existia o factor educação: a colecção era um veículo para ir divulgando autores e obras inovadores, pois havia uma confiança por parte do editor que um segmento importante dos seguidores iriam confiar na aposta e comprar o livro – nem que fosse para ter a colecção completa. O fenómeno era fiável, e se acabou por perder ânimo foi principalmente pela falta de confiança dos editores no que eles próprios haviam ajudado a criar. Sucediam-se as más traduções e a falta de revisão. Adicionalmente começou a abusar-se do fenómeno de divisão do livro. Os leitores estavam habituados a, duas ou três vezes por ano, comprarem histórias às fatias, nas quais uma obra extensa no original era dividida em duas ou três partes na edição portuguesa para tornar a compra individual mais barata. Era uma explicação lógica, e quem vivia da mesada agradecia. Implicava que se conheceriam menos romances e autores naquele ano, pois um dos números previstos seria uma segunda ou uma terceira parte, mas enquanto as metades eram gordinhas em número de páginas havia um pacto entre editor e leitor. Esse pacto começou a quebrar-se quando as metades se tornaram esquálidas e se começou a perceber que o editor pretendia obter o maior lucro possível de cada título comprado.

Era o sinal de que o modelo de livro de bolso se tinha esgotado. E se os leitores ocasionais já tinham desaparecido há muito, esta mudança de atitude alienou os fiéis. A cisão tornou-se irreconciliável.

Ainda assim, muitas obras, boas obras, se publicaram nos tempos áureos. Irei destacar duas, uma de cada colecção.

O Tempo, O Espaço e o Cérebro é a tradução idiota do título The Big Time, um dos melhores livros de Fritz Leiber e dos poucos a encontrar caminho para o nosso idioma, com edição da Livros do Brasil. Nos tempos da Guerra da Mudança, é-nos dito, duas facções encontram-se num conflito permanente e milenar entre si: os Aranhas e os Serpentes. Não se sabe como ou porque começou nem ninguém sabe quando ou se acabará. Não se conhece sequer a forma e figura destes seres. A guerra é tudo, menos convencional, pois trava-se na própria natureza do Tempo. Cada facção dispõe da capacidade de viajar pelas eras e alterar o rumo da história. São as próprias batalhas da humanidade, as que existiram e todas as que poderiam ter existido, as que acabam por representar, no fim, a essência desta guerra. E porque a História pode ser alterada por um qualquer agente destas facções, pendendo a favor de uma ou de outra, assim a Humanidade segue na esteira. Inimigos mortais que lutariam em lados opostos numa realidade são aliados na próxima; soldados rasos tornam-se comandantes e logo regressam ao posto inicial; contendas podem tornar-se em batalhas decisivas ou em meros distúrbios. Quando a mudança na História acontece repercute-se pelas eras de forma progressiva, como uma ventania: daí o nome dos Ventos (e Guerra) de Mudança.

Isto torna-se num desgaste intenso para os soldados Aranhas e Serpentes – soldados humanos, recrutados ao longo das eras passadas e futuras da nossa História – , contra o qual se construiram zonas atemporais, isoladas do efeito pernicioso das alterações históricas. Zonas de descanso em que o conflito não é permitido e pelas quais recrutas e soldados experientes passam antes de serem enviados numa nova missão para outra era. É numa destas zonas que a história decorre.

E trata-se de uma história simples. Uma história contada com economia de tempo e espaço narrativo. Muito se escreveu já sobre a natureza teatral do romance, sobre as entradas e saidas coreografadas e os desenvolvimentos dramáticos de cada personagem, que fazem mais sentido numa peça que numa narrativa clássica. O livro é breve e veloz, e é preciso estar atento. O cenário de eterna e confusa guerra alimentaria, possivelmente, uma série de dez grossos volumes por um autor moderno versado em História. Leiber, contudo, utiliza este conceito apenas como cenário – nunca se entra num conflito efectivo, nunca se descreve uma batalha ou uma mudança no tempo a acontecer, os quais são apenas mencionados e explicados no decurso da acção – e centra o enredo numa situação urgente que implica a sobrevivência de um punhado de soldados e agentes temporais e da própria zona de repouso.

A edição conta com quase vinte anos de idade (é de 1992). Como podem perceber pelo exemplo do título, não representa uma maestria da arte de traduzir. Felizmente podem também encontrá-la disponível, gratuitamente e na língua original, neste grande repositório do bom e do mau que é a internet.

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09 Maio 2010

Dias De Feira com chuva. A atitude da APEL perante a chuva e as queixas de estragos e danos por parte dos editores (falta de condições apropriadas) foi de encerrar a feira às 18.00 em pleno sábado com actividades agendadas. Claro, o dilúvio tem olhos e pode ser que passe ao lado. Não só se continua a insistir em fazer um evento ao ar livre em plena época fria (relembre-se que anteriormente só começava no final de Maio e adentrava por Junho - mesmo havendo chuva, havia mais oportunidades para calor e noites agradáveis) como não se prevêm planos de contingência para actos (nem por isso tão) inesperados da natureza. A feira tem durado até tarde, uma solução que felizmente respeita os queixumes do ano passado, mas o vento e o frio têm afastado grande parte do público. Bem como o limite aos descontos. Talvez não entre na cabeça dos editores mas... os livros são caros! A feira é, para a maioria das pessoas, a hipótese de renovarem as estantes de casa sem pagarem a contribuição inútil e excessiva dos distribuidores e livreiros.

Ainda assim, assisti a uma conversa aprazível entre o João Seixas e o Ricardo Pinto, que pensei não falasse tão bem português. Considera-se um autor português, embora não escreva nessa língua. E depois uma pequena volta, a rever pessoas conhecidas do real e do virtual, com particular destaque para as simpáticas Madalena e Sofia.

Hoje a recomendação é preguiçosa - afinal, é domingo e chove, e os bloguistas não recebem salário - e vai recuperar uma crítica antiga. A importância do romance mantém-se e pode ser que ainda o encontrem. Se a Feira não foi levada na enxurrada da noite...

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08 Maio 2010

O Mistério Dos Escritores Fantasma. Por vezes a edição apresenta-nos estas agradáveis surpresas. Um autor, necessitado de ganhar uns trocos, aceita contribuir para a marca mais vendida de uma editora – seja autor, personagem ou colecção –, escrevendo um romance, normalmente sob anonimato. É uma verdadeira prestação de serviços, pagamento garantido, esforço reduzido. No caso em que se trata de uma série, existem normalmente orientações que explicam o grau de liberdade a assumir com os personagens e as situações; por vezes os enredos são à partida delineados pelos criadores da série e o que resta é dar corpo ao esqueleto, encapá-lo e lançar para as livrarias. Não há vergonha nisto – ajuda a pagar as contas, ajuda a desbloquear os dedos, e é mais um livro para o currículo. É pena que não tenhamos em Portugal um mercado e uma prática tão grande que mais e melhores autores consigam subsistir com esta actividade.

E depois, por vezes, temos as tais agradáveis surpresas.

Ellery Queen é um dos detectives mais interessantes da literatura policial. Não tendo granjeado da fama de Doyle e Christie, é no entanto dos poucos que reconheceu a natureza do jogo deste género, tendo ficado famoso pelo seu «Desafio ao Leitor» - chegado a determinado momento na narrativa, é dito ao leitor que se encontra na posse de todas as pistas necessárias para identificar o assassino, e que estas não enganam. A partir deste ponto, a história prossegue para, item por item, irem eliminando os restantes suspeitos até ficar, inequivocamente, o verdadeiro culpado. Fosse a realidade assim tão simples...

Quem conhece o género sabe sem dúvida que o detective foi criado por dois primos nova-iorquinos e que Ellery Queen nunca existiu realmente, encontrando-se no mesmo universo maniqueista de Holmes e Poirot, repleto de agentes do bem que com argúcia científica renegam todas e quaisquer explicações metafísicas, confiantes que a observação do real e do concreto lhes revelará a verdadeira história oculta. É possivelmente um género que, na forma pura, terá mais dificuldade que a própria Ficção Científica em reconhecer soluções divinas ou intervenções fantásticas, devendo os instrumentos do jogo encontrarem-se em cima da mesa à partida. Asimov falava da dificuldade de misturar Ficção Científica e Mistério, pois era necessário, como autor, resistir à vontade de apresentar, vindo do nada, elementos do futuro com capacidade de adivinhação e que estragassem o prazer do jogo ao leitor. Mas por vezes os próprios procedimentos de investigação forense conseguem ser tão avançados que entram na aura do fantástico, como pondera a criminosa de um dos romances de Lawrence Block.

Tendo alcançado a fama e inaugurado uma revista mensal de contos policiais que ainda hoje é publicada, a Ellery Queen’s Mistery Magazine, os primos autores (Frederick Danny e Manfred B. Lee) decidiram alargar o leque de colaborações (supostamente por que Lee atravessava uma crise de bloqueio de escritor) e contrarar outros autores para alargarem o cânone do famoso detective. Eis como, em 1963, surgia uma colaboração invulgar com Theodore Sturgeon, um dos melhores autores de FC dos anos 50/60: The Player On The Other Side.

O tema não podia ser mais propício: a dualidade intrínseca do homem para o bem e para o mal, explorada como um jogo de xadrez entre vítimas e assassino. Uma dualidade, neste caso, concretizada num indivíduo em particular. Um indivíduo capaz de conter multidões. Sturgeon, que não era alheio ao tema da personalidade gestáltica, ao qual dedicara o famoso Mais Que Humanos na década anterior, deu corpo e vida a uma sinopse de 42 páginas preparada por Dannay. Ao resultado final, os primos autores acrescentaram umas coisas e mudaram outras tantas – por isso, infelizmente, não se pode apresentar aquela obra como sendo um texto puro e típico de Sturgeon. Ainda assim, os parágrafos finais, uma íntima reflexão sobre o eu e o outro, têm aquele toque introspectivo de que só este autor seria capaz com tanta maestria.

É um mistério extremamente invulgar no conjunto de romances habituais de Ellery Queen, com um perpretador que, afinal, é do mais divino que pode haver, mas igualmente humano. E mais não digo...

Deixei, contudo, o pormenor mais importante para o fim: o romance foi editado em português. Com o título de O Mistério dos Cartões de Despedida, é um dos números iniciais da colecção de bolso da Europa-América, lançado em finais dos anos 80.

Não deixa de ser uma coincidência interessante que, de entre as dezenas de obras possíveis de escolher, escritas por Lee e Dannay ou pelos futuros colaboradores, a de Sturgeon tenha sido incluida na curta presença de Ellery Queen naquela colecção. E que exista, escondida e discreta, em língua portuguesa, para ser descoberta pelo observador atento. Qual verdadeiro desafio ao leitor.

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07 Maio 2010

Existe Uma Liberdade Intrínseca a um texto mainstream (dir-se-ia «literatura do quotidiano», embora na verdade represente tudo o que não se encontra categorizado como um género) que não consegue ser duplicada pelos autores de Ficção Científica e Fantástico. É uma liberdade patente na voz do narrador e no estilo da história. Os bons textos de mainstream preocupam-se com a experiência da leitura – ao invés de procurarem um estilo transparente, directo, hemingwaysco, sem sabores nem odores, assumem que a percepção da narrativa por via das palavras é diferente, e deverá ser diferente, da percepção visual ou auditiva, e esforçam-se por nos conduzir nessa viagem. O autor de mainstream não se preocupa apenas com a necessidade de contar uma história, mas de como deve contá-la. Obviamente, como em tudo, há exageros ou pressuposições falsas. Um bom autor deixa-se conduzir pelo estilo que melhor serve a história em questão. Os autores menos bons – inclusive os autores que outrora foram bons mas se deixaram estagnar num modo muito próprio de escrever, por que, além de conveniência, também serve de imagem de marca – perdem-se em malabarismos de imagens e metáforas e excessos descritivos e acabam partindo a loiça. Cada história necessita da abordagem que melhor a serve.

Não é por isso de todo disparatado dizer-se, por exemplo, que «havia uma velocidade no teu olhar». É uma questão de contexto. Apresentada assim, despida, corre o risco de tornar-se ridícula. Enquadrada numa descrição sobre a sagacidade do personagem ganha sentido e poesia. O contrário acontece com frases como «o cais é uma saudade de pedra». Esta frase encerra o contexto de si mesma, é uma unidade perfeita, e por isso mesmo serve como epígrafe, citação, descrição e verdade universal, caso seja necessário. Mas é por estes e outros exemplos que o Pessoa é o Pessoa e o autor da frase anterior o mero escrivão desta crítica.

Daí que a experiência de ler mainstream por quem lê exclusivamente obras de géneros, e vice-versa, seja intensamente frustrante. Não se obtém igual tipo de alimento. O leitor de géneros procura a experiência da história, e o texto não é mais do que um veículo eficiente para a mesma. O leitor de mainstream equipara, lado a lado, a história com a efabulação da escrita, e estilos secos e directos apenas podem ser compensados pela relevância do conteúdo - além, claro, dos normais conflitos de expectativas. Possivelmente o mainstream considera que o íntimo é a medida de todas as coisas e que uma história deve considerar o mundo exterior como um incómodo necessário ao centrar-se na evolução da percepção individual, e o género borrifar-se-á tanto para o íntimo do personagem como para o íntimo do vizinho e o que pretende é o deslumbramento infantil de observar a interacção entre objectos, circunstâncias e pessoas enredar-se numa complexidade de padrões e significados. Um encara a existência como uma série de circunstâncias aleatórias das quais pode retirar entendimento, o outro acredita que existem pequenas narrativas ocultas na grande narrativa que é a existência. Como em tudo, ambos estarão correctos, ambos estarão errados.

Onde, por vezes, a distinção entre mainstream e géneros surge mais vincada – e ao mesmo tempo, mais próxima – é na descrição de uma experiência intensamente pessoal. Ao tentar expor-nos algo que imesuravelmente o fere ou encanta, o autor deixa transparecer o seu envolvimento, deixa que a história se conte por si mesma, o que é suficiente para derrubar critérios literários e expectativas. Sabemos assim que estamos perante uma obra-prima.

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao poderá não ser essa obra-prima, mas sabemos que contém muita dor e vivência pessoal. Basta folhear os capítulos. A mistura de pontos de vista, a existência de capítulos curtos e saltos no tempo, a inserção quase excessiva de notas de rodapé, dá-nos de imediato a sensação que se trata de uma história com muitas facetas e muitos exemplos mas que é na verdade uma história simples. Que há muito para contar, mas é muito do mesmo e portanto há que saber contá-lo. E sem dúvida, a premissa narrativa é explicada nas primeiras páginas, ao apresentar-nos um adolescente «geek» (em tempos chamar-lhe-íamos totó), gordo e socialmente desajeitado, que encontra na Ficção Científica e nos jogos de computador e R&D o seu pouco encanto com o mundo. Esta travessia por um período tão difícil da vida não é ajudada pela necessidade premente de encontrar uma rapariga, por ser amado e aceite num meio latino com uma pressão cultural intensa pela evidência do homem em cada rapaz.

Latino? Sim, Oscar Wao é de ascendência dominicada, como o próprio autor, Junot Díaz, mas cresce num bairro de Nova Jersei. Oscar é então emigrante em terra estranha, mas transporta nos genes e no pensamento os ecos da terra que o gerou. Esses pensamentos ensinam-no que o fukú existe, que é basicamente a má-sorte, o fado, e que quando assenta numa família e numa pessoa, esta encontra-se condenada a um inferno cristão em vida. Terá sido o fukú que lhe deu aquele aspecto e sina, como foi o fukú que condenou a República Domicana a submeter-se ao jugo de Trujillo, um ditador aqui descrito como um verdadeiro animal selvagem que um povo passivo não foi capaz de destronar (bem, o nosso próprio exemplo acabou destronado por uma cadeira defeituosa e pela senilidade, por isso também não temos muito de que nos orgulharmos). Oscar é fruto de uma família desgraçada pelo fukú, cujo azar foi ter uma filha muito bonita que chamou a atenção do ditador – um apreciador de meninas bonitas – e dos seus lacaios. Quem brinca com fogo...

Junot tem obviamente muito para contar, e quase se atrapalha a contá-lo. É também filho de duas culturas, expatriado cultural, e terá sentido que um único idioma não faria jus à salada linguística que lhe povoa o pensamento. A Breve e Assombrosa Vida é assim um livro inglês salpicado de espanhol, ou talvez o contrário – contraste evidente na edição original, mas que se dilui por completo na edição portuguesa. Diga-se de passagem que a Porto Editora assumiu a atitude corajosa de não italicizar o estrangeirismo, embora por vezes isto perturbe a leitura, pois o castelhano não salta tão à vista como no texto original. A tradução é no mínimo competente, com alguns momentos infelizes, quando procura explicar algumas das citações da Ficção Cientifica... ah, não vos disse?

Oscar Wao é um geek que observa o mundo pela lente das suas leituras. Estas parecem confinar-se a Frank Herbert, Gordon Dickson e Tolkien. Compara Trujillo a Sauron e imagina-se Dorsai. Uma atitude que me pareceria natural num adolescente com tais gostos, esta opção de contra-cultura de Junot Díaz foi enaltecida pelos críticos, quer do mainstream quer do género. Francamente, não consegui encontrar igual fascínio. Os críticos do mainstream louvam o autor por assumir a sua street-smartness e geekiness, como se se tratasse de um topping adicional na sobremesa – como se, efectivamente, e dada a história tão emocional em questão, fosse algo dispensável. Os críticos da Ficção Científica apreciam o respeito mostrado aos autores e temas do género, como se de facto as poucas descrições dos seus hábitos de leitura elevassem esta obra a uma introdução a leigos da complexidade inerente ao Fantástico.

Não encontro outras leituras que de tratar-se de uma história quase incomodativamente pessoal, um colocar a nú de velhas feridas – e há que admirá-la por isso. Um nú não apenas familiar mas de todo um povo e uma geração, que precisava de expor as injustiças por que passou face às injustiças que outros reclamam para si. Os melhores momentos do livro não se referem a Oscar Wao – um alter-ego possivelmente deturpado do autor – mas quando regressa a Santo Domingo e ao passado, quando conta a história trágica dos avós e do conflito com o ditador. São momentos poderosíssimos em que Junot apresenta as suas melhores qualidades de contista. Momentos,afinal, sem referências à Ficção Científica.

Um breve mas assombroso livro, sem dúvida.

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06 Maio 2010

Há Pouca Ciência Na Nossa FC. Embora a afirmação mereça ser fundamentada numa reflexão posterior, explique-se no entanto que me refiro à actividade de pesquisa e preparação científica fundamentais a uma obra de verdadeira FC.

E sim, podemos graduar a noção de «verdadeira» em diferentes tons do espectro do género; creio, contudo, que todos chegaremos facilmente a acordo: que as narrativas que têem por base um fenómeno conhecido de natureza científica (validado pelos investigadores ou ainda matéria de especulação), motivando, determinando e no final influenciando o decurso da história, irão destacar-se das que se preocupem com o factor humano ou íntimo em cenários futuros, alternativos ou pseudo-tecnológicos, e das que, por muito que atirem com jargão científico e salpiquem com pós de futuro, encontram no conflito entre os personagens, e apenas neste, a razão de ser do enredo.

E hard-SF, na nossa língua portuguesa, pelo menos na variante europeia, é raça que até pode existir, mas nunca foi avistada...

A recomendação de hoje vai então dar destaque, não à ficção mas à ciência. O Património Genético Português – A História Humana Preservada Nos Genes (por que um bom livro de divulgação científica requer sempre um título sério seguido de um sub-título mais explicativo) é um ensaio inesperado mas muito pertinente, que resulta da colaboração entre Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Como nestas coisas o currículo é importante, rapidamente se percebe que Luisa é bióloga, doutorada em genética populacional humana, investigadora do IPATIMUP e professora afiliada da FMUP. Filipa, por sua vez, é jornalista científica e mestre em Comunicação e Educação da Ciência. E (revelação terrível!) ambas são mais jovens que este vosso leitor...

É um prazer descobrir que a pequena comunidade científica do nosso país escreve artigos e é publicada e reconhecida internacionalmente – a internacionalização surgindo, não só como característica inerente ao meio como necessidade de sobrevivência face à nossa pequenez. Que haja uma história particular do nosso país que possa e mereça ser contada pelos genes, é um pensamento inovador, razão pela qual este pequeno e curto livro se torna tão interessante.

As autoras estruturam a apresentação de forma clara: primeiro explicam de que se trata e como se pode medir a Genética Populacional – pelo ADN mitocondrial (contribuição da mãe) e cromossoma Y (contribuição do pai). Neste processo, dos que não se reproduzem nem fazem por se reproduzir não reza a História. A seguir levam-nos numa viagem pelas eras, pelo surgimento do Homem e primeiras migrações pré-Históricas, revelando as pistas que se escondem nos genes actuais. O foco centra-se a seguir na Europa e no Paleolítico, explica a contribuição das Idades do Gelo para a actual dispersão humana e acaba por se centrar em Portugal, particularmente nas influências das populações africanas no nosso património genético, olhando para os exemplos de Belmonte e Mértola (exemplo que me é pessoalmente caro) antes de discorrer sobre as «influências» que os nossos digníssimos exploradores quinhentistas foram deixando por esse além-mar fora... As autoras salientam que uma das grandes questões é haver mundialmente maior homogeneidade feminina que masculina, algo talvez explicado por haver maior mobilidade, historicamente, para as mulheres que para os homens, além do factor poligamia.

O livro é conciso, directo, rico em factos, como se pretende. É interessante e bem estruturado – mais estruturado do que o próprio processo de descoberta científica, cheio de saltos, recuos, dúvidas, frustrações, até ao momento de glória em que tudo encaixa. Infelizmente, o que falta ao livro, enquanto material de divulgação científica para um público amador, é precisamente a rota da descoberta, o envolvimento emocional da investigação. É tão-somente uma questão de linguagem, nada mais. Seguir o investigador ou a comunidade científica de revelação em revelação, em particular as que contrariam as ideias vigentes derivadas da arqueologia e da antropologia: em que medida a genética populacional vem iluminar preconceitos ou suposições daquelas disciplinas ? Em que medida complementa os nossos conhecimentos históricos?

As autoras procuram efectivamente enquadrar a genética como uma forma de conhecimento do Eu, do ser humano, e sem dúvida que há ainda muito por descobrir. Não se questiona o fascínio. Mas enquanto objecto livro, penso haver espaço para melhorias.

Ainda assim, mais uma grande aposta da colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, que ainda mantém alguma da aura que há uns anos a tornava na série de divulgação científica mais procurada do mercado. Algo que é tão ou mais raro que colecções de Ficção Científica. Para nossa pobreza.

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