Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


14 Maio 2010

A Decisão Inesperada de prolongar a Feira do Livro por mais uma semana – imagino os impactos nos custos adicionais com pessoal e de sacrifício horário que terá nas editoras, em particular nas pequenas – não compensa as más decisões efectuadas e um desconsolo generalizado com o evento que se instalou este ano. Será sem dúvida factor clima; será desânimo pela economia e pela bela notícia de aumento dos impostos, como se isso resolvesse a nossa fraca competitividade internacional. Por vezes, é preciso simplesmente deixar ir e ansiar por um retorno em melhor forma – sim, e também falo da Nação...

Tem sido um percurso interessante, o nosso, nos últimos dias por um conjunto de obras, vulgo recomendações, que possam ajudar a vossa decisão diária de compras. Principalmente, chamar a atenção para edições antigas que se encontram ainda disponíveis. Não entendo a facilidade com que se descartam obras da memória passados meses ou poucos anos; não aceito que as críticas se centrem apenas em novidades. O mundo não nasceu há cinco minutos. E se se limitam a ler quem poucos anos se vos adianta em idade, garanto-vos que não aprendem nada.

É, contudo, um percurso cansativo e outros afazeres urgem. A promessa de continuar até dia 16 será mantida, mas após essa data ainda haverá que ponderar. Não está de parte uma possível recomendação ou outra. Em particular, por que nos últimos dias pretendia regressar ao presente e oferecer algumas orientações para livros recentes. Nem sempre véu, nem sempre espartilho. Mas sem compromissos, desta feita. Aquilo que empresarialmente se considera numa base de best effort (adoramos a língua inglesa no nosso mundo empresarial; e no nosso científico também, a bem dizer).

A recomendação de hoje recupera uma delícia de 1992, um livrinho curto da autoria de Alan Lightman: Os Sonhos de Einstein. Foi publicado pela Asa numa daquelas colecções de Literatura em formato pequeno. Os Sonhos de Einstein trata de uma especulação inteligente e sensível sobre os sonhos que Einstein teria experimentado enquanto concebia a teoria da relatividade (mais centrados nos efeitos da especial que da geral). Sonhos de mundos e situações alternativas, em que o tempo não se comporta conforme o conhecemos. O efeito aproxima-se bastante de um ensaio sobre experiências com o tempo, mas com a particularidade de cada situação, cada novo mundo, serem apresentados em termos humanos - ou seja, Ficção Científica.

Temos assim, um mundo em que o tempo retrocede, ao invés de avançar; em que avança aos saltos, de forma discreta; em que efeitos não se sucedem necessariamente às causas; em que a mesma povoação coexiste em diferentes eras do passado; em que a dilatação temporal derivada da aproximação à velocidde da luz manifesta-se a velocidades humanas (ou seja, a velocidade da luz é extremamente reduzida), pelo que toda a gente corre para todo o lado, de forma a viver o mais tempo possível. E se a vida eterna for uma realidade, qual será a sua atitude no dia-a-dia: pertence aos Já's, que querem despachar tarefas rapidamente para estarem sempre prontos, ou aos Deixa Para Mais Tarde, por que, afinal, têm todo o tempo do universo para as realizar?

Os capítulos sucedem-se de forma breve, quase em forma de conto de fadas, pequenas alegorias do tempo entrecortadas com instantâneos da história de vida do famoso cientista. Tem o sabor de uma colectânea de fábulas, misto de infância e ciência. Existe, em particular, uma cena na qual um casal de amantes se separa por que o instante de interrupção temporal, mesmo sendo imperceptível, foi o suficiente para causar dúvida e não os deixar arriscar novamente.

É um livro apropriado para a mesa-de-cabeceira e foi sem dúvida uma excelente escolha do editor. Mas é FC pura e dura, com extrapolação científica e um belíssimo ouvido para a prosa. Apenas não se chama FC...

Fica o desejo de que desperte sonhos tão ou mais atraentes que os de Einstein.

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13 Maio 2010

De Tão Habituado Às Edições dispersas pelos anos e pelas casas editoras e que jamais se renovam, é difícil para um empedernido entusiasta português de Ficção Científica aperceber-se da quantidade de obras que se encontram ainda disponíveis para quem tenha chegado recentemente ao género e conheça essencialmente o trabalho da Saída de Emergência e Gailivro. Sem dúvida que no nosso tempo não existia esta oferta, a não ser que se procurassem números antigos das colecções já mencionadas ou que se vasculhasse nos recantos dos alfarrabistas: a Panorama e a DH haviam terminado há tempo suficiente para desaparecerem do radar, e só a vertente brasileira – nomeadamente a editora Hemus, responsável pela tradução em português da Fundação asimoviana antes do trabalho da Livros do Brasil com a Argonauta Gigante – conseguia acrescentar uma oferta paralela.

Hoje, ao percorrer a gélida temperança da Feira, nesta maldita antecipação do evento face ao calendário primaveril (será que os senhores editores responsáveis pela ideia passam o tempo suficiente no Parque Eduardo VII?), ocorreu-me a extensão da oferta para os jovens. Pois, afinal, não só estão disponíveis dezenas de números das principais colecções dos anos 80/90 já citadas (Livros de Bolso FC e Argonauta), como se podem ainda encontrar restos de edições igualmente antigas, como fósseis de uma antiga glória. E entre os ditos fósseis, surge ocasionalmente o antepassado primordial de um novo filo, uma obra de referência que se pensava estar apenas disponível na língua-mãe, mas que, surpresa!, por poucos euros pode saltar para o nosso colo a falar bom lusitano.

É este o caso de Mais Que Humanos, de Theodore Sturgeon, na edição mais recente da Presença, que a editora fez o favor de colocar fora das colecções do Fantástico, juntamente com os clássicos da literatura – uma demonstração apreciada de respeito mas que sem dúvida alienou o público-alvo (na Feira, o pavilhão em que se encontra é inclusive separado). Ou, continuando ainda nesta editora, temos os casos pontuais de Schismatrix – O Mundo Pós-Humano de Bruce Sterling, Samurai: Nome de Código de Neal Stephenson, A Mão Esquerda das Trevas de Ursula Le Guin, A Guerra da Evolução de Neil Asher, e outros grandes títulos, trazidos à luz na colecção Viajantes do Tempo, que, é bom lembrar, prometia novos mundos ao mundo no ano distante de 2003, quando teve início, antes de se render aos livros fáceis destinados aos muito jovens.

Mas não é caso isolado. Avançando na profundidade do tempo, chegamos ao pavilhão da Gradiva, onde um Neuromante insuspeito nos sorri ao canto da lateral que contém os saldos. Eis um exemplo gritante de uma grande obra, uma obra que inspirou gerações de programadores e criadores de mundos virtuais, que esteve na origem de um movimento ciberartístico, culminando – se tal se pode afirmar – no filme Matrix; e em português encontra-se ignorada, atirada para um canto, abandonada para morrer.

Lembro-me bem do instante em que vi a edição nacional pela primeira vez. Era também Feira do Livro, mas de concelho, e acabara de ser publicada. Em capa dura, como era apanágio da colecção Contacto e como só o João Barreiros teria coragem e devoção para arriscar. Subsistindo ainda da mesada, atirei a cautela às favas e trouxe o livro comigo (os livros de capa dura não eram, como não são, baratos). Era impossível não trazê-lo. Era impossivel ignorar aquele prazer da descoberta, como se me fosse revelado um segredo há muito aguardado. Por vezes, conhecer o plano editorial vindouro tira a graça à descoberta. A edição foi uma surpresa completa, e encontrá-la, após tantas referências sobre o romance mas sem dispor da Amazon nem compras no estrangeiro naquela época de pré-História assalariada, foi o equivalente de receber uma prenda inesperada ou presenciar um acto divino. Como vos disse, ainda me lembro desse momento, volvidos 23 anos.

Com tradução razoavelmente competente de Fernando Correia Marques, o romance mergulha-nos na história de Case e Molly, o par de improváveis mercenários do mundo virtual e das correntes de dados, contratados para descobrir segredos empresariais escondidos nos centros de informação das grandes corporações. Deles é um mundo adjacente ao nosso mas apenas visível para quem dispuser da interface correcta. Quem se prestar a ceder partes da carne e da alma, partes de si mesmo, para convergir num novo ser, uno com as máquinas.

A narrativa decorre num Japão ultra-modernizado e na costa leste dos Estados Unidos. A missão para a qual Case se deixa seduzir – e cujo prémio consiste na recuperação da interface do seu sistema nervoso central, destruido no decurso de um trabalho anterior que deu para o torto – consiste inicialmente na descoberta da natureza de uma poderosa inteligência artificial (I.A.) de nome Wintermute, mas em breve se revela mais complexa e ilegal do que isso. Wintermute foi criada e é mantida por uma família de elite, quase à margem da lei, que impede a existência de I.A.s demasiado complexas, e que foi programada com um desejo irreconciliável de se fundir com o gémeo Neuromante e tornar-se numa magnum I.A. como nunca visto. Case e Molly, se quiserem libertar-se das dependências da vida nas ruas e tornar-se cidadãos com um futuro íntegro, terão de ajudar Wintermute a alcançar o objectivo. Ou – como não podia deixar de ser – morrer a tentar...

O enredo não é efectivamente o ponto forte do livro, nem o motivo da sua originalidade. Apesar da acção, do perigo eminente e das reviravoltas surpreendentes, não há uma sensação de revelação contínua e ansiosa que nos prenda – ou pelo menos, não foi essa a minha experiência. O livro é excelente pelo seu estilo.

Gibson, já o afirmei noutros sítios, devia ter escrito algures na sua carreira um romance mainstream. Talvez o tenha feito com Spook Country, muito à sua maneira, pois é um livro sobre o «presente acabado de acontecer». Precisava de ter feito poemas, muitos, além do seu «Agrippa» e da evocação dos mortos. Gibson é dotado de um estilo certeiro, de uma capacidade inata, ou talvez simplesmente trabalhada, de escolher com precisão laser e evocação poética, a correcta imagem para a situação. Sem dúvida uma das aberturas mais famosas de sempre, «O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal sem emissão» coloca-nos de imediato no ambiente e na proposta literária de Neuromante: a de uma ecologia tecnológica, criada por nós, mas cujo controlo renegámos há muito. Um mundo no qual as máquinas pensam e sentem e encontram-se ligadas de uma forma quase mística. É assombrosa a cena na qual Case recebe, na zona de cabinas de um espaço público,  uma chamada directa de Wintermute e, querendo fugir do mesmo, passa a correr pelas restantes cabinas telefónicas; estas, à medida que passa, vão tocando à vez, acompanhando-o. É tão simples, a cena, mas tão eficaz, na medida em que antecipa e descreve de forma sumária o terror da vigilância electrónica, ainda mero conceito naquela data.

Esta capacidade de síntese só se alcança quando se escreveu a história vezes sem fim, e se reescreveu, e escreveu ainda mais uma vez. Só quando a história é uma parte da memória do autor é que ele tem finalmente capacidade para a contar, centrando-se no que interessa e colocando de lado as frases inúteis, paradas e desinteressantes.

Eis a minha recomendação de hoje – a de um clássico indispensável já difícil de encontrar. Não a edição original em capa dura, mas um lançamento efectuado pela Gradiva algures em finais dos anos 90, em formato trade paperback, embora o conteúdo se tenha mantido inalterado.

Gostaria de incluir nas recomendações a colecção da Caminho. Infelizmente, os livros de capa azul foram convertidos em pasta de papel  - espero eu que, ao menos, os exemplares que sobravam das minhas obras tenham sido sacrificados para algo mais nobre que as compilação dos textos completos do Pedro Paixão, e outros que tais -, e não há indícios de que, nesta era em que finalmente os ombros do Fantástico sustentam tantas vendas e pagam tantos salários, a Caminho (mesmo incorporada na Leya, imagino que retenha algum grau de decisão sobre a sua estratégia empresarial), detentora de um catálogo europeu de títulos e autores de tal forma ímpar que recebeu louvores da associação britânica de FC, pretenda aproveitar a maré e lançar reedições da prata da casa.

Obras feitas e traduzidas, que seriam facilmente recuperadas, pagos os direitos novamente e lançadas no mercado. Além do facto de esta dita casa incluir autores portugueses e obras igualmente prontas a re-imprimir, de provas dadas e com historial de vendas, nem sequer precisando de dispender o esforço de pedir ao mercado textos inéditos e avaliá-los. Mesmo sendo reedições, é pouco provável que os leitores modernos tenham tido acesso ou conheçam sequer o material lançado em inícios de 90, pelo que funcionariam, para todos os efeitos, como obras (quase) jovens.

(Suspiro...)

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12 Maio 2010

É Espantosa A Marca que o tempo nos deixa. Tenho recordações mais vívidas e presentes dos primeiros dez anos de leituras de Ficção Científica que dos vinte e tais que se lhes seguiram. Posso, quase sem necessidade de folhear os livros, descrever-vos com pequena margem de erro as primeiras dezenas de títulos da Livros de Bolso FC da Europa-América.

Entendo perfeitamente que, quem tivesse crescido com a Argonauta, encarasse a Bolso FC como uma jovenzinha ainda com provas para dar; afinal, a Argonauta existia desde 1957, enquanto que a última iniciara-se, agora mesmo, com a década de 80 e ainda por cima recorrendo no número inaugural à novelização do primeiro episódio da Galáctica (da série original). Contudo, foi a Bolso FC que me apresentou o universo glorioso e infinito da Ficção Científica, qual epifania religiosa, e por isso é esta que acabo por colocar em primeiro plano. Não me admira que sejam diferentes as lealdades de quem cresceu com as colecções Via Láctea e Viajantes do Tempo da Presença; mesmo quem acompanhe mais a Bang! distinguir-se-á de quem prefira a 1001 Mundos, tendo sido marcado por temas e autores, embora próximos, com suficientes graus de separação. Sem dúvida que os editores actuais são mais participativos – fruto dos tempos. Os editores da Europa-América e da Livros do Brasil existiam atrás das fortalezas, e não tínhamos acesso às suas opiniões e preferências, a não ser quando explicavam as escolhas num texto introdutório ao livro do mês.

É natural supor que seria difícil escolher a obra a recomendar, a partir do leque de títulos que a editora foi mantendo disponíveis e reeditados, até finalmente perceber que o filão esgotara. A colecção surge ainda nas Feiras do Livro, não tão coleccionável quanto a Argonauta, mas repleta de bons e antigos exemplos de como se podia manter qualidade e baixo preço e formato de bolso num só pacote (e sim, estou perfeitamente ciente de que me refiro à empresa que anos mais tarde se tornaria sinónimo de displicência editorial). Mas, das centenas de números, há um livro que sobressai sem dificuldades.

Os Despojados – Uma Utopia Ambígua, de Ursula Le Guin, merece um destaque maior e melhor do que o espaço limitado desta recomendação. Dizer que o considero como o melhor romance de FC que conheço acaba por ser redutor, além de ser também um convite ao debate. Dizer que se trata de leitura obrigatória para qualquer aspirante a escritor, é ser minimalista. Coibi-me propositadamente do exagero «o melhor romance de FC de sempre», por que, obviamente, não li todos os romances que existem, nem nunca serei humanamente capaz de o fazer. Mas terá seguramente o meu voto para, no final dos tempos, acabar no pódio, entre os três primeiros.

Muito da afirmação acima reflecte o meu ideal de FC, e muito deste ideal deve-se precisamente a este livro. Tal como a obra, definir a FC torna-se num processo circular, taoista, que encontra na experiência passada o alimento para a era seguinte. De certa forma auto-fágico, mas em grande medida uma procura da excelência que só consegue ser obtida a partir do apuramento da raça, imune a contaminações externas.

Mas em que consiste então o melhor romance de FC que conheço?

Conta a história de Shevek, físico teórico de uma lua anarquista chamada Anarres. A lua foi colonizada há século e meio por uma comunidade de dissidentes políticos mundiais que negociaram com os governos comunistas e capitalistas do planeta-mãe (Urras) a expatriação para os territórios desérticos – mas habitáveis – do satélite em troca de, basicamente, os deixarem governar em paz. Ajudou para esse processo que Anarres fosse um lugar de sobrevivência difícil, com parcos recursos, obrigando a colónia a instituir processos de rotação de voluntariado para tarefas manuais exigentes, de forma a que o trabalho mais pesado fosse cumprido.

Não tendo o luxo de tecnologia sofisticada, Anarres é apresentado como um lugar de trabalho manual intensivo, empenhado no dever, reservando pouco espaço para o prazer do espírito e para a sofisticação intelectual. Ao mesmo tempo, é-nos dito, funciona como um organismo permanentemente exercitado, sem excessos nem gorduras nem distracções, eficiente, focado e saudável. Livre. Livre para se sentir pleno e recompensado.

Que futuro terá então um físico teórico no meio desta comunidade? A autora apresenta-nos com uma maestria excepcional a dicotomia entre trabalhador e pensador; entre mero homem representante do povo e cultura em que nasceu, e génio destinado a descobrir as leis íntimas do universo. Um equilíbrio difícil que, no final, é humano e imperfeito, e varia consoante a vontade e motivação pessoais, bem como a capacidade de aceitação do seu povo – capacidade que, ele acaba por perceber, é reduzida.

O génio precisa de outros génios com quem trocar ideias. As ideias, afirma Le Guin, são como a relva, precisam da chuva e do sol, crescem melhor quando são pisadas. Mas para encontrar esses génios, precisa de sair de Anarres. Precisa de fazer o caminho inverso do seu povo, regressar à terra da luxúria, ao pecado original. Não obstante trocas comerciais necessárias mantidas pelo sindicato, Anarres vive de costas voltadas para Urras, apelidando-o de nomes feios, nomes políticos. Se Shevek encetar a viagem, será o primeiro embaixador de Anarres em muitas décadas. E, por que estamos neste tipo de romances, Shevek viaja.

O livro mostra-se desde o início como uma história circular, alternando os capítulos da passagem por Urras com a história de vida de Shevek em Anarres até tomar essa decisão. As partes, assim misturadas, formam um todo harmonioso que não seria tão eficaz se a separação fosse linear. Além disso, contribuem para sustentar uma variante literária da parábola de Zenão, que surge a meio do livro: qualquer que seja a meta, faltará sempre metade do caminho para a atingir – metade da distância que agora a separa, e chegado a esse ponto intermédio, metade da distância entre essa metade e o final. Nunca se atinge o objectivo, afirma o paradoxo, porque faltará sempre metade da distância a percorrer, ainda que infinitesimal. Esta parábola é uma tradução das séries convergentes, um instrumento matemático que representa a infinidade. Tradução também de fenómenos físicos como a relatividade – jamais conseguiremos atingir a velocidade da luz, por que o esforço energético para adicionarmos pequenos incrementos de velocidade à nossa nave torna-se exponencial quando nos aproximamos desse limite imposto pelo universo; cair para um buraco negro resulta num fenómeno semelhante, pois o tempo estende-se até ao infinito, prolonga-se em direcção à eternidade, abrandando mas sem nunca parar, tornando a queda numa condenação eterna.

Que um livro consiga este casamento tão perfeito entre ciência, estrutura narrativa, tema e abordagem literária é sublime. É deslumbrante observar como, frase a frase, minuciosamente e sem dispender palavras desnecessárias, Le Guin consegue, em simultâneo, apresentar uma sociedade política anarquista baseada nos modelos de Kropotkin; ser adulta o suficiente para não se deixar enganar pelas suas preferências e abordar com clareza os problemas inerentes a essa pseudo-utopia (daí o título «utopia ambígua»); fazer reflectir a dualidade social na personalidade do protagonista e na sua necessidade entre perseguir um sonho ou ser um homem integrado na terra e no povo em que nasceu; explicar a sua postura em termos práticos, fugindo da solução fácil de ostentá-lo como profeta ou demagogo, mas sustentando-o firmemente na base da ciência, levando-o para Urras não como um homem de ideais mas de ideias – ideias práticas, matemáticas, demonstráveis, mais fortes que qualquer vontade ou interpretação humana; explicar a ciência, e efectivamente convertê-la, em filosofia pessoal, numa clara homenagem à interpretação do universo que a Relatividade e a Mecânica Quântica nos trouxeram; e no final, confrontar dois sistemas políticos distintos, com conjuntos de valores constrastantes, para um final necessário e lógico, circular na sua essência, ainda que possivelmente, e em certa medida, forçado.

A frase final «As mãos estavam vazias, como sempre» explicam Anarres com uma magistral economia de palavras, dando continuidade circular à frase de abertura «Havia um muro». Tudo, tudo, tudo neste romance está pensado, trabalhado, polido, encaixado. Tudo nele faz sentido. Tudo nele brilha e fica na memória.

E como se não bastasse, é uma obra com uma qualidade de prosa invulgar na FC norte-americana, e digamos mesmo, na ficção moderna de língua inglesa.

Os Despojados foi publicado em duas partes - números 46 e 47 -, na Bolso FC da Europa-América, com capas de Rui Ligeiro, e uma tradução notória de Maria Freire da Cruz, que faz juz à qualidade da obra e em alguns momentos a verte de forma impecável para a nossa língua, respeitando a intenção da autora sobre a economia e a beleza das frases. Um dos melhores momentos de sempre (aqui já o afirmo com segurança) da edição de FC em língua portuguesa. E que hoje é vendido, nas barracas da Feira do Livro, por um valor irrisório...

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11 Maio 2010

Esta Pretendia Ser uma recomendação diferente, mas a realidade, como sempre, enrola-nos e lança-nos para o lado. A imprensa divulgou ontem o falecimento de Frank Frazetta, que o João evoca especialmente no seu blogue. Desenhador de BD e ilustrador de inúmeras capas de Ficção Científica e Fantasia, com particular destaque para o trabalho que acompanharia as reedições de Tarzan e Barsoom, Frazetta tornou-se num sinónimo da imagem fantástica, repleto de heróis musculados, heroínas voluptuosas e monstros disformes no auge da batalha. De Frazetta, e que eu conheça, não existe nenhum álbum publicado em Portugal, o que espero seja corrigido brevemente. A minha recomendação segue assim o espírito e não o autor.

Fantasy Art Now é uma recente edição da Editorial Estampa organizada por Martin McKenna. Recolhe trabalhos modernos de ilustração de vários autores internacionais, que podem ter adornado capas de edições portuguesas. A organização é por temas, e as imagens surgem de forma ampla, com suficiente detalhe e destaque para uma apreciação demorada. Não dispondo neste momento do livro (trata-se de uma recomendação também para o crítico), não vos posso confirmar a lista de artistas que inclui (suponho que nenhum exemplo pela mão de Frazetta, se não surgiria destacado, seguramente, nas críticas estrangeiras) - e como não podia deixar de ser, a editora portuguesa é completamente omissa e negligente na promoção que dele faz, pelo que tenho de confiar nos sítios Web estrangeiros. Mas a edição é cuidada, os desenhos cativantes, e a Feira do Livro é uma excelente oportunidade para adquiri-lo com desconto. Em particular pelo incentivo que estarão a prestar à tradução e publicação nacional de livros sobre arte Fantástica; trata-se, afinal, de uma aposta arriscada e de um exemplo singular no nosso mercado.

Também entre nós existe uma (pequena) história de ilustrações originais para livros relacionados com o género, com particular destaque para o trabalho de Lima de Freitas na colecção Argonauta e Rui Ligeiro na Europa-América. Espero um dia poder ver uma colectânea comemorativa desses tempos esquecidos.

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Há Por Vezes Desabafos que são mais fortes do que nós e que não se conseguem evitar. Este foi um deles. Com imenso cavalheirismo, o Daniel Borba descobriu e aceitou o desafio. Resultou nesta apreciação. Poderia ter tido um resultado diferente e seria igualmente apreciado. Deixo o meu agradecimento ao Daniel, que me ajudou a comprovar que a subtileza funciona e inclusive se torna num prazer maior quando relida. O conto, como sabem, continua aqui. Qual é a vossa opinião?

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10 Maio 2010

É Impossível Deixar-Vos estas recomendações sumárias sem incluir duas das principais colecções de Ficção Científica que actualmente só se conseguem encontrar na Feira do Livro ou em algum alfarrabista: a Argonauta e a Livros de Bolso FC da Europa-América.

Para quem não tenha atravessado os anos 80, é quase impossível imaginar o domínio destas colecções. Não havia praticamente livraria que não dedicasse uma secção extensa a expor uma grande parte ou inclusive – no caso da Europa-América – a totalidade dos números publicados. Eis um grande ensinamento para as práticas modernas: ainda que hoje existam colecções – a 1001 Mundos e a Bang!, para destacar as principais –, as livrarias não se dedicam a reunir os exemplares segundo uma lógica numérica e num espaço independente, preferindo seguir as suas próprias regras de catalogação; o leitor recém-chegado à colecção sente-se naturalmente desamparado (será o livro acabado de comprar o número mais recente?) e terá de recorrer a outros recursos, como pesquisar na internet ou contactar a editora, para entender que obras constam do catálogo e mesmo do planeamento futuro. Contudo, encontrar alguns números mais antigos irá revelar-se uma tarefa frustrada, obrigando-o a comprar online – de que nem todos os leitores gostam – ou esperar por uma Feira do Livro, para completar a colecção. O facto de os títulos anteriores estarem disponíveis no momento, ou serem facilmente encontrados pela pesquisa na outra livraria mais próxima, ajudava bastante os novos leitores, acabados de chegar por via de uma novelização de um filme em cartaz, por seguirem uma recomendação pessoal, por conhecerem o autor ou por mero acaso.

O leitor ocasional era assim imediatamente fidelizado; o mercado expandia-se. Além disso, existia o factor educação: a colecção era um veículo para ir divulgando autores e obras inovadores, pois havia uma confiança por parte do editor que um segmento importante dos seguidores iriam confiar na aposta e comprar o livro – nem que fosse para ter a colecção completa. O fenómeno era fiável, e se acabou por perder ânimo foi principalmente pela falta de confiança dos editores no que eles próprios haviam ajudado a criar. Sucediam-se as más traduções e a falta de revisão. Adicionalmente começou a abusar-se do fenómeno de divisão do livro. Os leitores estavam habituados a, duas ou três vezes por ano, comprarem histórias às fatias, nas quais uma obra extensa no original era dividida em duas ou três partes na edição portuguesa para tornar a compra individual mais barata. Era uma explicação lógica, e quem vivia da mesada agradecia. Implicava que se conheceriam menos romances e autores naquele ano, pois um dos números previstos seria uma segunda ou uma terceira parte, mas enquanto as metades eram gordinhas em número de páginas havia um pacto entre editor e leitor. Esse pacto começou a quebrar-se quando as metades se tornaram esquálidas e se começou a perceber que o editor pretendia obter o maior lucro possível de cada título comprado.

Era o sinal de que o modelo de livro de bolso se tinha esgotado. E se os leitores ocasionais já tinham desaparecido há muito, esta mudança de atitude alienou os fiéis. A cisão tornou-se irreconciliável.

Ainda assim, muitas obras, boas obras, se publicaram nos tempos áureos. Irei destacar duas, uma de cada colecção.

O Tempo, O Espaço e o Cérebro é a tradução idiota do título The Big Time, um dos melhores livros de Fritz Leiber e dos poucos a encontrar caminho para o nosso idioma, com edição da Livros do Brasil. Nos tempos da Guerra da Mudança, é-nos dito, duas facções encontram-se num conflito permanente e milenar entre si: os Aranhas e os Serpentes. Não se sabe como ou porque começou nem ninguém sabe quando ou se acabará. Não se conhece sequer a forma e figura destes seres. A guerra é tudo, menos convencional, pois trava-se na própria natureza do Tempo. Cada facção dispõe da capacidade de viajar pelas eras e alterar o rumo da história. São as próprias batalhas da humanidade, as que existiram e todas as que poderiam ter existido, as que acabam por representar, no fim, a essência desta guerra. E porque a História pode ser alterada por um qualquer agente destas facções, pendendo a favor de uma ou de outra, assim a Humanidade segue na esteira. Inimigos mortais que lutariam em lados opostos numa realidade são aliados na próxima; soldados rasos tornam-se comandantes e logo regressam ao posto inicial; contendas podem tornar-se em batalhas decisivas ou em meros distúrbios. Quando a mudança na História acontece repercute-se pelas eras de forma progressiva, como uma ventania: daí o nome dos Ventos (e Guerra) de Mudança.

Isto torna-se num desgaste intenso para os soldados Aranhas e Serpentes – soldados humanos, recrutados ao longo das eras passadas e futuras da nossa História – , contra o qual se construiram zonas atemporais, isoladas do efeito pernicioso das alterações históricas. Zonas de descanso em que o conflito não é permitido e pelas quais recrutas e soldados experientes passam antes de serem enviados numa nova missão para outra era. É numa destas zonas que a história decorre.

E trata-se de uma história simples. Uma história contada com economia de tempo e espaço narrativo. Muito se escreveu já sobre a natureza teatral do romance, sobre as entradas e saidas coreografadas e os desenvolvimentos dramáticos de cada personagem, que fazem mais sentido numa peça que numa narrativa clássica. O livro é breve e veloz, e é preciso estar atento. O cenário de eterna e confusa guerra alimentaria, possivelmente, uma série de dez grossos volumes por um autor moderno versado em História. Leiber, contudo, utiliza este conceito apenas como cenário – nunca se entra num conflito efectivo, nunca se descreve uma batalha ou uma mudança no tempo a acontecer, os quais são apenas mencionados e explicados no decurso da acção – e centra o enredo numa situação urgente que implica a sobrevivência de um punhado de soldados e agentes temporais e da própria zona de repouso.

A edição conta com quase vinte anos de idade (é de 1992). Como podem perceber pelo exemplo do título, não representa uma maestria da arte de traduzir. Felizmente podem também encontrá-la disponível, gratuitamente e na língua original, neste grande repositório do bom e do mau que é a internet.

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09 Maio 2010

Dias De Feira com chuva. A atitude da APEL perante a chuva e as queixas de estragos e danos por parte dos editores (falta de condições apropriadas) foi de encerrar a feira às 18.00 em pleno sábado com actividades agendadas. Claro, o dilúvio tem olhos e pode ser que passe ao lado. Não só se continua a insistir em fazer um evento ao ar livre em plena época fria (relembre-se que anteriormente só começava no final de Maio e adentrava por Junho - mesmo havendo chuva, havia mais oportunidades para calor e noites agradáveis) como não se prevêm planos de contingência para actos (nem por isso tão) inesperados da natureza. A feira tem durado até tarde, uma solução que felizmente respeita os queixumes do ano passado, mas o vento e o frio têm afastado grande parte do público. Bem como o limite aos descontos. Talvez não entre na cabeça dos editores mas... os livros são caros! A feira é, para a maioria das pessoas, a hipótese de renovarem as estantes de casa sem pagarem a contribuição inútil e excessiva dos distribuidores e livreiros.

Ainda assim, assisti a uma conversa aprazível entre o João Seixas e o Ricardo Pinto, que pensei não falasse tão bem português. Considera-se um autor português, embora não escreva nessa língua. E depois uma pequena volta, a rever pessoas conhecidas do real e do virtual, com particular destaque para as simpáticas Madalena e Sofia.

Hoje a recomendação é preguiçosa - afinal, é domingo e chove, e os bloguistas não recebem salário - e vai recuperar uma crítica antiga. A importância do romance mantém-se e pode ser que ainda o encontrem. Se a Feira não foi levada na enxurrada da noite...

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