Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


24 Julho 2010

Existe Uma Dinâmica recente na minha vida, na qual, se não consigo convencer-me a assistir a um filme na semana de estreia, serão grandes as possibilidades de só o encontrar no formato vídeo. O que tem o seu historial de ser, tendo a experiência cinéfila sido transformada num esvoaçar dos pirilampos-telemóvel na escuridão enquanto a audiência envia SMS a não sei quem, acompanhados com a banda sonora de dezenas de baldes de pipocas e refrigerantes a descerem gargantas alheias. Desta vez, cheguei a presenciar inclusive uma situação em que a empregada do bar, ainda que discretamente, entrou na sala em plena exibição para trazer uma encomenda a alguém. A ida ao cinema procura adoptar de propósito os maneirismos e circunstâncias de assistir-se a filmes no sofá lá de casa - quando conseguirmos estar de cuecas na sala de cinema, sei que teremos atingido esse objectivo.

Inception teria sido correctamente traduzido para Germinação - trata-se afinal do germinar de uma atitude a partir de uma ideia, frase que reconhecemos do quotidiano. As ideias são resilientes e também perigosas; as ideias são o que nos define, afirma o filme - ainda que não se deixe enganar pela sua própria retórica e demonstre, em bom jeito de storytelling, que quem nos define são, afinal, as atitudes.

O filme, que vale tanto ou mais pela vertigem visual que pela narrativa algo confusa, lida com a capacidade tecnológica de invadir, manipular e partilhar sonhos - neste caso, para «roubar» informações ou «implantar» ideias, num cenário de espionagem industrial. Os sonhos são assim cenários de realidade virtual, até certo ponto, e como tal, com liberdade de ser e acontecer. «Vamos filmar sonhos» parece, então, tornar-se na frase redentora de um realizador em Hollywood. Despoja-se de formas e estruturas aceites. De repente, tudo é possível no palco cinematográfico, a metáfora invade a história, a cenografia solta-se das amarras e pelo guião voam ruas que se dobram e bares que se inclinam para demonstrar que a vida pode ser ilusão - algo a que, penso, já o Shakespeare aludia. O cinema aproxima-se da sua plenitude enquanto arte, e não se limita à montagem de sequências captadas por uma câmara passivamente observadora: a imagem torna-se ela própria um veículo de narração. O foco sobre o plano que define um filme convencional, o foco necessário para incidir sobre a história, é aqui limitador. Queremos olhar para o lado. Queremos ver uma Paris totalmente dobrada sobre as nossas cabeças. Assim manipulada, para fins narrativos, a imagem revela a sua potencialidade enquanto forma e inspiração, igual potencialidade que reconhecemos à palavra escrita.

É inevitável fazer comparações com Eternal Sunshine of the Spotless Mind (não conspurcando o título, que é uma citação de Pope, com a pretensa versão portuguesa), obra cinematográfica de referência sobre o habitar do espaço mental. Mas neste jogo de lado a lado, Inception fica a perder, pois está mais interessado no virtuosismo que na viagem emocional. Se a derrocada progressiva do protagonista de Jim Carrey é sublimemente apresentada como uma luta contra o esquecimento, através do apagar de luzes e do derrube de estruturas, as construções imaginadas de Inception são pinturas fantásticas destinadas mais a provocar o assombro no espectador que propriamente o envolvimento narrativo. Os personagens são relativamente ocos, e um deles acaba por reconhecer até que não passa de turista na acção. Gostaria de crer que se deveu a um artifício inteligente por parte de Chris Nolan - que toda a história era um sonho muito elaborado, e que portanto só o protagonista é que teria alguma profundidade -, mas a abordagem, um meio caminho nunca bem definido entre filme de aventuras e pretensa «golpada» e herói a querer redimir-se do passado, não é o que sugere. Ainda que exista a (inevitável) dúvida sobre a natureza da realidade, e que Nolan tenha plantado alguns indícios, como a pista de os miudos nunca mostrarem a cara, inclusive na sequência de flashback; como a informação de que o pião só gira eternamente nos sonhos da ex-mulher, indicando-nos que a história é na verdade o sonho dela, o que implica que teria sido ele a receber a Implantação e a matar-se... 

Não é displiscente relembrar a entrevista que Nolan deu no seguimento da estreia de Memento - um filme mais inteligente e bem sucedido em questionar a natureza da realidade -, na qual afirmava que, com o advento do DVD e do cinema em casa, os filmes tinham de aguentar-se a visionamentos repetidos e oferecer continuamente perspectivas novas. Aqui, e não obstante um par de sequências delirantes filmadas em tambor rotativo (talvez o melhor uso do mesmo no cinema desde 2001), a novidade acaba por desvanescer-se, como um sonho do qual se acorda.

Uma nota final: ao contrário de Abigail, e mesmo concordando com muito do que afirma, não consegui classificar este filme como ficção cientifica. Por muita explicação que seja apresentada em outros assuntos, a realização do sonho partilhado é algo completamente posto de lado, e não é uma veia injectada no braço que me vai convencer da capacidade tecnológica.

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20 Julho 2010

Sem Mais Informações que os dois trailers insalubres, a inevitável e nada original sequência dramática no cimo de um prédio, as frases promocionais pretenciosas («a vida é ampla»?) e erradas (são 7 mil milhões de pessoas, e não 7 biliões *), e a vaga desconfiança de que o filme esteja a querer pavonear-se perante o mercado norte-americano com elevado grau de amadorismo, é com bastante receio que encaro esta recente tentativa de fazer ficção científica às mãos de portugueses. Para tal, não ajudou deparar-me com um Joaquim de Almeida a sair do carro após o que devem ser horas de condução em pleno deserto norte-americano com o fatinho imaculado e sem um único vinco (bastaria tirar-lhe o casaco, senhores...), para ser salvo do acto a que se propõe pela voz do GPS (que se limita a reagir de sinais de satélites em órbita, o que não é, portanto, indicação de que esteja mais alguém vivo no planeta, o que o protagonista deveria saber) - o único traço que salvaria a cena da banalidade estaria, no mínimo, em utilizar a pistola contra a voz irritante do dispositivo, antes de retomar o intento. Mas para quê tentar-se a diferença? Ou sequer a ironia?

Além disso, o facto de ante-estrear num centro comercial creio que diz biliões... perdão, milhões.

(Bem, oxalá me engane.)

* - corrigido numa versão mais recente do mesmo trailer.

Actualização: o sempre atento Luís Rodrigues, faz notar, e bem, o seguinte: «Já dizia Einstein que tudo é relativo.  E relativisticamente falando, todos os satélites GPS sofrem com dessincronizações por dilatação do tempo, diferenças na velocidade angular entre o satélite e o receptor à superfície, excentricidades da órbita, etc.  Tal significa que estes satélites têm de ser constantemente monitorizados e os relógios de bordo corrigidos.  Alguma monitorização é automática (partindo do princípio que os computadores de sincronização têm corrente eléctrica para funcionar), mas não é resposta a todas as emergências.  Por isso diria que o bom funcionamento do GPS é um excelente sinal de que há outros seres humanos vivos no planeta, entre outras coisas ocupados a sincronizar os relógios dos satélites numa base militar algures no Colorado.» Infelizmente, o Luís, que eu saiba, não foi consultor criativo do filme...

Já temos entretanto crítica e opinião fundamentada.

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O Dia Acordou, surpreendentemente, com citações de Kurt Vonnegut Jr., em particular: «Any reviewer who expresses rage and loathing for a novel is preposterous. He or she is like a person who has put on full armor and attacked a hot fudge sundae.» Ah, e com a descoberta da elevada toxicidade do paracetamol, que tem um nível mínimo de sobredosagem muito baixo (cinco vezes inferior ao da aspirina), podendo resultar em graves lesões hepáticas, a qual deu outra perspectiva ao futuro custo/benefício de aliviar as mazelas da gripe (as minhas leituras estão algo eclécticas...).

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30 Junho 2010

A Inocência Inabalável Do Idoso e doce casal daquela britânia rural é o que acaba por destroçar as nossas reservas e envolver-nos no minimalismo insidioso do que é possivelmente o mais cínico e terrível de todos os filmes sobre o advento da catástrofe nuclear. When The Wind Blows é uma vontade do passado que demorou mais de vinte anos a concretizar-se, pois deixei o filme desaparecer dos cinemas em 1986 (era, afinal, um filme com música de Roger Waters), sem desconfiar que só voltaria a reencontrá-lo há poucos meses, numa edição portuguesa em formato DVD.

Nessa época, emergíamos lentamente da Guerra Fria, e apesar de a ameaça da Bomba se manter um tema solene e actual, dando azo a obras políticas como Beyond Armageddon, uma antologia de contos organizada por Walter M. Miller que recolhia diversos manifestos de FC sobre o tema da guerra, começavam a notar-se sinais de alívio, perante o soçobrar do bloco soviético e a propagandização ocidental do conceito da perestroika. Em poucos anos, os romances sobre o pós-guerra apocalíptico deixariam de ser moda e o tema desconfortável de um inverno nuclear desapareceria do portefólio de futuros de bolso sobre os quais os autores de FC se debruçavam. Pode dizer-se que o inverno se dissipou para dar lugar a uma paisagem maravilhosa de possibilidades tecnológicas, longevidade e ciberespaço para todos... claro, até que o século XXI voltou a descobrir a perenidade dos futuros.

Apesar de todas as crises económicas, ecológicas e pandémicas com que ciclicamente somos alimentados - e que acentuam a constante desconfiança que nos está a ser escondida uma tragédia maior -, a possibilidade de que um conjunto de loucos democraticamente eleitos (e outros não tão democraticamente) pudesse destruir o planeta em poucas horas está agora longe das nossas mentes; espero que consigamos, historicamente, olhar para trás e encarar com o devido medo aquela época em que permitimos, como espécie, uma situação mundial de tamanha loucura. Sem esquercer que a Bomba ainda existe, mas está calada e muda no silo, afastada da nossa preocupação diária - talvez demasiado afastada -, e todos aqueles futuros de chuva radioactiva e morte global nos parecem, agora, antiquados e redutores (teremos igual opinião amanhã das eco-catástrofes que hoje se querem precaver?). Em particular os futuros que se centram na queda da civilização, no retorno à barbárie, na descrição fastidiosa dos efeitos da radioactividade.

Quando o Vento Sopra é um filme menos grandioso, mas em muitos aspectos, mais forte. Em grande medida, por que a denúncia não se centra tanto na consequência de uma guerra dessa natureza mas na incapacidade do governo britânico em proteger e informar devidamente o povo. Neste aspecto, é um assunto bastante local, pois o adorável casal da história assume que o governo lhes dará a devida assistência, como tinha dado poucas décadas antes, quando os inimigos eram alemães. São incapazes de perceber que, não só o governo mudou, como o conceito de guerra é bastante mais devastador do que estavam habituados. Deixam-se assim iludir pelas informações de panfletos ridículos, seguindo instruções que em nada os preparam convenientemente para a verdade, acreditando na promessa de retoma dos serviços mínimos, de que haverá uma entidade estatal preocupada e com meios para resolver a situação, após a queda da Bomba. É terrível vê-los sentarem-se no quintal da sua humilde cottage campestre em ruínas, sob os céus cobertos de fuligem, com os campos queimados e as estradas derretidas diante deles, comentando sobre a paisagem completamente desprovida de vida e a imensidão do silêncio, e continuarem a crer que faltarão apenas dias até que chegue socorro institucional. Saber que foram indevidamente avisados a respeito do perigo da radioactividade e constatar progressivamente o fim inevitável, à medida que os sintomas físicos vão surgindo. É uma comédia amarga que se torna inesperadamente íntima ao relacionarmos as atitudes e opiniões com as dos familiares próximos, ou com a imagem do que poderíamos ser naquela idade. No final, o casal sobrevivente acaba por aceitar a morte, possivelmente até a desejá-la; a vontade de ida à padaria, a curta deslocação à casa do leiteiro, ainda que mitigasse a fome e a sede, nunca se vão concretizar. O mundo desapareceu, pressentem isto mas não querem aceitar. E como qualquer casal de longa idade, no final só se têm a si mesmos, deixando-se envolver na rotina fossilizada dos seus pequenos entendimentos para esconder tudo o resto, toda a desolação, encontrando nas desculpas de um amanhã melhor uma forma de aceitar a morte lenta em paz, únicos actores e espectadores de longa data do seu próprio espectáculo privado que apenas aguardam o eminente cair do pano.

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17 Junho 2010

É Um Breve Livro, Longitude (Temas e Debates), o que não é o equivalente a dizer que se trata de um livro pequeno. Embora também. Por que a história que conta não é exactamente a história a que se propõe, ainda que seja igualmente rica em informação e entusiasmante, como qualquer aventura pela descoberta científica. Tudo devido a sonhos de impérios e riquezas, como os que povoavam as mentes de Inglaterra há uns meros séculos. Se perguntássemos a um britânico qual a sua antevisão de um futuro radioso, seria quase certamente a presença da Union Jack em todo o mundo. Se perguntarmos agora, talvez a resposta fosse a mesma, mas com tom sarcástico. Igual pergunta faríamos a um português se o nosso tema não fosse outro.

Dava Sobel mostra que foi jornalista e que escreveu colunas breves - não sei se pequenas - num conceituado jornal de grande circulação. De outra forma, não se explicaria que um livro tão humilde tivesse divulgação tão grande, com direito a filme. A história está longe de ser breve, embora possa ser resumida. A determinação da longitude em alto-mar sempre foi um problema, pois durante muito tempo não houve instrumentação que se mantivesse fiável nas condições a bordo e permitisse aos marinheiros e capitães saber a que distância efectiva se encontravam do destino. O problema disto é que a Terra gira em torno de si mesma e em torno do Sol, a malvada, e portanto a posição das estrelas ao cair e levantar da noite depende da posição relativa no mundo - e como tudo o que é relativo, precisa de uma base, e essa base apenas poderia ser dada pela diferença horária face ao local de partida. Assim, o problema cartográfico tornou-se num problema relojoeiro.

A breve - mas não pequena - explicação de Dava Sobel serve como justificação da centena e meia de páginas seguintes, cujo foco passa do problema científico para um problema humano: quem iria descobrir - e como - uma forma de medir a longitude em alto-mar? Para motivar os potenciais investigadores, o Parlamento Inglês decidiu atribuir um prémio à invenção que conseguisse resolver definitivamente o problema, através do «Longitud Act». E assim se transforma uma senda científica numa caça ao tesouro tecnológico, um problema cósmico numa intriga humana de mesquinhice e altruísmo.

John Harrison, um dos melhores relojoeiros da época, cuja vida é aqui emiuçada ao pormenor, surge como o herói esquecido e injustiçado, tendo dedicado décadas ao aperfeiçoamento de um mecanismo imune aos problemas da navegação em alto-mar e que terá sido tratado com desmerecimento pelos seus, ao ponto de a invenção a que dedicou todos os seus esforços jazer até há pouco tempo esquecida nas caves de Greenwich, salva apenas pelo esmero e nova dedicação de um coleccionador. Os relógios resistiram aos rivais, aos concorrentes, às invenções menores e maiores, e transformaram-se em lenda. Ou pelo menos é assim que Dava Sobel nos apresenta, e apresenta-nos bem.

Poderia a autora ter dedicado mais tempo e páginas a explicar com maior detalhe as inovações contidas nos mecanismos de Harrison? Sem dúvida, mas perderia o foco do drama humano e claro que lhe prejudicaria as vendas. Talvez o único propósito do livro seja efectivamente despertar a curiosidade pelas quatro grandes tentativas de Harrison que se encontram hoje em dia expostas no museu da cidade inglesa. Este leitor pelo menos sentiu um fascínio dessa natureza, e entendo-o perfeitamente. Talvez o verdadeiro benefício deste livro seja o de incentivar à viagem e descoberta.

Ainda assim, creio que se perdeu uma oportunidade de comentário social, escondido na explicação dada e que merecia um pouco mais de destaque: que Harrison tenha demorado décadas a aperfeiçoar uma invenção. Décadas! Quando apresentou a versão mais próxima da sua ideia final, encontrava-se já na terceira idade. Sem considerar que o concurso se manteve em vigor no Parlamento durante mais de cem anos. Conceber isto nos nossos apressados dias é absolutamente impossível. Actualmente, não só cremos que somos capazes de tudo, enquanto espécie, como vamos obtê-lo já amanhã, e antes do meio-dia. Encurtámos a nossa noção de causas meritórias. Creio que ficámos um pouco mais pobres.

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24 Maio 2010

Daqui Para Cima É Sempre A Descer, ou o início.

Revista Visão - 1993
Revista Visão - 1993
Revista Visão - 1993

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19 Maio 2010

Ligações Da Quinzena. Porque a internet anda por aí. Ou assim o afirmam.

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