Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


12 Julho 2012

Uma Avaliação Pertinente E Sucinta sobre as diferenças fundamentais entre Mito (leia-se, Fantástico/Fantasia) e Ficção Científica.

Where the myth claims to explain once and for all the essence of phenomena, SF first posits them as problems and then explores where they lead; it sees the mythical static identity as an illusion, usually as fraud, at best only as a temporary realization of potentially limitless contingencies. It does not ask about "The Man" or "The World", but which man? In which world? And why such a man in such a kind of world? As a literary genre, SF is fully as opposed to supernatural or metaphysical estrangement as it is to naturalism or empiricism.

Darko Suvin, in Speculations on Speculation, org. James Gunn e Matthew Candelaria

Outra forma de interpretar, creio, passará pelo conflito subjacente entre a natureza da epistemologia e a do método científico, aplicadas à função narrativa - ou, para ser mais concreto, entre a Ficção Pura (a que tem origem noutras ficções, literárias ou culturais) e a Ficção Aplicada (a que quebra com a tradição e se deixa conquistar pela demonstração do Real).

Avançaria a hipótese (porque há uma necessidade permanente de entender a frieza com que a promessa do futuro é hoje recebida pela sociedade) que é precisamente o predomínio do Real que tanto afasta a geração actual da FC - a qual não entende a Realidade em que habita e, possivelmente e em grande medida, representa um sentimento de vertigem ou mesmo repulsa. Contudo, é precisamente esse predomínio que representa o principal factor de atracção pelos seus admiradores.

Fica a questão: esta cisão terá tendência a aumentar de forma drástica? Ou iremos eventualmente assistir a uma fusão das abordagens, com perda acentuada das características específicas de cada vertente? Que FC&F sucederá a presente?

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09 Julho 2012

Adrienne À Partida. Mas também, aos poucos, em construção.

Hoje vou contar-vos uma história da carochinha. É como todas uma fábula sobre coisas que poderiam acontecer, e ao mesmo tempo, uma confissão disfarçada de coisas que realmente aconteceram. De que trata verdadeiramente, não vos posso dizer - aqui. Direi noutro sítio. Talvez num forum público sobre agricultura. Talvez numa carta à direcção do jornal diário. Talvez num comentário relativamente a uma crítica literária. Talvez escondida numa crónica sobre relacionamentos e sentimentos amorosos. Talvez num poema com o qual contribua para uma colectânea de vários autores publicada em regime colectivo. Vocês não saberão, mas têm toda a oportunidade para descobrir. Têm tanto acesso a este mundo de informação inesgotável quanto eu. Basta saber onde procurar.

E escusam de utilizar motores de pesquisa. Ou motores de significância. Ou de estilo de escrita. Conheço bem os mecanismos de análise. Não vos vou facilitar a vida.

Não: se quiserem saber realmente do que se trata, têm de me saber seguir.

Porque as conspirações que por aqui andam são reais.

Eis a nossa heroína: recém-chegada à casa dos trinta, de estatura média, olhos ligeiramente afastados e um nariz um pouco pronunciado de mais para o seu gosto, cabelo forte, castanho, ondulado nas pontas, e uma figura esquálida, com peito pequeno e costelas saídas. É ligeiramente nervosa e conhecida pelos maneirismos bruscos, que são menos uma questão de feitio que produto dos inibidores de menstruação e de desejo sexual cujo uso recorrente esconde de todos. Sente-se confortável com roupas simples, discretas, normalmente blusas de cores neutras e calças a condizer, feitas exclusivamente de fibras artificiais. Evita seguir a moda das saias curtas, de novo na berra, por detestar a forma pontiaguda das canelas. Também não se sente confortável em exibir a pele branca que, por deficiência de melanina, assume um tom amarelado e doentio sempre que toma pílulas bronzeadoras. Passa a maior parte do tempo com o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, mais por conveniência do trabalho diário do que por gosto, mas depois durante o seu fim-de-semana não lhe apetece fazer grandes penteados e prende-o da mesma forma. Usa ocasionalmente óculos interactivos, mas como a maior parte dos dados de que necessita é de índole textual, prefere as lentes de contacto - assim aproveita para ir alternando a cor dos olhos enquanto se mantém informada. Vive num pequeno habitáculo de duas divisões, partilhando as áreas comuns de higiene e lazer com onze outros condóminos do andar, mas tem a sorte de as janelas apresentarem um cenário real - a da movimentada Rue Briotte - e não um electrónico ou pior ainda, o páteo interior. Quanto à alimentação, é rigorosa em comer somente produtos processados: não tem a mínima confiança na qualidade dos produtos naturais nem das condições em que teriam sido produzidos, e só procura a segurança dos enlatados submetidos a rigorosos processos de qualidade.

Encontramo-la a caminho do emprego. Imaginem um plano picado sobre Bruges, passando pela Basílica e pelos poucos prédios históricos, atravessando a imensa urbe de cubos habitacionais espelhados que cobrem a zona do porto onde ela reside, mergulhando de súbito num dos canais imundos da cidade que a urbe por cima utiliza como forma de despejo ilegal, penetrando no tubo por onde acelera um metropolitano aquático sem condutor. A nossa heroína - chamemos-lhe Adrienne, por conveniência - prendeu-se a uma das correias suspensas do tecto e dormita em pé, encostada a um varão. Nisto não é diferente dos tantos outros passageiros que a acompanham àquela hora. Não está habituada a erguer-se tão cedo nem a viajar para tão longe. Normalmente meia hora de transporte é o suficiente para a colocar na zona costeira de Antuérpia. Mas hoje foi convocada para Brighton. Algo importante requer a presença dela. Como recebeu a convocação apenas umas horas antes, não fez quaisquer preparativos para a estadia. Apenas leva consigo o cartão pessoal com o historial médico, como segurança, pois nem sempre aqueles destacamentos especiais - embora cuidassem normalmente de alojamento, vestuário e alimentação - estão devidamente informados.

E contudo, não lhe facilitavam transportes especiais, considerando que o pneumático subaquático era mais seguro e discreto que quaisquer movimentações aéreas na zona dos fortes e perigosos ciclones do canal da Mancha. De facto, em pouco tempo já está em alto mar, as janelas tinham-se transformado em ecrãs noticiosos e a impressão nos tímpanos derivada do mergulho em profundidade acorda-a por instantes. Abrindo os olhos, vê piscar no canto inferior direito do campo de visão um quadrado laranja que lhe indica uma mensagem, por ler, em memória. Mas ao aceder ao conteúdo, percebe que é um despacho de correio confidencial com documentos que tem de conhecer antes da reunião, mas que por virtude da falta de comunicações debaixo de água não está disponível. Ela sorri (as pequenas vitórias profissionais são a única coisa que a torna mesmo feliz) e volta à terra dos sonhos.

Por sua vez perturbada: encontrava-se a flutuar novamente, encerrada numa pequena bolha acolchoada, a sensação de alguém a respirar nas suas costas mas que não via quando se virava e rodopiava no ar; tentava atingir as paredes, mas quanto mais se mexia mais permanecia onde se encontrava, no centro da bolha, como uma mosca presa numa teia invisível; depois a luz a mudar, o observador invisível a aproximar-se, uma zona da parede a abrir-se em forma de íris negra, escura, a revelar uma passagem vazia, redonda, infinda; ela a encarar aterrada, a abertura; nos ouvidos o insuportável batuque do coração, cada vez mais alto; ela consciente do terror em que estava, a afundar-se nele, não conseguindo desviar os olhos, mover-se, antecipando o segundo em que o ser do outro lado se mostraria, a confirmação de que o monstro existia, e vinha no seu encalce; e então, a abertura e a passagem deixavam de sê-lo, o que estava em redor mexia-se, destacava-se da parede como um camaleão, e ela percebia que afinal estivera a encarar um esfíncter, talvez um olho, um olho que a observava, não uma passagem mas o prenúncio do sofrimento; e ela ali presa, naquele espaço fechado e minúsculo, sem poder fugir, a ver o seu pior pesadelo consubstanciar-se em forma e vontade diante de si.

Acorda aos gritos. Os outros passageiros encaram-na com absoluto espanto, antes de se mostrarem aborrecidos e indignados por terem sido, também eles, despertados dos seus mundos de sonho privados, aparentemente mais pacíficos. Ela vira-se contra a janela, envergonhadíssima, e desprende-se da correia, para que o corpo fique em constante desequilíbrio e não possa adormecer de novo.

Tantas vezes aquele sonho. Sempre o mesmo. Sempre idêntico fim. O que significa? Que mensagem inconsciente o espírito lhe tenta passar?

Porque se recusa a falar do assunto ao médico?

Adrienne chega finalmente à estação terminal ao largo da costa de Inglaterra, e é despejada para um conjunto de átrios abobadados com tectos de diamante por onde se discernem as águas profundas do canal, iluminadas por potentes holofotes para compensar a inexistência de luz solar e captar a fauna subaquática, mantida num delicado equilíbrio de curiosidade luminosa e repulsa pelos feixes de ultrassons que afastam os bichos mais volumosos ou perigosos para a estrutura. Um extenso espaço comercial acompanha-a à saída, cheio de lojas voláteis que alteram o tipo de mercadoria e a natureza da venda de hora para hora, consoante o fluxo de passageiros e visitantes que o atravessam. O ruído próprio de um espaço tão amplo é profissionalmente abafado por milhares de fiapos dependurados do tecto, quais lianas, que formam uma cortina onde se projectam as notícias de um canal britânico. Enquanto aguarda o elevador para a superfície, concentra-se nas imagens e nas informações das legendas, habituando o cérebro à língua inglesa. Uma explosão num dos postos fronteiriços da Muralha Europeia do mar negro marca as notícias da hora. Aparentemente foi uma manifestação da guerrilha anti-extraterrestres, visando impedir a exportação de tecido semi-inteligente para os países árabes. Embora as notícias sejam vagas sobre o assunto, Adrienne conhece as causas que levaram a tais protestos, pois já observou a forte reação do contacto deste tipo de tecido (fabricado com tecnologia Spiertvick’kap) com os produtos utilizados na região (quase todos influenciados por tecnologia Irristkitck) e imagina os danos que provocarão na pele de que os use... conhecendo a história da região, não é de admirar que pensem que o efeito foi propositado e que resultou de uma tentativa de ataque terrorista subtil da Europa às suas populações. Conhecendo, por outro lado, a história dos extra-terrestres, e como engraçavam pouco uns com os outros, não é de admirar que isso seja verdade. O Próximo Oriente sofreu um duro golpe aquando da escassez do petróleo e da resultante e esperada indiferença do resto do mundo perante a região, subitamente tornada numa África um pouco mais sofisticada mas igualmente corrupta e pobre, e queriam - com a ajuda dos novos amigos do espaço - recuperar algum do poder do passado.

O transporte aguarda-a. A discreta e pequena sigla HSO (Home Security Office) quase se perde na estrutura negra do barco unipessoal, mas o ar austero é inconfundível. O condutor saúda-a com a mão retesada contra a testa, e ela não quer corrigi-lo, dizer-lhe que é civil. Senta-se na cabina e aproveita a curta viagem para descarregar a mensagem e ler o anexo.

O que descobre desperta-a com mais eficiência do que uma injecção de cafeína pura nas veias.


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08 Julho 2012

Virão Chuvas Mansas, disse Sara Teasdale sobre o fim da Humanidade, explicando que nem a Primavera notaria a nossa ausência quando despontasse sobre a derradeira de todas as guerras. Contudo, mesmo estando a Guerra Fria na infância, já se desconfiava quem nem a Primavera sairia vitoriosa do espectro do inverno atómico, ou não fossem ainda recentes as duas cicatrizes do Japão, pelo que não se dirá de todo displiscente que Bradbury, ao deixar-se cativar pelo poema, se tenha focado no espaço íntimo do lar e nas consequências imediatas de tal catástrofe, rejeitando a hipótese mais mais poética de Teasdale que o Paraíso renasceria sobre a Terra.

Na década em que foi publicado, «There Will Come Soft Rains» representa um conto invulgar na Ficção Científica corrente: negativo onde os seus conterrâneos têm sido, até então, habitualmente positivos e crentes na inteligência da espécie humana; melancólico, no meio de narrativas firmes e declarativas; vazio de actores, uma vez que a sua substância consiste precisamente neste vazio, e contudo, mais forte por esse motivo; decorrendo como um longo e lento travelling panorâmico, demonstrando que há formas de unir a linguagem do cinema com a da literatura para alcançar uma sinergia única. Se não contribuiu directamente para a escolha de Bradbury enquanto argumentista de Houston, alguns anos depois, sem dúvida que não terá prejudicado. É um conto conciso e contido na sua forma, imune à passagem do tempo, como a boa Literatura - e neste caso, como em muitos, a Literatura reconheceu de imediato um dos Seus, sendo publicado na digna Collier's e não num dos muitos veículos da pulp fiction, no meio do entulho pueril ocasionalmente pontilhado por textos merecedores de imortalidade.

No conto, mecanismos subitamente tornados obsoletos continuam a cumprir rituais pré-programados para uma plateia vazia, sem a qual a sua função se tornou inútil e logo desapareceu a razão de existirem. O fogo surge como elemento redentor, acto de misericórdia, libertando-os de uma eternidade vazia de propósito. Se o autor, em idade avançada, começou a mostrar-se como ludita simpático e inócuo, foi talvez porque se viu obrigado a tornar a mensagem explícita para as novas gerações pouco habituadas a frases longas e nuances narrativas, pois já desde o início o aviso lá se encontrava. Ai da Humanidade, tanto se deixou deslumbrar pela tecnologia resultante do seu engenho que acabou por esta sendo extinta! Que melhor conto de fadas admonitório na era da tecnofantasia?

A reputação de Bradbury precedeu-o, em mim, antes da ficção. Houve um tempo em que Asimov, Heinlein e Blish transbordavam dos beirais das livrarias, mas Bradbury era presença rara - a Europa-América só o incluiu numa das colecções de FC em 2002, e se a Argonauta já lhe tinha traduzido as principais obras, fê-lo antes do meu encontro com ela, pelo que esses exemplares já não habitavam as livrarias de subúrbio que frequentava. No entanto, era muito mencionado pelos outros autores, ombrava com Asimov e Clarke enquanto um dos três grandes. Era imensa a minha curiosidade. Descobri-o finalmente a meio da década de 80, num volume da colecção Espaço da Verbo (apenas 5 magros números, mas lá dentro, tão repletos de possibilidades!) e, sim, precisamente com este conto. Este conto subtil, económico, inteligente, irónico, poético, melancólico, perfeito. E para minha sorte, estava traduzido com gosto. «Soft rains» ficaram para sempre as «chuvas mansas» no meu imaginário, incapacitando-me de atribuir laivos de qualidade às alternativas «chuvas suaves» ou «chuvas brandas» com que tradutores de outras edições as baptizariam. E como ler é estar vivo, estar consciente da vida, também o momento ficou, essa tarde de Primavera, na sala apertada de uma pequeníssima biblioteca de Junta de Freguesia, com o sol a entrar-me pelas costas e um par de colegas de escola que arrastara comigo para ler FC. Esse resultado de uma escolha ao acaso, volume de uma colecção que desconhecia. O momento permanece como uma história que se conta, pois ignoro o que aconteceu antes dele e o que terá acontecido a seguir - a não ser a decisão de regressar à biblioteca, tornar-me sócio, trazer livros emprestados, procurar reencontrar tal perfeição. Ser leitor é isto, misturar a vida com os livros a ponto de se tornarem indistintos.

Mas a perfeição tem um preço, se é com ela que se começa. Fatidicamente, Bradbury demorou a reerguer-se tão alto. As Crónicas Marcianas trouxeram a estranheza de um autor que renegava o discurso límpido e racional da física, que preferia equiparar foguetões a gafanhotos e descolagens ao verão no campo do que descrever a engenharia que os fabricara. Além de ser um não-romance, uma sequência de vinhetas coladas cujo sentido errava e que se afastava da imagem tradicional da FC. Era aquela afinal a grande obra prometida? Como a proverbial bebida, estranhei e só mais tarde viria a entranhar a abordagem poética. Era primeiro preciso entender que Bradbury nunca foi pessoa de romances, e a seguir, que não escrevia Ficção Científica. Clarke, o matemático mistico - Asimov, o racional dedutivo - Heinlein, todo ele WASP e libertário e republicanóide - crescendo numa época que privilegiava a narrativa curta e movimentada contra longa e meditativa e poética, tinham no entanto um pendor para a verosimilhança científica, e apreciavam tecnologia. Bradbury era humanista onde estes eram tecnocratas, era bucólico onde estes eram urbanos. Se o seu nome não fosse pronunciado na mesma exalação na companhia daqueles senhores, jamais as minhas expectativas teriam ficado defraudadas. Nunca fui muito compreensivo com quem não partilha o fascínio pelo funcionamento íntimo do Real. Bradbury tornou-se, então, um autor que era preciso deslocar, reposicionar - algo que não era fácil quando obras como A Cidade Fantástica (Dandelion Wine), um pequeno hino à infância que nada tinha de FC e verdadeiramente pouco de Fantasia, roubavam os poucos espaços anuais de publicação nas colecções dedicadas da época. Não foi senão mais tarde - dizia - que entendi Bradbury como talvez o primeiro, sem dúvida um dos poucos, realistas mágicos do género, alguém que apenas lhe escuta e repete a simbologia e através dela espelha um entendimento fiel e inovador das crenças e dos temores de quem lê. Sim, os foguetões eram gafanhotos de metal porque esta era a sua verdadeira natureza.

Mas que não fique a ideia errada: Bradbury continuou a chamar-me do fundo das prateleiras, ou não fosse dele o grande hino à importância da literatura que foi Fahrenheit 451 (o qual aguarda a tradução corajosa em 233 Centígrados), em versão livro e filme. Estava-se no rescaldo de certas ditaduras, e noutras enfiados nelas até ao pescoço. E também dele a ideia de salvar Thomas Wolfe - um dos melhores prosadores americanos de sempre - das garras da tuberculose para terminar a sua obra.

Para mim, Bradbury voltaria a erguer-se com «All Summer in a Day», outro dos seus contos breves sobre a capacidade das crianças em sofrer e encantar-se com igual intensidade. Evoquei-o, recentemente, no artigo «Rosebud» dedicado aos livros da vida. Na sua simplicidade e pequenez, continua poderoso como um murro na alma. Assim, como os grandes escritores.

Abençoados os que descobrem, pela primeira vez, Ray Bradbury. Que encantadora jornada os espera.

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11 Junho 2012

O Que Estranho é a frequência com que, no meu contínuo mergulho pelas entranhas do (pouco) que se possa identificar como Ficção Científica portuguesa clássica, ocasionalmente misturando-se com os praticantes da (pouca) real pulp fiction lusitana, encontro convicções desta natureza, atiradas sem qualquer contexto e sem qualquer relativização face ao género (pois não duvido que o autor tinha um tipo particular de histórias em mente).

Que o mainstream nos castigasse pela nossa ousadia de marginalidade, perfeito - faz parte do jogo. Receber invectivas destas dos que labutam ao nosso lado é mais complicado. E não - não foi o único. Mas ao menos é uma pista adicional - e importante - para compreender a dificuldade de consolidação do género neste país na época em que supostamente devia medrar.

Da entrevista de António Dias de Deus a Raul Correia, autor frequente d'O Mosquito - o negrito é nosso:

(...) D.D. - Há ainda muitas novelas, sem qualquer nome de autor. Poderia identificá-las?

R.C. - Vejamos: «O Falcão da Pradaria» - Raul Correia; «O País dos Ventos Ululantes» - José Padinha; «O Vale do Silêncio» - Raul Correia; «O Punhal do Imperador» - José Padinha?; «O Jura­mento de Águia Negra», «Um Caçador Fez testamento», «Quero Ser Palhaço», «Tobias Contou a História» - José Padi­nha? Quanto a «O Príncipe e o seu Fantasma», sabia que muitas dessas histórias eram adaptações de histórias inglesas? Essa, por exemplo, era de ficção científica. Eu nunca escreveria ficção científica, género que detesto.

D.D. - Sim, é um género que denota grande falta de imaginação.

R.C. - Pois é. Inventa-se um planeta estranho, fabricam-se uns habitantes desse planeta, e, no fim, fazemo-los actuar como se tivessem um comporta­mento humano. Ora, se houvessem outros tipos de vida, eles poderiam ser totalmente diferentes dos nossos. Até talvez nem fosse precisa a existência de água. Nós só falamos daquilo que já conhecemos.

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07 Junho 2012

Assombra Nas Profundezas Dos Arquivos. E de quando em vez estica a cabeça.

Sandra não gostou de saber que a reunião do Presidente se tinha atrasado e que teria de esperar na pequena sala de visitas. Não gostou de perceber que, entre os participantes, se incluia um dignatário dos Cabeça-de-Abóbora, da extirpe que, diziam os corredores, tinha estado envolvida no conjunto de projectos de bio-manipulação humana que tinham dado para o torto, sido expostos internacionalmente e derrubado o governo de então. Não gostou de descobrir que a reunião era à porta fechada. E muito em particular, não gostou de ter de esperar na sala de visitas, por muito luxuosamente decorada que estivesse com tapeçarias antigas oferecidas por embaixadores e representantes de Estado e equipada com poltronas confortáveis e ligação à internetdois, juntamente com um acólito do referido dignatário.

Embora informada sobre a natureza daqueles seres, Sandra assustou-se ao entrar na sala silenciosa, ainda envolta na sensação de despeito pela sua pessoa e pela sua função, e sentir, antes de ver, a presença de algo estranho, volumoso e calado nas suas costas. Foi uma reacção puramente animal: deu meia-volta, soltou um grito, pulou para trás. O acólito limitou-se a mirá-la – se é que estaria a mirá-la – com dois globos oculares empalados no cimo de gavinhas curtas e uma completa ausência de expressão na caricatura de rosto. Estava agachado no canto da sala, as extensas patas recolhidas debaixo do corpo como um louva-a-deus em repouso, a pele lisa e brilhante, sem quaisquer marcas nem pêlos, e de aspecto duro como se feita de queratina. No que passava por focinho, apenas havia uma abertura no fim das queixadas, um opérculo que mantinha fechado. Não produzia qualquer movimento, nem o da respiração que trairia qualquer animal humano daquele porte. Perante uma cor uniforme e uma ausência de traços distintos – cicatrizes, padrões de cores, manchas –, passaria por uma estátua amarela de um artista criativo que se tivesse inspirado na anatomia dos insectos. Sandra recompôs-se, algo envergonhada, embora isso nada significasse para as espécies extraterrestres, em particular para o membro de uma tão servil como aquela, passou as mãos pelo cabelo, inclinou a cabeça, disse Bom dia!, e ainda se sentiu mais parva quando não recebeu resposta. Alguns acólitos eram perfeitamente funcionais e autónomos, como o Mr. Jeeves da Wilhelmina, outros demonstravam a dependência e inteligência de canídeos. Este parecia pertencer ao segundo grupo.

Os minutos passaram devagar. Sandra não se considerava especialista em contacto extraterrestre – já contactara com vários ao longo dos anos, e sabia que era preciso ter um certo tipo de espírito, uma certa obsessão pelo assunto, e narinas fortes. Mas conhecia o suficiente da História recente para reconhecer indícios de problemas potenciais. Foi com alguma ansiedade que aguardou nos confortáveis assentos da sala, embora tivesse ligado o computador para aproveitar o tempo perdido; acompanhada por um par de cafés latte extra-fortes, mergulhou nas actualidades do dia e nos email que aguardavam a sua intervenção.

Cinquenta e cinco minutos depois da hora combinada as portas do gabinete abriram-se. Sandra fechou a tampa do portátil, ergueu-se, ajeitou a saia. Apenas sairam três elementos de dentro. Um deles era o Ministro de Defesa Nacional, um homem de estatura diminuta, cabeça enterrada nos ombros e um porte largo, quadrático, que conseguira o cargo por intermédio da família, detentora de grande parte da central de energia de fusão nuclear instalada na antiga localidade de Peniche – um dos inúmeros complexos desenvolvidos a partir da sabedoria oferecida, sem contrapartidas e em sinal de boa-fé, pelos extraterrestres, à espécie humana, a qual tinha sido apropriada imediatamente por um conjunto de investidores oportunistas e usada para os tornar escandalosamente ricos. O seguinte era o Secretário de Estado para Comunicação e Imagem, um jovem de aparência imaculada e ar empreendedor, que transpirava a ambição por todos os poros. Seguiu-se-lhes um Conselheiro para Contactos Inter-Espécies, um homem franzino e calado, mas de olhar atento, atitude própria daquela estirpe de profissionais cuja principal função era servir de intermediários para os extraterrestres em assuntos que envolvessem avultadas comissões de ambas as partes. E por fim, o Cabeça de Abóbora.

Cheirou-lhe a presença antes de o ver. Era um odor a lodo, a matéria putrefacta, que comunicava directamente aos instintos da espécie. Para Sandra era mais uma forma de os Cabeças de Abóbora – que se tinham tornado em mestres da biologia terrestre em poucos anos – incomodarem os anfitriões do planeta. Havia quem não conseguisse controlar as náuseas e necessitasse de medicação constante se pretendesse seguir as lucrativas carreiras de contacto alienígena. Para Sandra, o odor não se conseguia comparar às sensações que lhe provocava a visão de um daqueles seres.

E agora antevia já a cabeça redonda, grotesca, de um deles, famosa em todo o mundo e distintivo da alcunha que os acompanhava; o sorriso rasgado, perturbador, feroz. A pele de queratina reluzente e húmida, de aspecto peganhento e sujo. As mandíbulas em enervante movimento permanente. As presas destacadas em várias fileiras de dentes, cada qual com funções distintas de rasgar ou triturar alimentos. Depois o corpo alongado de lagarta, coberto de placas de verde enjôo, semelhantes às das asas das moscas. As pequenas patas articuladas, às dezenas, que o faziam progredir lentamente e de forma insinuosa, quase sensual. Um ser volumoso, quase da altura de um ser humano e duas a três vezes tão extenso. Os humanos ficaram de lado a aguardar que o corpo emergisse completamente do gabinete. O Presidente aguardaria do lado de dentro. Tudo tinha de parar ante a presença deles. Inclusive as portas do palácio onde residia agora o governo tinham sido alargadas, reconfigurando e estragando em grande parte a estética do edifício, para acomodar tais convidados.

O acólito reagiu com espantosa rapidez, colocando-se de pé sobre as patas dianteiras, que à semelhança das girafas, eram maiores que as traseiras, elevando-lhe o pequeno corpo alongado. A superfície luzidia era, afinal, uma capa que recolheu contra o corpo, dobrando os segmentos de queratina no que pareciam ser tendões internos. As patas bateram contra o soalho liso de forma sonora, como se calçasse sapatos de porcelana, deixando marcas visíveis que, pensou Sandra, iriam custar dinheiro aos cofres do Estado a remover. Acercou-se do dono, apoiou-se sobre as patas traseiras, lançou as dianteiras sobre o dorso deste, e começou a aspergi-lo com uma substância branca e viscosa.

Os dignatários humanos perderam de imediato o ar de contentamento ao observar o espectáculo insólito e ficaram a olhar com imenso espanto; o Ministro da Defesa, inclusive, teve de afastar-se para não ser igualmente banhado.

Enquanto este procedimento decorria, o Cabeça de Abóbora pareceu reparar em Sandra, e inclinou a cabeça na direcção dela. Ela devolveu o cumprimento, por não saber mais o que dizer. Não se lembrava de ler nos comunicados internos nenhuma menção ao ritual.

O Cabela de Abóbora, à semelhança da maioria das espécies terrestres, tinha um par de olhos de cada lado da cabeça para triangulação das distâncias, o que muito havia deliciado os cientistas. Fixou-os nela, dois globos negros que absorviam a luz e se assemelhavam a miras automáticas. As gavinhas dianteiras, situadas logo abaixo da cabeça, que, pela aparência frágil não serviriam nem para locomoção nem para manipulação (tudo nos Cabeças de Abóbora era um enigma), mostraram a sua utilidade, teclando agilmente na superfície da caixa de voz pendurada ao equivalente de pescoço.

- Dra. Sandra, é um prazer revê-la – a voz surgiu neutra e mecânica, embora fluída, igual a todas as vozes de todos os outros Cabeças de Abóbora. – Peço desculpa por esta necessidade terapêutica, mas a minha pele ressente-se desta vossa estação do ano. A nossa atmosfera é muito mais húmida e quente que a vossa.

Sandra engoliu a custo a bílis que lhe subia pelo esófago, apertou as mãos atrás das costas, ciente de que o extraterrestre tudo observava e registava, e mostrou o seu melhor sorriso.

- Caro Dignatário, o prazer é todo meu. Que seja grande a sua prole, que seja fértil o seu ninho, que seja longa a sua herança.

Isto, claro, era também uma ofensa velada, pois as quatro manípulas que sobressaíam intactas do ventre indicava que ainda não tivera uma ninhada que considerasse merecedora.

- Folgo que os preparativos para a conferência avancem com todas as medidas adequadas. Somos seres caprichosos, nós, os extra-sistema. De exigências difíceis e complicados rituais de negociação. Saúdo o seu espírito de sacrifício em comandar as operações, doutora. Na minha espécie quem conduzisse tal papel saberia que o preço da falha seria a extinção de si mesmo e da sua linha genética. Por tais actos traçamos a fronteira do aceitável na nossa espécie.

- O senhor dignatário não se preocupe, que temos formas de punir igualmente severas – pelo canto do olho observou o Presidente, que, emergido do Gabinete, encarava com extrema perplexidade a mistura conversa/massagem.

- Decerto que a vossa espécie se comportará devidamente onde a nossa ousaria pisar – a massa pesada do extraterrestre avançou para a porta, o fedor da presença avivado pelo cheiro adocicado do gel que agora o cobria e lhe dava brilho. O acólito acompanhou-o de lado em posição submissa. E só depois é que os representantes humanos se atreveram a sair.

- Doutora Mirza, faça o favor de entrar – indicou o Presidente, regressando ao gabinete, onde os empregados tinham já acabado de voltar a arrumar os sofás e cadeiras que a presença do extraterrestre obrigara a colocar de lado. O espaço cheirava fortemente a perfume, forma de afastar o resultado de horas de presença de um Cabeça-de-Abóbora. Infelizmente, para Sandra, não se tornava menos enjoativo. O Presidente sentou-se na secretária, e embora não assumisse de imediato um ar formal, indicou subtilmente que pretendia ir directamente ao assunto. – Lamento imenso tê-la feito esperar, mas marcaram-me esta reunião importante à última hora, sabe como isto é... infelizmente, tenho uma conferência de imprensa daqui a quinze minutos, pelo que teremos de despachar a nossa. Para minha infelicidade, pois a doutora sabe quanto prezo a sua presença.

Claro que ela sabia. Tanto prezava que a inundara de flores pelo aniversário e a convidara repetidamente para jantar. Habituada à reacção dos homens ante a sua figura (as comparações que fotógrafos e realizadores lhe faziam com uma jovem Padma Lakshmi  nos seus tempos áureos não eram exagero, e teria entrado em Bollywood se tivesse desejado), estava também habituada a cortar quaisquer esperanças logo de início, o que fizera no caso do Presidente. Este reagira da forma como também o faria muitos dos homens, iniciando uma ostracização subtil que resultara no convite para organizar a mais importante conferência inter-espécies de sempre. Um presente envenenado.

Sim, ela bem sabia o quanto ele prezava a sua presença.

- Não tem importância. Podemos acelerar a discussão. Contudo, depreendo que o senhor Presidente tenha informações cruciais a transmitir-me.

- Como assim?

- Bem, acabo de ver os dois principais responsáveis pela segurança do país e o senhor Presidente reunirem-se à porta fechada com um dignatário dos Spiertvick'kap... é natural supor que a discussão possa ter importância para a conferência que se avizinha.

O Presidente abriu a boca num sorriso de dentes imaculados e luzidios. O sorriso profissional de um político: charmoso, fácil e traiçoeiro. Mecanismo de defesa natural quando se sentia encostado à parede.

- Mera troca de informação inter-espécies, no bom interesse do país. Não tem impacto no seu trabalho, doutora Sandra. Não precisa de preocupar-se.

- Muito bem – agora que ele mostrara que o assunto era confidencial, mais curiosa se sentia. Teria de usar meios menos oficiais e directos. Abriu a pasta e retirou um molhe de folhas agrafadas. – Este é o ponto de situação do projecto. Resumidamente, encontramo-nos cerca de duas semanas atrasados face ao objectivo inicial, a nível da reconversão da secção lateral esquerda da estação orbital para a instalação do auditório comum. Aconteceram problemas durante a instalação, nomeadamente uma erupção solar inesperada que tornou perigosa a permanência dos construtores no espaço e a demora de alguns dias, devido a tempestades no local de lançamento, no envio de novas equipas.

- Não foi possível utilizar robôs? Não quero que a data da conferência seja adiada por motivos imputáveis a nós.

- Estabelecemos prontamente uma forma de compensar o atraso... – disse Sandra. – O que estamos a fazer...

- Sim, os detalhes não me interessam, doutora. Preciso que me garanta isso. Algum dos outros extra-planetas pode usar isso como desculpa, e lá se vai esta presidência...

- O senhor Presidente é então da opinão de que não há perigo de os Spiertvick'kap se ausentarem?

Ele recostou-se no cadeirão, ajeitando o fato e compondo o cabelo.

- Sou dessa opinião, sim. Sempre se manifestaram muito disponíveis para ajudar-nos. Para estabelecer contacto com os representantes das outras espécies. A doutora não concorda?

- Concordo, senhor Presidente. Concordo em excesso, diria mesmo. A prestabilidade tem sido sentida pela minha equipa em todos os níveis. Na sugestão de equilíbrio ambiental em órbita para proporcionar a melhor mistura de gases atmosféricos e disseminação de calor para todos os participantes. Na revisão dos espaços privados de cada espécie, porque aparentemente os Spleen sofrem alterações significativas em ambientes de gravidade-zero e os Angst possivelmente enviarão um representante capaz de sobreviver no vácuo. Nos temas que devem ser abordados e no protocolo mais adequado a todos. Inclusive no treino, com simulações, dos humanos que irão moderar os debates. Temos aprendido mais neste período sobre a forma de interagir das várias espécies do que nos últimos anos.

- Então isso só pode ser bom, não lhe parece? – Soltou de novo aquele sorriso desarmante. Era um homem bem parecido. Não fosse a arrogância natural, e a incapacidade de poder confiar nele, e Sandra não teria tido pejo em aceitar os convites lançados. – Ainda a conferência não aconteceu e já estamos a colher frutos...

- Se nas três décadas de convívio inter-espécies houve algo que aprendemos rapidamente sobre os Cabeça-de-Abóbora, é que são mais avarentos que o Tio Patinhas. E que sabem fazer-se pagar pelo que oferecem. Esta manifestação de generosidade...

- Não duvido que venham a lucrar com o evento. Doutora Sandra, sei bem que vamos apenas fazer de almofada para suavizar o embate dos titãs. Eles precisam de negociar uns com os outros, questões de território, trocas comerciais, uso de recursos, seja lá o que for. Por sinal, também nós precisamos. Talvez os Spleen estejam mesmo a extrair sem custos as últimas reservas de petróleo. Talvez os Angst nos disponibilizem as minas da América do Sul. A nossa civilização precisa de recuperar o acesso que costumava ver às riquezas do planeta. Temos de conseguir ajudar-nos uns aos outros. Temos de criar elos e dependências mútuas. Caso contrário voltamos a existir isoladamente no planeta, e a única forma de tomar o que precisamos é pela força, como acontecia antigamente. E isso não beneficia ninguém.

Esticava os braços e avançava no assento, mostrando unidos os dedos das duas mãos num aperto evidentemente coreografado. Sandra lembrava-se de algumas destas palavras como fazendo parte da argumentação que usara junto do Parlamento para convencer os deputados a largar os cordões da bolsa pública e financiar a reconversão da plataforma espacial. Ocorreu-lhe então algo, pela primeira vez (castigando-se interiormente por não ter desconfiado antes), que o ganho pessoal do Presidente poderia não ser apenas o prestígio político, como pensara, nem se calhar as discretas oferendas financeiras do costume, mas algo mais profundo, mais intimamente ligado aos verdadeiros motivos dos Spiertvick'kap. Afinal, todos os Presidentes têm um preço.

Ele voltou a recostar-se.

- E quanto aos outros extra-planeta, doutora Sandra, não se encontra preocupada? Os contactos com os Spleen e os Angst estão a decorrer em conformidade? A presença deles está garantida?

- Os Spleen irão. Têm-nos inclusive enviado com alguma regularidade adornos supostamente religiosos para cobrirmos os espaços de convívio a bordo. Tivemos de avaliá-los para efeitos de segurança, e descobrimos que todos os adornos possuem uma fonte de energia interna e transmitem continuamente informação codificada em ondas curtas. Os Spiertvick'kap dizem-nos que são terços de orações, nós cremos que sejam câmaras e retransmissões espiões.

- Bem, era de esperar... Desde que não os coloquem onde ouçam o que não devem... E os Angst?

- Apenas conseguimos falar com humanos... pessoas. Pessoas que se apresentam como porta-vozes do colectivo. Mas que asseguram a presença da espécie e não requerem sequer acomodações especiais.

- E como podemos ter certeza do que afirmam ser?

 - Os Spiertvick'kap indicaram que os Angst costumam recorrer a elementos... «convertidos» da espécie com quem contactam... Sugeriram-nos estarmos atentos a alguns indícios subtis. Reacções fisiológicas, termos utilizados, esse tipo de coisas. Passaram no teste. Os porta-vozes foram sempre diferentes, durante os vários contactos, mas mostravam ter um conhecimento total e detalhado das reuniões anteriores. Como se partilhassem uma única mente... Como se não tivessem vontade ou personalidade própria... – estremeceu involuntariamente ante a lembrança.

- Fico contente, doutora Sandra, que tudo esteja a decorrer na conformidade. Tenho mesmo de ir. Damos por encerrado...?

- Senhor Presidente, continuamos a receber aquelas mensagens – disse apressadamente, levantando-se em acompanhamento do homem do outro lado da secretária. – Agora ameaçam rebentar a estação espacial se não recuarmos. Foi efectuado algum progresso na captura destes...?

- Não se preocupe, estou a acompanhar o assunto. A investigação está a correr bem. Ainda hoje o Ministro da Segurança Interna me assegurou que os culpados já foram identificados e que alguém está infiltrado no meio para os deter.

- Oh. Não tinha sido informada do assunto.

- Não leu o relatório? Possivelmente estará acima do seu nível de segurança.

- Senhor Presidente, como deve entender, é importante para o meu desempenho saber que não haverá...

- Mantenha a segurança apertada e os controlos invioláveis. Do resto tratamos nós – o Presidente dera a volta à secretária, dirigia-se à porta. – Fazemos assim: vou dar uma palavrinha ao General Saraiva para que a contacte. Informalmente.

- Fico muito agradecida, senhor Presidente.

- Ouça, doutora Sandra – parou com a mão sobre a maçaneta da porta, e adoptou um tom de voz mais amável, fitando-a nos olhos. – Quero que saiba que estou muito satisfeito com o seu trabalho. Apenas ouço falar bem de si. Tem mantido as operações discretas e sem sobressaltos no orçamento. Tem sido incansável na resolução dos problemas. Quero que saiba que não se encontra sozinha. Quero que sinta que tem o apoio deste Executivo.

Sandra sorriu, involuntariamente.

- Senhor Presidente, agradeço imenso, não precisa de...

- Não, quero mesmo que sinta o nosso apoio. A doutora merece, o projecto merece. Fazemos assim: agora que estamos na fase final, vou pedir a um colaborador meu de longa data, muito experiente na gestão de projectos complexos, para dar um saltinho a órbita e colocar-se à sua disposição. Use-o como bem entender. Sem custos adicionais para o projecto. Considere-o uma oferta minha. Adeus, doutora Sandra. Marcamos um nova reunião daqui a duas semanas? Veja a minha agenda com a senhora Clotilde.

E foi assim que no espaço de dois segundos o político profissional passava de carneiro a lobo, e Sandra se via a braços com o espiãozinho directo do Presidente a espreitar-lhe por cima do ombro.

Não pode evitar retesar-se como se uma corrente eléctrica fortíssima a tivesse percorrido. Não pode evitar a manifesta dureza das mãos que agarravam a mala, dos músculos do pescoço contraído, dos lábios amargamente fechados, do braço que teve de forçar a estender-se e cumprimentar aquele homem. Não pode evitar o brilho de desapontamento e humilhação nos olhos. Mas o que a atormentaria mais tarde, quando se deitou finalmente nessa noite, era o pensamento de que o beicinho lhe tremera, ligeira mas visivelmente, como uma criança assustada. Dando essa vitória a ele, cuja única resposta foi mostrar os dentes, e era como se no mundo dela não houvesse mais que aquele sorriso, aquela certeza de que seria devorada, mastigada e cuspida por uma vontade tão subtil e tão doce que não seria capaz de fugir-lhe.

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15 Maio 2012

Uma Lembrança Vívida de Angela Carter esconde esta perspicaz observação:

Once she’d chosen to dispense with most of the apparatus of what she called «real novels» of the sort in which «people drink tea and commit adultery», narrative was what remained: the beating, often bloody heart of her argument. It was the simplest of strategies, a return to the storytelling of childhood and to oral traditions that began «before there was such a thing even as writing», but in the later 20th century it was also something of a high-wire act, risking bathos on the one side, forced extravaganza on the other.

Ou não afirmasse Carter que «our lives are all about our childhoods», algo que não precisa de explicação e nem de consentimento.

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