Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


08 Novembro 2013

Assistir À Apresentação de Juliet Marillier, uma simpática neo-zelandesa de cabelo grisalho (fica-lhe bem) que, por um qualquer motivo, decidiu escrever fantasia celta situada na Irlanda - no lado oposto do globo, portanto (efeitos secundários da globalização?) - e ter dificuldade em entrar no apinhado auditório pela quantidade de gente interessada (maioritariamente adolescente) que a assolou com perguntas durante quase uma hora, ostentando orgulhosamente nos braços as edições nacionais. E perceber o entusiasmo, a vontade de ler, a apetência para comprar novos livros de uma autora que nem é das mais faladas internacionalmente nem tem uma obra extensa em dimensão (pouco mais de uma dúzia de romances) ou média (ou seja, sem adaptações a TV e cinema). E sentir na pele a fé redescoberta de Job, que no final das provações, repete fervorosamente a frase lapidar daquele conto do Frederic Brown, Yes, there is a market!

E perguntar, meus caros compatriotas de escrita, o que andamos nós a fazer de errado?

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13 Outubro 2013

A Mosca Na Teia. 

«Falar de defesa induzida é falar de uma educação extrema e desesperada do predador pela presa. Extrema no sentido de representar uma resposta tão específica a determinado comportamento de predação, e nessa especificidade comprometer recursos e capacidades defensivas da presa que o processo evolutivo normal orientaria para respostas mais genéricas a ameaças mais abrangentes. Desesperada por que a selecção natural tem a sua lógica intrínseca, e nem sempre o equilíbrio dinâmico entre oferta e procura, no qual a escassez de alimento faria reduzir o número de predadores e assim permitir a sobrevivência da presa, é o principal mecanismo em acção. Perante o contacto com o predador agressivo e uma reacção defensiva favorável, o processo evolutivo favorece os elementos capazes de reagir com a antecipação necessária e sem prejudicar a sua integridade estrutural nem a possibilidade de reprodução, cumprindo os requisitos base de especificidade, amplificação e memória indispensáveis para a categoria de defesa induzida.

É importante realçar que a ferocidade da defesa resulta, também ela, na sua própria ineficiência, uma vez que força a selecção natural dos predadores que lhe sejam mais resistentes ou indiferentes. Ser-se demasiado específico torna-se assim num risco acrescido, pois este comportamento terá sido adquirito à custa da versatilidade reprodutiva ou do factor de crescimento. Ainda que a relação entre todos estes factores não seja clara, a defesa induzida é uma marca histórica, uma prova de uma relação agressiva com uma espécie dominante que poderá já nem existir no momento do estudo.

Enquanto humanos, somos peças integrantes da nossa ecologia. Transportamos nos genes as estratégias de sobrevivência que nos foram mais adequadas no passado para ultrapassar as ameaças de outros animais, plantas tóxicas e doenças. O nosso sistema imunitário foi-se fortalecendo à medida que nos expusemos a epidemias, lentas ou vorazes, combatendo com a única arma que, durante muitos milénios, esteve disponível, ou seja, o antigo mecanismo de sobrevivência e reprodução. O combate artificial, por meio da investigação científica, da experimentação e da formulação de substâncias químicas que atacassem vírus e bactérias utilizando os seus próprios mecanismos, é, em termos evolutivos, uma reacção bastante recente, e para a qual os próprios virus e bactérias ainda não conseguiram contrapor com uma arma eficiente. Dito por outras palavras, a nossa inteligência é, para os efeitos de classificação de uma resposta específica a um mecanismo de predação, uma defesa induzida, que tem a vantagem relativa de conseguir adaptar-se com maior rapidez a alterações do predador, ao não estar directamente dependente de uma base genética mas de um comportamento transmitido pelo conhecimento. Tendo surgido na nossa espécie, depressa se terá revelado numa vantagem demasiado competitiva, pois, não obstante as variações individuais, o cérebro humano mantém uma constituição uniforme e um comportamento idêntico, independentemente da raça e localização geográfica. E se tivemos – e continuamos a ter – ameaças à sobrevivência decorrentes de uma acção intencional e racional, estas são exclusivamente consequências da nossa própria actividade, da aplicação da nossa inteligência.

Até à chegada dos extra-terrestres, obviamente. Eis que, de um momento para o outro, nos vimos defrontados com a manifestação de uma inteligência externa à nossa, detentora dos seus próprios processos de funcionamento, estranha, impenetrável. O historial breve do nosso contacto com estas diferentes espécies revelou diferentes modos de comunicação, ocupando vértices tão extremos a nível da sua intensidade – desde o secretismo dos Spleen à permeabilidade aparentemente total dos Cabeças-de-Abóbora – que se torna difícil, ou mesmo impossível, distinguir o que são comportamentos intrínsecos a cada uma destas espécies do que poderá ser uma estratégia concertada de abordagem à Humanidade. Se durante milénios, integrados na ecologia terrestre, aprendemos a sobreviver e a ascender na escada das defesas induzidas, até obtermos a mais flexível de todas, corremos actualmente um enorme risco, enquanto espécie, pois não temos qualquer defesa perante outras inteligências, nunca nos vimos expostos nem necessitados de adoptar mecanismos reactivos. E dada a rapidez com que os extra-terrestres se integraram no nosso meio, ou o utilizaram para os seus propósitos obscuros, receio que estejamos perante a maior ameaça de sempre à nossa existência  – o desequilíbrio entre o que sabem de nós e o que sabemos deles não aparenta reduzir-se, e como no proverbial conto de terror, o pêndulo balança inexoravelmente para um confronto final.»

Joe Abraxas, Não Lhes Faremos a Vontade: Os Efeitos da Presença Extraterrestre nas Culturas Humanas, 15ª edição.

Isto, a propósito daquelas manobras orbitais de que vos falava há alguns tempos...

 

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05 Setembro 2013

O Que Tem Andado a Sandra a fazer desde a última vez?

Isto, pelos vistos...

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26 Agosto 2013

O Caderno Literário InDica auto-define-se como sendo «um espaço para a criação literária»:

Um local para a discussão, a reflexão e, principalmente, para a divulgação de livros. Queremos ser uma moldura para a produção literária. Numa época em que qualquer um pode publicar sua opinião na internet e centenas de blogs divulgam resenhas de livros, queremos falar de Literatura em uma plataforma tradicional: o JORNAL IMPRESSO.

Atualmente, os teóricos dizem que a crítica passa por uma inadequação entre o instrumental em que ela trabalha e as novas formas de produzir e compor o texto. Que antes tínhamos um padrão de crítica, onde eram aplicados certos métodos e teorias literárias que hoje estão obsoletos. Antes, a tarefa do crítico exigia que ele encaixasse o seu texto no modelo teórico. Hoje, a forma de crítica está mudando de configuração. Ela não pode mais ignorar os últimos avanços e mudanças em todas as áreas. Já podemos observar modalidades de críticas por que o novo produto exige. Passamos de um mundo no qual a informação era escassa para outro no qual há fartura de informação.

Assim, o Caderno Literário InDica não vai falar de “crise da crítica literária”. Queremos romper com esse discurso retórico. Queremos pensar e discutir a Literatura. Queremos estimular o questionamento da produção literária. Tanto o seu estudo como o fazer prático. Não temos a pretensão de sermos revolucionários ou inovadores. Na verdade, almejamos redescobrir como fazer crítica.

Queremos ir além dos modelos. Ir além da avaliação do objeto, dos pressupostos críticos e teóricos. Queremos entrar por um novo caminho. Não sabemos onde vai dar. Esse espaço do imprevisível nos permitirá a possibilidade de descoberta. Isso implica estar disponível para questionar. A proposta é a crítica com liberdade.

Composto por várias secções (temáticas) e colunas (de opinião e informação), tem um formato tablóide, 16 páginas coloridas, tiragem de 8.000 exemplares e, é importante mencionar, distribuição gratuita em locais estratégicos ligados a cultura literária (por exemplo, em certas livrarias). Mas é também, e principalmente, o mais recente projecto do Sílvio Alexandre, conhecido organizador (entre tantas outras actividades) do Fantasticon, encontro brasileiro de Ficção Científica cuja sétima edição está a um mês de acontecer.

Se refiro este projecto distante é também pelo amável convite do organizador para a contribuição com uma perspectiva portuguesa do que hoje se fala do Brasil nas nossas letras. Escolhi o último romance do jornalista Hugo Gonçalves, Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, que traça um percurso muito peculiar de um recém-desempregado luso (pela crise, naturalmente) por terras brasileiras em busca de um recomeço de vida (que envolve muito sexo, maconha farta e bastante descontração. A melhor solução para o país até agora proposta, sem dúvida). O texto surge ao lado das importantes contribuições de Andrea del Fuego, Braulio Tavares, Claudio Brites, Luiz Brás, Manuel da Costa Pinto, Marcelino Freire, Milena Cherubim, Sandra Schamas e Waldomiro Vergueiro. O lançamento ocorreu dia 16 de Agosto numa das livrarias Martins Fontes de S. Paulo.

Projectos como este, em particular com distribuição gratuita, são raros e requerem todo o apoio possível. Esperemos que esta iniciativa possa inspirar algum entusiasta em Portugal a criar um caderno semelhante para o mainstream. Felizmente, a nível da FC, já temos uma iniciativa de grande qualidade e ousadia, na FC, através da Bang!

Sílvio Alexandre e Camila Prietto no lançamento. Foto cortesia de Camila Prietto.

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08 Agosto 2013

Nas Profundezas do Baú Da FC Em Lusa Terra, descobre-se uma atitude sadia e positiva perante a ciência, o progresso do Homem e a própria Ficção Científica, patente nos números iniciais do Jornal de Letras e Artes, publicação semanal que vingou entre 1961 e 1970. Entre os extensos artigos dedicados a recensear estreias teatrais, falar de movimentos artísticos e cinematográficos, debater questões das artes plásticas e dar voz de opinião a cronistas – em suma, um jornal de verdadeiros conteúdos culturais como hoje não se encontra, como insinuação a quem se pasma pelo desfalecimento anunciado da imprensa -, encontra-se o ocasional anúncio a livros, crítica e artigo sobre temas de um futuro anunciado que, nas breves palavras de introdução à sequência de entrevistas sob o tema «Cientistas e Homens de Letras Pronunciam-se sobre a Prodigiosa Devassa do Espaço Astral», inserida no número de 22 de Novembro de 1961, demonstram um interesse muito activo sobre o compromisso entre capacidade e responsabilidade (humanas) ao qual a FC não é alheia:

A ficção científica transformou-se em realidade no nosso século. Cumpriram-se as profecias de Wells, de Júlio Verne, os espeleólogos expugnam o interior da crosta terrestre, os homens-rãs descem às profundidades submarinas, os aviões a jacto encurtam as distâncias entre remotas cidades, mas onde a maravilha tornada acção vai tão longe que a imaginação do homem comum ainda mal a acompanha é no domínio das explorações do espaço aéreo. Teremos entrado numa era interplanetária, em que todos os problemas, ainda os mais graves, do homem na Terra, hão-de ser revistos à luz de uma nova situação, em que os seus mais agudos conflitos possam encontrar-se, de um dia para o outro, superados?

Lançados ousadamente para a estratosfera os astronautas, em satélites artificiais, em foguetões tripulados, em breve porventura rumo à Lua, numa fabulosa devassa do mundo astral, que é, com toda a sua margem de aventura, o fruto de pacientes e rigorosas investigações, de cálculos de extrema minúcia, levantam-se questões sem fim quanto à projecção de tais viagens, do seu êxito e das suas consequências, na vida do homem - vida moral, social, política, estética. Que será esse homem de amanhã, em todos esses planos? Há duas posições fundamentais ante as grandes transformações da história: as que - como portugueses - podemos chamar de «saudade do futuro» e «saudade do passado».

Seguem-se depoimentos de personalidades da época, entre as quais Rómulo de Carvalho, António Quadros e José Blanc de Portugal, este último fazendo um breve exercício extrapolatório em que reflecte sobre a Terra e a Humanidade a partir da respectiva entrada numa suposta «Enciclopédia Universal».

Nos números seguintes, ocasião para Huxley nos ensinar «A arte de ver o futuro», Jean Hougron apresentar um texto inédito, e encontrar uma chamada de atenção (no n.º de 6 de Dezembro de 1961) para a saída de «Ortog: um romance de ficção científica que vem revelar-nos o homem de hoje no mundo alucinante do futuro» de Kurt Steiner, à venda pela módica quantia de 12$50. Trata-se do n.º 66 da colecção Argonauta em que Mário Henrique-Leiria verte para portuguêsa fantasia heróica Aux Armes d’Ortog de André Ruellan (que assina com pseudónimo) e que representa uma edição muito recente, pois o original saíra na Fleuve Noir no ano anterior. Também lugar nessa mesma semana para o anúncio da Editorial Minotauro do livro de um certo Isaac Asimov, Nove Amanhãs, apresentado como «uma obra fundamental da ficção científica na Colecção Órbita» e que engloba «todo o maravilhoso da ciência do futuro». Nove Amanhãs receberá honras de recensão no n.º de 18 de Abril de 1962 do JLA: «é uma série de histórias, visões fantásticas do futuro do homem, em que Asimov revela todos os seus conhecidos dotes de imaginação, os seus conhecimentos científicos e o seu talento de escritor. As histórias com um ambiente psicológico semelhante, põem o homem perante os problemas suscitados pelas forças materiais que ele próprio libertou, mas que não consegue dominar». A tradução é de Fernando de Castro Ferro (ref.ª), a qual será, presumivelmente reaproveitada na edição posterior da Vega (1979; reed. 1988).

Resta perceber se esta assumida familiaridade com o nome de Asimov se deve à Argonauta, então com oito anos de idade, em que o autor já teria aparecido com o seu próprio nome (para não falar do pseudónimo Paul French) em três romances...

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02 Junho 2013

Antes Que A Feira Se Acabe, e se acabem as feiras de vez, eis onde me encontram num estado mais verdadeiro que a mim próprio: no stand da Saída de Emergência, disseminado por várias publicações (Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, Sombras Sobre Lisboa e algumas traduções); no stand da Gradiva, que guarda timidamente exemplares da antologia Mensageiros das Estrelas atrás do balcão para não se constiparem (convém perguntarem aos senhores da loja); no stand da Europress, onde restam alguns poucas Ficções Científicas e Fantásticas e Brinca Comigo!; no stand da Devir, que é capaz de ainda ter uma Assembleia Estelar vinda do Brasil; e esta pequena surpresa na Leya, os poucos exemplares sobreviventes ao auto-da-fé de há poucos anos de uma certa colecção azul que foi considerada pela presidente da European Science Fiction como invulgarmente representativa da FC europeia (e vá lá perceber-se por que motivos não ganhou prémios nem chegou a ser nomeada...) e onde ainda está o talvez derradeiro Futuro à Janela a pousar pés em terrenos de Feira, já maior de idade mas ainda com bom aspecto. Não percam obviamente tempo a ir pelas minhas parcas tentativas mas vão pela boa FC&F luso-brasileira que anda por aí, enovelada no vento, à procura de quem a colha.

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