Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


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09 Julho 2012

Adrienne À Partida. Mas também, aos poucos, em construção.

Hoje vou contar-vos uma história da carochinha. É como todas uma fábula sobre coisas que poderiam acontecer, e ao mesmo tempo, uma confissão disfarçada de coisas que realmente aconteceram. De que trata verdadeiramente, não vos posso dizer - aqui. Direi noutro sítio. Talvez num forum público sobre agricultura. Talvez numa carta à direcção do jornal diário. Talvez num comentário relativamente a uma crítica literária. Talvez escondida numa crónica sobre relacionamentos e sentimentos amorosos. Talvez num poema com o qual contribua para uma colectânea de vários autores publicada em regime colectivo. Vocês não saberão, mas têm toda a oportunidade para descobrir. Têm tanto acesso a este mundo de informação inesgotável quanto eu. Basta saber onde procurar.

E escusam de utilizar motores de pesquisa. Ou motores de significância. Ou de estilo de escrita. Conheço bem os mecanismos de análise. Não vos vou facilitar a vida.

Não: se quiserem saber realmente do que se trata, têm de me saber seguir.

Porque as conspirações que por aqui andam são reais.

Eis a nossa heroína: recém-chegada à casa dos trinta, de estatura média, olhos ligeiramente afastados e um nariz um pouco pronunciado de mais para o seu gosto, cabelo forte, castanho, ondulado nas pontas, e uma figura esquálida, com peito pequeno e costelas saídas. É ligeiramente nervosa e conhecida pelos maneirismos bruscos, que são menos uma questão de feitio que produto dos inibidores de menstruação e de desejo sexual cujo uso recorrente esconde de todos. Sente-se confortável com roupas simples, discretas, normalmente blusas de cores neutras e calças a condizer, feitas exclusivamente de fibras artificiais. Evita seguir a moda das saias curtas, de novo na berra, por detestar a forma pontiaguda das canelas. Também não se sente confortável em exibir a pele branca que, por deficiência de melanina, assume um tom amarelado e doentio sempre que toma pílulas bronzeadoras. Passa a maior parte do tempo com o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, mais por conveniência do trabalho diário do que por gosto, mas depois durante o seu fim-de-semana não lhe apetece fazer grandes penteados e prende-o da mesma forma. Usa ocasionalmente óculos interactivos, mas como a maior parte dos dados de que necessita é de índole textual, prefere as lentes de contacto - assim aproveita para ir alternando a cor dos olhos enquanto se mantém informada. Vive num pequeno habitáculo de duas divisões, partilhando as áreas comuns de higiene e lazer com onze outros condóminos do andar, mas tem a sorte de as janelas apresentarem um cenário real - a da movimentada Rue Briotte - e não um electrónico ou pior ainda, o páteo interior. Quanto à alimentação, é rigorosa em comer somente produtos processados: não tem a mínima confiança na qualidade dos produtos naturais nem das condições em que teriam sido produzidos, e só procura a segurança dos enlatados submetidos a rigorosos processos de qualidade.

Encontramo-la a caminho do emprego. Imaginem um plano picado sobre Bruges, passando pela Basílica e pelos poucos prédios históricos, atravessando a imensa urbe de cubos habitacionais espelhados que cobrem a zona do porto onde ela reside, mergulhando de súbito num dos canais imundos da cidade que a urbe por cima utiliza como forma de despejo ilegal, penetrando no tubo por onde acelera um metropolitano aquático sem condutor. A nossa heroína - chamemos-lhe Adrienne, por conveniência - prendeu-se a uma das correias suspensas do tecto e dormita em pé, encostada a um varão. Nisto não é diferente dos tantos outros passageiros que a acompanham àquela hora. Não está habituada a erguer-se tão cedo nem a viajar para tão longe. Normalmente meia hora de transporte é o suficiente para a colocar na zona costeira de Antuérpia. Mas hoje foi convocada para Brighton. Algo importante requer a presença dela. Como recebeu a convocação apenas umas horas antes, não fez quaisquer preparativos para a estadia. Apenas leva consigo o cartão pessoal com o historial médico, como segurança, pois nem sempre aqueles destacamentos especiais - embora cuidassem normalmente de alojamento, vestuário e alimentação - estão devidamente informados.

E contudo, não lhe facilitavam transportes especiais, considerando que o pneumático subaquático era mais seguro e discreto que quaisquer movimentações aéreas na zona dos fortes e perigosos ciclones do canal da Mancha. De facto, em pouco tempo já está em alto mar, as janelas tinham-se transformado em ecrãs noticiosos e a impressão nos tímpanos derivada do mergulho em profundidade acorda-a por instantes. Abrindo os olhos, vê piscar no canto inferior direito do campo de visão um quadrado laranja que lhe indica uma mensagem, por ler, em memória. Mas ao aceder ao conteúdo, percebe que é um despacho de correio confidencial com documentos que tem de conhecer antes da reunião, mas que por virtude da falta de comunicações debaixo de água não está disponível. Ela sorri (as pequenas vitórias profissionais são a única coisa que a torna mesmo feliz) e volta à terra dos sonhos.

Por sua vez perturbada: encontrava-se a flutuar novamente, encerrada numa pequena bolha acolchoada, a sensação de alguém a respirar nas suas costas mas que não via quando se virava e rodopiava no ar; tentava atingir as paredes, mas quanto mais se mexia mais permanecia onde se encontrava, no centro da bolha, como uma mosca presa numa teia invisível; depois a luz a mudar, o observador invisível a aproximar-se, uma zona da parede a abrir-se em forma de íris negra, escura, a revelar uma passagem vazia, redonda, infinda; ela a encarar aterrada, a abertura; nos ouvidos o insuportável batuque do coração, cada vez mais alto; ela consciente do terror em que estava, a afundar-se nele, não conseguindo desviar os olhos, mover-se, antecipando o segundo em que o ser do outro lado se mostraria, a confirmação de que o monstro existia, e vinha no seu encalce; e então, a abertura e a passagem deixavam de sê-lo, o que estava em redor mexia-se, destacava-se da parede como um camaleão, e ela percebia que afinal estivera a encarar um esfíncter, talvez um olho, um olho que a observava, não uma passagem mas o prenúncio do sofrimento; e ela ali presa, naquele espaço fechado e minúsculo, sem poder fugir, a ver o seu pior pesadelo consubstanciar-se em forma e vontade diante de si.

Acorda aos gritos. Os outros passageiros encaram-na com absoluto espanto, antes de se mostrarem aborrecidos e indignados por terem sido, também eles, despertados dos seus mundos de sonho privados, aparentemente mais pacíficos. Ela vira-se contra a janela, envergonhadíssima, e desprende-se da correia, para que o corpo fique em constante desequilíbrio e não possa adormecer de novo.

Tantas vezes aquele sonho. Sempre o mesmo. Sempre idêntico fim. O que significa? Que mensagem inconsciente o espírito lhe tenta passar?

Porque se recusa a falar do assunto ao médico?

Adrienne chega finalmente à estação terminal ao largo da costa de Inglaterra, e é despejada para um conjunto de átrios abobadados com tectos de diamante por onde se discernem as águas profundas do canal, iluminadas por potentes holofotes para compensar a inexistência de luz solar e captar a fauna subaquática, mantida num delicado equilíbrio de curiosidade luminosa e repulsa pelos feixes de ultrassons que afastam os bichos mais volumosos ou perigosos para a estrutura. Um extenso espaço comercial acompanha-a à saída, cheio de lojas voláteis que alteram o tipo de mercadoria e a natureza da venda de hora para hora, consoante o fluxo de passageiros e visitantes que o atravessam. O ruído próprio de um espaço tão amplo é profissionalmente abafado por milhares de fiapos dependurados do tecto, quais lianas, que formam uma cortina onde se projectam as notícias de um canal britânico. Enquanto aguarda o elevador para a superfície, concentra-se nas imagens e nas informações das legendas, habituando o cérebro à língua inglesa. Uma explosão num dos postos fronteiriços da Muralha Europeia do mar negro marca as notícias da hora. Aparentemente foi uma manifestação da guerrilha anti-extraterrestres, visando impedir a exportação de tecido semi-inteligente para os países árabes. Embora as notícias sejam vagas sobre o assunto, Adrienne conhece as causas que levaram a tais protestos, pois já observou a forte reação do contacto deste tipo de tecido (fabricado com tecnologia Spiertvick’kap) com os produtos utilizados na região (quase todos influenciados por tecnologia Irristkitck) e imagina os danos que provocarão na pele de que os use... conhecendo a história da região, não é de admirar que pensem que o efeito foi propositado e que resultou de uma tentativa de ataque terrorista subtil da Europa às suas populações. Conhecendo, por outro lado, a história dos extra-terrestres, e como engraçavam pouco uns com os outros, não é de admirar que isso seja verdade. O Próximo Oriente sofreu um duro golpe aquando da escassez do petróleo e da resultante e esperada indiferença do resto do mundo perante a região, subitamente tornada numa África um pouco mais sofisticada mas igualmente corrupta e pobre, e queriam - com a ajuda dos novos amigos do espaço - recuperar algum do poder do passado.

O transporte aguarda-a. A discreta e pequena sigla HSO (Home Security Office) quase se perde na estrutura negra do barco unipessoal, mas o ar austero é inconfundível. O condutor saúda-a com a mão retesada contra a testa, e ela não quer corrigi-lo, dizer-lhe que é civil. Senta-se na cabina e aproveita a curta viagem para descarregar a mensagem e ler o anexo.

O que descobre desperta-a com mais eficiência do que uma injecção de cafeína pura nas veias.


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