Quando conheceu o Bruno as coisas também não foram faceis. Ele mal a via perdia-se dentro daqueles olhos e ficava enfeitiçado por momentos ; depois praguejava com ela - que assim não podia ser, que ele tinha vontade própria e não queria ficar subjugado dentro das teias daquele luar...
Foi um namoro difícil aquele e desastroso... Ela sempre escondendo as suas capacidades para ver mais longe, ele receoso de se perder naqueles olhos...
E mais difícil se tornou quando um dia ao entardecer, já quase noite, namorando num vão de escadas ela notou que, se o olhasse fixamente, lhe adivinhava os pensamentos. De início pensou que sonhava e que tudo era fruto da sua imaginação mas com a repetição em dias seguintes um pânico enorme a assolou. Não podia contar-lhe porque o amava e não o queria perder, mas não podia também permanecer naquela situação extremamente embaraçosa e artificial. Sim, que isto de ler os pensamentos a outrem não é nada simpático e põe-nos sempre na iminência de um desgosto ou desilusão, muito mais tratando-se de alguém a quem muito queremos - pensava ela com seus botões.
Reviveu os dias de grande inquietação e desgosto principalmente a partir da altura em que, estando com ele a falar de projectos para o futuro, lhe leu na mente a vontade de acabar tudo e partir, embora da sua boca fosse o contrário que saía.
Aí pensou : - És tu que tens de sair, Luar, e o mais depressa possível...
Foi mais ou menos por essa data que começaram as viagens e ela estava a vê-las de novo !...
Tudo acontecia quando, vivendo já na maior das solidões, se olhava ao espelho ao deitar.
Mirando-se bem de frente e centrando toda a atenção nos seus olhos, estes como que se abriam e davam-lhe passagem para um espaço infinito de céu estrelado, um firmamento onde pairava sem noção de corpo ou de tempo e de onde não mais lhe apetecia sair. Geralmente era encontrada pela mãe, ao amanhecer, caída no chão da casa de banho, gelada e pálida e sem dizer nada com nexo. De novo, tal como em bebé, viu passar-lhe à frente um cortejo de médicos e agora também de curandeiros, videntes, astrólogos e demais especialistas do mundo dos espíritos, ditos celestiais. Aos interrogatórios respondia sempre que tinha estado num sítio de enorme paz onde adivinhou que vivessem outros seres como ela pois embora nada visse de concreto sentia-se acompanhada e amada de forma muito especial. Nesse espaço infinito ouvia algo parecido com música mas era mais suave e penetrante, que lhe enchia o coração de uma felicidade sem limites. A luz era indescritível só podendo adiantar que era parecida com a irradiada pelos seus olhos em noites escuras de Inverno.
Os relatos chegaram aos ouvidos do bispo que de imediato chamou o padre da freguesia para averiguações. Este pouco tinha a dizer porque não tinha querido meter-se no assunto. Não tinha tempo - dizia - para gastar com bruxarias e histerias femininas...Que lhe arranjassem um homem que ele abençoaria o casamento e iam ver como tudo passaria. O bispo contudo achou que era perigoso abandonar este caso nas mãos de outra gente pois, com a propaganda que lhe estavam a dar, qualquer dia diriam que era santa e isso só traria embaraços. Seria melhor atalhar já o assunto e chamar especialistas nas doenças da mente para a tratarem. E assim teve que ser... Os pais pressionados acabaram por internar Rosalina num hospital psiquiátrico onde de novo foi submetida a exames de toda a ordem. Como tratamento deram-lhe uns choques eléctricos no cérebro que a punham em grande prostração e esquecida de quem era e o que ali estava a fazer.
Pressentia contudo que a santidade não era fruto que se colhesse ainda verde e que os seus dons, ainda que inatos, podiam existir em qualquer um.
Vendo que estava num beco sem saída resolveu elaborar uma estratégia que a livrasse de tantas perseguições. A muito custo fingiu que já nada via que não fosse a mais pura realidade e que, portanto, tudo não tinha passado das mais prosaicas fantasias de uma jovem casadoira. A principio foi difícil mas cedo reparou que se pusesse uns óculos escuros era mais fácil controlar-se. Foi então que inventou uma fobia à luz para ao aviar os óculos pedir que lhe fumassem as lentes o mais possível. Os pais já envelhecidos e carentes dos seus cuidados levaram-na para casa e assim viveram confortados e aparentemente convencidos da sua cura.
Ela porém aprendeu depressa a arte da dissimulação e passou a viver em dois mundos ao mesmo tempo. O da luz e o da escuridão. É certo que fugia do contacto das pessoas pois era penoso sentir as suas vibrações mais negativas e perceber-lhes os pensamentos. Preferia refugiar-se à noite no quarto e abrir as suas janelas à vontade. Os anos foram passando. Os pais envelheceram sem nunca mais voltarem ao assunto que tanto os tinha consumido. Percebeu a sua despedida bem antes de os enterrar e abriu-se nesses dias aos seus pensamentos mais amorosos e extremosos para com ela. Vivia agora em paz com os seus gatos e com eles compartilhava as noites em vigílias de sonho e emoções...
A pouco e pouco o ecrã foi-se apagando e a sala ficou quase às escuras. Deixou de se ver e sentiu um arrepio de frio subir-lhe pela medula. Rufo e Oriana estremeceram e miaram languidamente. Uma luz colocada no tecto abriu-se repentinamente. Um barulho de vozes ouviu à sua volta.Um choro agudo de recém-nascido ecoou e encheu a sala de operações.
-É uma menina! - disseram.
-E tem uns olhos! Parecem duas luas cheias de Agosto!
Menção Honrosa do Prémio de Ficção Primavera 2000 da revista Eventos (Tecnofantasia.com)
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