Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


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12 Agosto 2012

Não Entendo A Polémica Da Crítica e o divulgado fracasso do filme John Carter, que tive oportunidade de ver recentemente (não acorri à estreia; cada vez mais a experiência do espaço de cinema para filmes comerciais implica, por um preço elevado, aturar grupos irrequietos, compatriotas mal-comportados e aqueles insuportáveis anúncios das operadoras de telemóveis com o falso ambiente feel-good e música inspiradora-mas-desinspirada para jovens que me afastaria rapidamente se ainda fosse mercado-alvo, e tudo isto sem o descanso que outrora o intervalo permitia; nada como o conforto do sofá, a nitidez do HD e o conveniente botão de pausa; eis a velhice que se aproxima a passos largos e seja bem-vinda). É o filme esperado, possível e previsível que poderia surgir do material de base. Contém tudo o que é esquecível mas, afinal, perdoável sobre a obra de Burroughs: a péssima escrita, a caracterização risível, a insensatez do enredo, a simplicidade atroz; e contém tudo aquilo que o tornou num clássico intemporal: o deslumbre por um horizonte estranho e longínquo, a sensação de aventura numa terra de fronteira em que tudo está ainda por definir, a descoberta súbita em nós de poderes inesperados que podem influenciar o mundo, a importância da nossa existência individual, o romance picante com uma princesa boazona que precisa de nós para sobreviver. Todos os mitos de crescimento dos rapazes reunidos numa única história, cheia de aventura, emoção, perigo e algum humor. Resumindo, um filme Disney, para brancos, cheio de brancos e outros tons politicamente correctos. Uma fórmula que pode cansar na era actual mas que não destoa da tradição existente. Maus desempenhos? Sim, péssimos - quer Carter quer a Thoris têm uma ausência de carisma tão notória que se torna dolorosa. Maus diálogos? Nem vale a pena falar disso. Mas live-action nunca foi o forte da Disney, e novamente o destaque vai para a componente animada. São as figuras virtuais que sustentam a personalidade do filme, em particular a presença esverdeada de William Defoe e do pseudo-caniche. São os territórios e a concepção visual do planeta e das cidades, imaculadamente composta e integrada na parte filmada. Estando à espera de um dejecto fumegante, encontrei, com agradável surpresa, um filme cheio de vida e acção, suficientemente leve e sem os laivos de pretenção literária que Nolan procurou atribuir à trilogia Batman. Por hábito, a pulp clássica não melhora quando a vestem com o fatinho ou vestido de gala da alta cultura. E o filme não segue fielmente o texto original? Ora, se alguém voltasse no tempo para dizer ao caro Edgar Rice que alterasse umas quantas coisitas na história de modo a adequar-se ao filme do século seguinte, e lhe passassem vinte dólares para a mão, é bem certo que o faria sem pestanejar. Se lhe passassem cem, iriam ver se o sacana no Carter não conseguiria pular de Marte até às luas! Nisto sempre podemos confiar nos autores pulp: como qualquer rameira de beco, estavam prontos a sacrificar a integridade profissional por meros tostões. Quanto ao filme, talvez não me interesse revê-lo e ficou pouca vontade de conhecer a sequela, mas penso que valeu a pena ter existido, nem que seja para servir como referência para o advento de melhores e mais ambiciosos artefactos - como o livro serviu no passado.

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