Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


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10 Maio 2010

É Impossível Deixar-Vos estas recomendações sumárias sem incluir duas das principais colecções de Ficção Científica que actualmente só se conseguem encontrar na Feira do Livro ou em algum alfarrabista: a Argonauta e a Livros de Bolso FC da Europa-América.

Para quem não tenha atravessado os anos 80, é quase impossível imaginar o domínio destas colecções. Não havia praticamente livraria que não dedicasse uma secção extensa a expor uma grande parte ou inclusive – no caso da Europa-América – a totalidade dos números publicados. Eis um grande ensinamento para as práticas modernas: ainda que hoje existam colecções – a 1001 Mundos e a Bang!, para destacar as principais –, as livrarias não se dedicam a reunir os exemplares segundo uma lógica numérica e num espaço independente, preferindo seguir as suas próprias regras de catalogação; o leitor recém-chegado à colecção sente-se naturalmente desamparado (será o livro acabado de comprar o número mais recente?) e terá de recorrer a outros recursos, como pesquisar na internet ou contactar a editora, para entender que obras constam do catálogo e mesmo do planeamento futuro. Contudo, encontrar alguns números mais antigos irá revelar-se uma tarefa frustrada, obrigando-o a comprar online – de que nem todos os leitores gostam – ou esperar por uma Feira do Livro, para completar a colecção. O facto de os títulos anteriores estarem disponíveis no momento, ou serem facilmente encontrados pela pesquisa na outra livraria mais próxima, ajudava bastante os novos leitores, acabados de chegar por via de uma novelização de um filme em cartaz, por seguirem uma recomendação pessoal, por conhecerem o autor ou por mero acaso.

O leitor ocasional era assim imediatamente fidelizado; o mercado expandia-se. Além disso, existia o factor educação: a colecção era um veículo para ir divulgando autores e obras inovadores, pois havia uma confiança por parte do editor que um segmento importante dos seguidores iriam confiar na aposta e comprar o livro – nem que fosse para ter a colecção completa. O fenómeno era fiável, e se acabou por perder ânimo foi principalmente pela falta de confiança dos editores no que eles próprios haviam ajudado a criar. Sucediam-se as más traduções e a falta de revisão. Adicionalmente começou a abusar-se do fenómeno de divisão do livro. Os leitores estavam habituados a, duas ou três vezes por ano, comprarem histórias às fatias, nas quais uma obra extensa no original era dividida em duas ou três partes na edição portuguesa para tornar a compra individual mais barata. Era uma explicação lógica, e quem vivia da mesada agradecia. Implicava que se conheceriam menos romances e autores naquele ano, pois um dos números previstos seria uma segunda ou uma terceira parte, mas enquanto as metades eram gordinhas em número de páginas havia um pacto entre editor e leitor. Esse pacto começou a quebrar-se quando as metades se tornaram esquálidas e se começou a perceber que o editor pretendia obter o maior lucro possível de cada título comprado.

Era o sinal de que o modelo de livro de bolso se tinha esgotado. E se os leitores ocasionais já tinham desaparecido há muito, esta mudança de atitude alienou os fiéis. A cisão tornou-se irreconciliável.

Ainda assim, muitas obras, boas obras, se publicaram nos tempos áureos. Irei destacar duas, uma de cada colecção.

O Tempo, O Espaço e o Cérebro é a tradução idiota do título The Big Time, um dos melhores livros de Fritz Leiber e dos poucos a encontrar caminho para o nosso idioma, com edição da Livros do Brasil. Nos tempos da Guerra da Mudança, é-nos dito, duas facções encontram-se num conflito permanente e milenar entre si: os Aranhas e os Serpentes. Não se sabe como ou porque começou nem ninguém sabe quando ou se acabará. Não se conhece sequer a forma e figura destes seres. A guerra é tudo, menos convencional, pois trava-se na própria natureza do Tempo. Cada facção dispõe da capacidade de viajar pelas eras e alterar o rumo da história. São as próprias batalhas da humanidade, as que existiram e todas as que poderiam ter existido, as que acabam por representar, no fim, a essência desta guerra. E porque a História pode ser alterada por um qualquer agente destas facções, pendendo a favor de uma ou de outra, assim a Humanidade segue na esteira. Inimigos mortais que lutariam em lados opostos numa realidade são aliados na próxima; soldados rasos tornam-se comandantes e logo regressam ao posto inicial; contendas podem tornar-se em batalhas decisivas ou em meros distúrbios. Quando a mudança na História acontece repercute-se pelas eras de forma progressiva, como uma ventania: daí o nome dos Ventos (e Guerra) de Mudança.

Isto torna-se num desgaste intenso para os soldados Aranhas e Serpentes – soldados humanos, recrutados ao longo das eras passadas e futuras da nossa História – , contra o qual se construiram zonas atemporais, isoladas do efeito pernicioso das alterações históricas. Zonas de descanso em que o conflito não é permitido e pelas quais recrutas e soldados experientes passam antes de serem enviados numa nova missão para outra era. É numa destas zonas que a história decorre.

E trata-se de uma história simples. Uma história contada com economia de tempo e espaço narrativo. Muito se escreveu já sobre a natureza teatral do romance, sobre as entradas e saidas coreografadas e os desenvolvimentos dramáticos de cada personagem, que fazem mais sentido numa peça que numa narrativa clássica. O livro é breve e veloz, e é preciso estar atento. O cenário de eterna e confusa guerra alimentaria, possivelmente, uma série de dez grossos volumes por um autor moderno versado em História. Leiber, contudo, utiliza este conceito apenas como cenário – nunca se entra num conflito efectivo, nunca se descreve uma batalha ou uma mudança no tempo a acontecer, os quais são apenas mencionados e explicados no decurso da acção – e centra o enredo numa situação urgente que implica a sobrevivência de um punhado de soldados e agentes temporais e da própria zona de repouso.

A edição conta com quase vinte anos de idade (é de 1992). Como podem perceber pelo exemplo do título, não representa uma maestria da arte de traduzir. Felizmente podem também encontrá-la disponível, gratuitamente e na língua original, neste grande repositório do bom e do mau que é a internet.

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