Conceito de Luís Filipe Silva

Ficção Científica, Fantástico, Surrealismo, Realismo Mágico, Terror, Horror, Ciberpunk e História Alternativa - e por vezes, se fôr de excelente qualidade, ainda fechamos os olhos a um certo Mainstream...

[Conheça o Manifesto]


Os acontecimentos mais recentes da ficção científica e fantástico em Portugal e no mundo

Lançamentos |  26 Mar 2008
Recentes Lançamentos
De Em Busca da Ilha Fianchair, da portuguesa Laura Vasconcelos, a editora Verso de Kapa informa-nos que «é um romance épico que se desenrola, bem ao modo medieval, no mundo dos homens, dos deuses e dos heróis do universo mitológico celta. Lynn, a Guerreira, uma jovem que se aventura pelo desconhecido e que tudo faz para cumprir a missão que lhe foi imposta pelo Destino, parte em deambulação pelo Grande Mar enfrentando com toda a coragem o obscuro, as tormentas, as batalhas, os feitiços e as traições. Para a bela Lynn não existem obstáculos, e a sua determinação, aliada ao auxílio dos deuses levam-na a percorrer os caminhos mais inóspitos e a alcançar o que para si estava reservado... » O que parece ser, à partida, mais uma fantasia de inspiração celta ganha contornos ao descobrir-se que a ilha Fianchair é mencionada em antigos mitos irlandeses, e que a autora é mestre em literatura medieval e que publicou ensaios sobre a mitologia celta. Depois das novidades, já aqui mencionadas, de Paulo Fonseca e Pepetela, e da antologia de história alternativa, A República Nunca Existiu!, este é o quarto livro do género fantástico em português (sem contarmos com a literatura juvenil, que contribui abundamente para o mesmo) a ser apresentado este ano, e vamos ainda no final do primeiro trimestre... Entretanto, e mais convencionalmente, compete-nos referir o lançamento do segundo volume do Ciclo Barroco de Neal Stephenson, O Rei dos Vagabundos, da Tinta-da-China, que continua a história de Argento-Vivo e o cuidado trabalho de tradução de Raquel Mouta; bem como o surgimento de As Senhoras de Grace Adieu, de Susanna Clarke, livro de contos ilustrados da autora do divertidissimo Jonathan Strange e o Sr. Norrell, passados numa Britannia mágica - pela Casa das Letras.

Lançamentos |  17 Mar 2008
Fantástico Olissiponense e Também Angolano
Império Terra - O Princípio é o romance de estreia de Paulo Fonseca e fala-nos do apocalipse, do ano de 2029 no qual uma cidade (Lisboa) se veria a par com uma invasão demoníaca (Vampiros? Lobisomens?) cujo intento é caçar a Humanidade até à extinção; fala-nos também de Gabriel, talvez um nome não escolhido ao acaso, que será talvez uma promessa de salvação, nem que seja a sua. Um folhear rápido e ligeiro, que não permite mais do que breves percepções, deixa-nos com a sensação de uma escrita confiante, com o mínimo de qualidade exigido a um escritor português (infelizmente nem sempre seguido por outros exemplos) e com uma interessante apropriação da capital enquanto espaço do imaginário. Esperemos que uma leitura cuidada consiga revelar a promessa de um novo talento - o fantástico nacional bem o mereceria. Tratar-se-à do primeiro livro de uma saga? Esta informação é omissa, talvez por estratégia da editora Papiro. Também apocalíptico, mas seguindo uma tradição mainstream, temos O Quase Fim do Mundo, de Pepetela, Edições D. Quixote, autor angolano que com este seu último romance apresenta uma Terra desprovida subitamente de vida animal, com excepção de um pequeno recanto do mundo numa zona desgraçada de África que vai precipitar o desequilíbrio das relações internacionais e empurrar sem dúvida (a leitura o confirmará) o romance para o território da fantasia política.

Lançamentos |  14 Fev 2008
Entre o Medo e a Fúria
Duas propostas de qualidade da incansável Saída de Emergência, que mantém a aposta inédita e corajosa de que existe interesse pela literatura fantástica em língua portuguesa, animam estes primeiros meses do ano: por um lado, a reedição de uma das mais interessantes obras de Brian Stableford, publicada pela primeira vez pela chancela da Clássica Editora (numa colecção então dirigida por João Barreiros) em finais dos anos 80 e rapidamente esquecida - o Império do Medo é uma viagem delirante a um espelho do nosso mundo na qual o vampirismo se tornou um fenómeno genuíno e omnipresente, uma humanidade imortal existindo em paralelo, e em permanente contenda, com a versão mortal. Resulta assim numa História alternativa fruto de uma pesquisa intensa e de uma capacidade de extrapolação extraordinária, um épico de genuína e assumida ficção científica racionalista - apesar do título - como ainda era possível encontrar, há tão pouco tempo, a dominar os escaparates. Ombreia com a atenção prestada a mais um capítulo da saga  d'As Crónicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis, que deu merecida fama a George R. R. Martin. Uma verdadeira novela de traições, paixões, enganos e segredos capaz de prender o mais exigente dos espectadores, na qual o autor não perdoa nem mostra favoritismos, sendo capaz das maiores atrocidades sobre as personagens mais encantadoras - igual cruedade que a do mundo real -, esta saga esperemos que tenha chegado para ficar, e que o mercado comprove à editora que foi sábia a sua decisão em arriscar na edição portuguesa de uma série tão longa. E em particular, que lhe sugira a ideia de arriscar nas restantes obras de Martin, anteriores à série e também famosas a nível internacional.

Lançamentos |  24 Jan 2008
Novidades de Início de Ano
Destaque para os lançamentos de A República Nunca Existiu!, histórias alternativas sobre um Portugal no qual o regicidio de 1908 não teria sido bem sucedido, e a monarquia teria continuado vigente. Seríamos hoje um país diferente? Catorze histórias iluminam as diversas possibilidades deste cenário, catorze portugais diferentes da mão de igual número de autores, na que é a mais ousada proposta literária desta época de ficções obrigatórias sobre o centenário do evento. Organizada por Octávio dos Santos, que assina um dos contos, a antologia tem a participação dos excelentes autores João Aguiar, Miguel Real, João Seixas, entre outros, e em particular marca o regresso à escrita de Luis Richheimer de Sequeira e de Bruno Martins Soares, há muito desaparecidos das lides literárias. Esta iniciativa é mais um exemplo da capacidade criativa da Saída de Emergência em nos fornecer visões diferentes, emocionantes e originais de um Portugal literário, após a antologia de 2006 A Sombra Sobre Lisboa, e que esperemos não se quede por aqui. De particular destaque a excelente concepção visual da obra. Também nas bancas, embora num género completamente distinto, a Editorial Presença apresenta-nos mais fantasia juvenil com A Espada de Fogo, segundo volume das Crónicas de Icemark, da mão de Stuart Hill. Jovens empunham espadas hirtas em defesa contra as atitudes vingativas de vilões adultos e malvados e dessa forma conquistam o mundo. Mentes perversas - que não as nossas - talvez vissem na capa deste livro uma perspectiva fálica muito pouco subtil, e talvez algo preocupante para qualquer bom pai que se depare com este livro na mesa de cabeceira dos seus tenros filhotes... sem dúvida um intrigante e arriscado critério editorial para colocação no mercado. Por fim, destaque merecido para A Caixa em Forma de Coração, de Joe Hill, da Civilização Editora. Grandes aplausos para a tradução de um dos melhores romances de terror dos últimos anos, de um autor que se está a tornar numa sensação nos Estados Unidos, de certa forma a  imitação do fenómeno Jonathan Littell dentro do género: Joe Hill é filho de um escritor extremamente famoso, algo que por sinal não é mencionado sequer uma única vez na edição portuguesa. Se se trata de desconhecimento ou de imposições contratuais, desconhecemos. Apenas esperamos que a razão desta estranha ausência não seja porque ninguém na editora tenha reconhecido a importância do nome do pai Stephen King...

Lançamentos |  11 Jan 2008
Eis o Fim, Até que Enfim!
A Grande Transcendência é o volume que encerra a trilogia A Idade de Ouro, de John C. Wright. Depois dos volumes iniciais, A Idade de Ouro e A Fênix Exultante, e volvidos uns vergonhosos quatro anos desde a publicação deste último, eis que finalmente a Editorial Presença satisfaz os apreciadores desta série com a parte que une os fios da trama. Não seria de admirar que muitos, habituados a ler em inglês, tivessem já procurado a edição original, e se sintam pouco motivados a comprar a portuguesa, factor para o qual não abona o aumento brusco de preço face aos primeiros livros (este custa 20 euros face aos 15 euros dos primeiros, embora seja de dimensão relativamente semelhante). A editora, para variar, não fala sobre o tema, nem tem espaço para discussão nas suas páginas, além da habitual auto-congratulatória lista de comentários apreciativos dos leitores. Num mercado pequeno como o nosso, é espantoso (no sentido castelhano da palavra) como as editoras não potenciam os nichos existentes com uma abordagem mais personalizada, mantendo um diálogo aberto e franco com o público-alvo. Custava muito fazer um blogue e narrar a experiência de publicar um livro assim, os comentários recebidos, o acolhimento da imprensa, as dificuldades de tradução? Seria assim tão descabido explicar-nos se o lançamento deste novo número da colecção Viajantes do Tempo implica que a colecção de ficção científica está a ser retomada ou se, pelo contrário, representa o canto de cisne, por estarem apenas a cumprir as obrigações contratuais e desfazer-se dos direitos entretanto comprados? Como esperam que o  mercado cresça e vos torne líderes, se se encontrem atrás da fachada empresarial? Da editora, apenas temos o seguinte resumo: «Voltamos a um futuro distante para reencontrar Faetonte, o herói visionário, apaixonado e rebelde que se viu exilado da Ecúmena Dourada por perseguir o seu sonho de expansão interestelar. Novamente de posse da Fénix Exultante, Faetonte vê-se agora perseguido pelos Senhores da Ecúmena Silenciosa. Mas, com a aproximação do fim do milénio, terá lugar a Grande Transcendência, o momento em que todas as mentes se fundem numa supermente do sistema solar que efectuará o julgamento de todas as raças da humanidade e da trans-humanidade. E o que irá decidir a mente transcendente quando estiver finalmente desperta? Apoiar o sonho expansionista de Faetonte ou enfrentar a primeira guerra interestelar? Um épico brilhante de um dos maiores talentos da actual ficção científica.» E nisto, sim, têm razão. Um livro a descobrir por quem gosta do género, e a tragar com cuidado por quem nele pega pela primeira vez, pois está cheio de neologismos e terminologia inventada e subtis piscares de olho.

Destaques |  02 Out 2007
Por Entre as Nuvens
Um dos mais prestigiados livros de 2004, O Atlas das Nuvens de David Mitchell (finalista do Booker Prize, do Nébula, do prémio Arthur C. Clarke, e vencedor, entre outros, do British Book Award for Literary Fiction), finalmente editado entre nós pela D. Quixote, é um exemplo magnífico da capacidade do romance (na sua acepção moderna) e da ficção em particular, de perspectivar narrativas enquanto simultâneamente vida (algo que decorre, algo que é presenciado) e memória (algo que se conta, no processo perdendo o detalhe e revelando o núcleo principal da história do passado). Neste livro, seis novelas contam seis histórias em épocas e lugares distintos, do século XIX ao distante futuro (duas das histórias são ficção científica declarada), cada qual incompleta, cada qual desenrolando-se no contexto das seguintes. Em jeito de peças de dominó cujos efeitos iniciais acabam por influenciar outras peças à distância com as quais não havia contacto directo, a não ser pelo ímpecto da causa/efeito acumulada (no livro retratada pelo Tempo e pelo acumular de histórias), as histórias misturam-se e crescem dentro de outras até formar um todo maior que a soma das partes, e como é habitual, o material promocional português não lhe faz juz: «Um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma “criada de restaurante” geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de Atlas das Nuvens, que escutam ecos uns dos outros através dos corredores da história e vêem os seus destinos alterados de várias maneiras.» Não se deixem enganar pela capa. Efectivamente, é um livro a não perder.

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(c) Luís Filipe Silva, 2003/2007. Não é permitida a reprodução não autorizada dos conteúdos.

Destaque

Por Universos Nunca Dantes Navegados - Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa. 14 histórias da pena de autores portugueses e brasileiros, numa antologia inédita, que exploram os universos da ficção científica e da fantasia. Venha conhecer a obra de Telmo Marçal, João Ventura, Octávio Aragão, Yves Robert, Maria Helena Bandeira, Gabriel Boz, entre outros. [MAIS DETALHE]

Recentes

O Futuro à Janela em E-book - Em 1991, a Editorial Caminho atribuia o prémio bienal de originais de Ficção Científica em língua portuguesa a uma colectânea de 11 contos e um poema, intitulada O Futuro à Janela. Em 1998, esse mesmo livro era re-editado numa colecção de jovens autores portugueses do Círculo de Leitores. Hoje, o livro continua a desbravar territórios numa versão gratuita em e-book, para leitura e divulgação. Era a obra de estreia de Luís Filipe Silva, que agora vai mantendo o site que se encontram a ler e escrevendo outras coisas. Versão em ficheiro PDF, 400kb. [link]

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