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Destaque para os lançamentos de A República Nunca Existiu!, histórias alternativas sobre um Portugal no qual o regicidio de 1908 não teria sido bem sucedido, e a monarquia teria continuado vigente. Seríamos hoje um país diferente? Catorze histórias iluminam as diversas possibilidades deste cenário, catorze portugais diferentes da mão de igual número de autores, na que é a mais ousada proposta literária desta época de ficções obrigatórias sobre o centenário do evento. Organizada por Octávio dos Santos, que assina um dos contos, a antologia tem a participação dos excelentes autores João Aguiar, Miguel Real, João Seixas, entre outros, e em particular marca o regresso à escrita de Luis Richheimer de Sequeira e de Bruno Martins Soares, há muito desaparecidos das lides literárias. Esta iniciativa é mais um exemplo da capacidade criativa da Saída de Emergência em nos fornecer visões diferentes, emocionantes e originais de um Portugal literário, após a antologia de 2006 A Sombra Sobre Lisboa, e que esperemos não se quede por aqui. De particular destaque a excelente concepção visual da obra. Também nas bancas, embora num género completamente distinto, a Editorial Presença apresenta-nos mais fantasia juvenil com A Espada de Fogo, segundo volume das Crónicas de Icemark, da mão de Stuart Hill. Jovens empunham espadas hirtas em defesa contra as atitudes vingativas de vilões adultos e malvados e dessa forma conquistam o mundo. Mentes perversas - que não as nossas - talvez vissem na capa deste livro uma perspectiva fálica muito pouco subtil, e talvez algo preocupante para qualquer bom pai que se depare com este livro na mesa de cabeceira dos seus tenros filhotes... sem dúvida um intrigante e arriscado critério editorial para colocação no mercado. Por fim, destaque merecido para A Caixa em Forma de Coração, de Joe Hill, da Civilização Editora. Grandes aplausos para a tradução de um dos melhores romances de terror dos últimos anos, de um autor que se está a tornar numa sensação nos Estados Unidos, de certa forma a imitação do fenómeno Jonathan Littell dentro do género: Joe Hill é filho de um escritor extremamente famoso, algo que por sinal não é mencionado sequer uma única vez na edição portuguesa. Se se trata de desconhecimento ou de imposições contratuais, desconhecemos. Apenas esperamos que a razão desta estranha ausência não seja porque ninguém na editora tenha reconhecido a importância do nome do pai Stephen King...
A Grande Transcendência é o volume que encerra a trilogia A Idade de Ouro, de John C. Wright. Depois dos volumes iniciais, A Idade de Ouro e A Fênix Exultante, e volvidos uns vergonhosos quatro anos desde a publicação deste último, eis que finalmente a Editorial Presença satisfaz os apreciadores desta série com a parte que une os fios da trama. Não seria de admirar que muitos, habituados a ler em inglês, tivessem já procurado a edição original, e se sintam pouco motivados a comprar a portuguesa, factor para o qual não abona o aumento brusco de preço face aos primeiros livros (este custa 20 euros face aos 15 euros dos primeiros, embora seja de dimensão relativamente semelhante). A editora, para variar, não fala sobre o tema, nem tem espaço para discussão nas suas páginas, além da habitual auto-congratulatória lista de comentários apreciativos dos leitores. Num mercado pequeno como o nosso, é espantoso (no sentido castelhano da palavra) como as editoras não potenciam os nichos existentes com uma abordagem mais personalizada, mantendo um diálogo aberto e franco com o público-alvo. Custava muito fazer um blogue e narrar a experiência de publicar um livro assim, os comentários recebidos, o acolhimento da imprensa, as dificuldades de tradução? Seria assim tão descabido explicar-nos se o lançamento deste novo número da colecção Viajantes do Tempo implica que a colecção de ficção científica está a ser retomada ou se, pelo contrário, representa o canto de cisne, por estarem apenas a cumprir as obrigações contratuais e desfazer-se dos direitos entretanto comprados? Como esperam que o mercado cresça e vos torne líderes, se se encontrem atrás da fachada empresarial? Da editora, apenas temos o seguinte resumo: «Voltamos a um futuro distante para reencontrar Faetonte, o herói visionário, apaixonado e rebelde que se viu exilado da Ecúmena Dourada por perseguir o seu sonho de expansão interestelar. Novamente de posse da Fénix Exultante, Faetonte vê-se agora perseguido pelos Senhores da Ecúmena Silenciosa. Mas, com a aproximação do fim do milénio, terá lugar a Grande Transcendência, o momento em que todas as mentes se fundem numa supermente do sistema solar que efectuará o julgamento de todas as raças da humanidade e da trans-humanidade. E o que irá decidir a mente transcendente quando estiver finalmente desperta? Apoiar o sonho expansionista de Faetonte ou enfrentar a primeira guerra interestelar? Um épico brilhante de um dos maiores talentos da actual ficção científica.» E nisto, sim, têm razão. Um livro a descobrir por quem gosta do género, e a tragar com cuidado por quem nele pega pela primeira vez, pois está cheio de neologismos e terminologia inventada e subtis piscares de olho.
Palestras, autores convidados portugueses e estrangeiros, apresentações de livros, e muita fantasia e ficção científica estarão em debate a partir de hoje e até domingo no espaço da Biblioteca Vitor de Sá, ao Campo Grande, em Lisboa, junto à Universidade Autónoma. Inaugura-se hoje pelas 16h00 o terceiro Fórum Fantástico, e dos pontos em destaque encontra-se a apresentação de um livro de C. S. Lewis pelo autor José Mário Silva, do projecto Chesterquest por C. B. Cebulski (atenção a todos os desenhadores e ilustradores de banda desenhada, este senhor é um scouter de uma empresa norte-americana à procura de novos talentos; grandes oportunidades de trabalho e reconhecimento internacional estão patentes nesta iniciativa), e a apresentação do livro Por Universos Nunca Dantes Navegados - Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa, editado por Luís Filipe Silva. Entre outros acontecimentos, obviamente. Não se fiem na notícia, como é habitual neste tipo de coisas o programa muda até ao último minuto. Confiram-no no site oficial do evento [link].
Entre as novidades editoriais do género que se alinham na corrida do período natalício, destacamos as da Saída de Emergência: Titus - O Herdeiro de Gormenghast, de Mervin Peake, uma das grandes obras de fantasia do século XX que finalmente se apresentam ao público português e que constituem a obra de destaque da rentré; O Grande Deus Pã, de Arthur Machen, das obras mais conhecidas deste autor galês da primeira metade do século XX e que se contou entre os inspiradores de Lovecraft; O Último Anel, de Kiril Yeskov, que nos propõe uma visita ao Senhor dos Anéis contada do ponto de vista de quem perdeu a guerra, os orcs. Mas também outras editoras preparam as suas novidades para a grande época comercial, não podendo faltar as contribuições da Editorial Presença: O Círculo do Medo, fantasia portuguesa de Sandra Carvalho, continuação da saga das Pedras Mágicas; A Maldição da Adaga, de G. P. Taylor, fantasia juvenil passada numa Londres apocalíptica. Da Chimpanzé Intelectual: Contos de Terror do Homem-Peixe, selecção de fantástico assustador das mãos de Baptista-Bastos, João Seixas, João Barreiros, David Soares, entre outros. Ainda a destacar: A Sereia de Curitiba, de Rhys Hugues, obra exclusiva do autor para o público português, da Livros de Areia, e Pequenos Mistérios, de Bruce Holland Rogers.
Um dos mais prestigiados livros de 2004, O Atlas das Nuvens de David Mitchell (finalista do Booker Prize, do Nébula, do prémio Arthur C. Clarke, e vencedor, entre outros, do British Book Award for Literary Fiction), finalmente editado entre nós pela D. Quixote, é um exemplo magnífico da capacidade do romance (na sua acepção moderna) e da ficção em particular, de perspectivar narrativas enquanto simultâneamente vida (algo que decorre, algo que é presenciado) e memória (algo que se conta, no processo perdendo o detalhe e revelando o núcleo principal da história do passado). Neste livro, seis novelas contam seis histórias em épocas e lugares distintos, do século XIX ao distante futuro (duas das histórias são ficção científica declarada), cada qual incompleta, cada qual desenrolando-se no contexto das seguintes. Em jeito de peças de dominó cujos efeitos iniciais acabam por influenciar outras peças à distância com as quais não havia contacto directo, a não ser pelo ímpecto da causa/efeito acumulada (no livro retratada pelo Tempo e pelo acumular de histórias), as histórias misturam-se e crescem dentro de outras até formar um todo maior que a soma das partes, e como é habitual, o material promocional português não lhe faz juz: «Um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma “criada de restaurante” geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de Atlas das Nuvens, que escutam ecos uns dos outros através dos corredores da história e vêem os seus destinos alterados de várias maneiras.» Não se deixem enganar pela capa. Efectivamente, é um livro a não perder.
Destaque
Por Universos Nunca Dantes Navegados - Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa. 14 histórias da pena de autores portugueses e brasileiros, numa antologia inédita, que exploram os universos da ficção científica e da fantasia. Venha conhecer a obra de Telmo Marçal, João Ventura, Octávio Aragão, Yves Robert, Maria Helena Bandeira, Gabriel Boz, entre outros. [MAIS DETALHE]
Recentes
O Futuro à Janela em E-book - Em 1991, a Editorial Caminho atribuia o prémio bienal de originais de Ficção Científica em língua portuguesa a uma colectânea de 11 contos e um poema, intitulada O Futuro à Janela. Em 1998, esse mesmo livro era re-editado numa colecção de jovens autores portugueses do Círculo de Leitores. Hoje, o livro continua a desbravar territórios numa versão gratuita em e-book, para leitura e divulgação. Era a obra de estreia de Luís Filipe Silva, que agora vai mantendo o site que se encontram a ler e escrevendo outras coisas. Versão em ficheiro PDF, 400kb. [link]
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