Exposição Prolongada à Ficção Científica  

   um blog de Luís Filipe Silva


24 Maio 2009

Dos Deuses, o Rio que poderá enganadoramente ser o Ganges. A certo ponto McDonald afirma que a Índia não é a terra do individual mas do colectivo, que tudo é confluência e experiência partilhada, e para tal compara-a a uma viagem de comboio (também simbolizando o destino) cuja paragem final é a da própria morte, a qual acaba retratada, na perspectiva indiana, como uma troca de locomotivas, um entroncamento, em suma, uma fase da viagem e não o fim da mesma - algo que não encontra reflexo no pensamento ocidental, que consideraria o comboio como uma prisão, enquanto imposição da vontade de outrém e perda da liberdade individual, e a morte... bem, o que efectivamente é.

Efectivamente nunca saberemos na pele se esta é a verdadeira perspectiva dos nados e mortos em indo-território, a não ser que alternassemos de universo e de vida e mergulhássemos de cabeça num renascimento, dentro deste território milenar do misticismo e que como tal se assume (e é encarado mundialmente), mesmo em pleno século XXI da dita globalização e da procura de deuses mais sofisticados - algo que McDonald, sendo escritor e por isso incorrendo no pecado dos escritores de nos quererem convencer que em meras palavras conseguimos adoptar a alma de outrém, muito ardilosamente tenta conseguir. E são palavras rápidas, frases que nos atiram para outras frases, somos passados de mão em mão numa escuridão desconcertante que só no absoluto movimento alcança significado. Nada no livro nos convida à contemplação. McDonald não detém o veículo que conduz para nos explicar ou encantar, ele que saberá centenas de histórias e milhares de pormenores derivados da sua extensa pesquisa. O guia veio bem preparado, mas está com pressa, tem outros fins em mente, não se incomoda com o obséquio das apresentações. Estamos num comboio de alta velocidade, os conceitos surgem e passam, estão do outro lado da janela, não os tocamos, não nos tocam. Ele não quer que percamos tempo com o que já devíamos saber. A viagem acaba por ser um destino, e não um percurso. Um compasso de espera para observação enquanto a estação final, aquela onde a história do viajante realmente começa, não chega - uma atitude deveras ocidental.

É no entanto um percurso enebriante, pois as paisagens são coloridas e os eventos apresentados com salpicos de linguagem e maneirismos locais, tanto que se torna difícil, no conforto e protecção da nossa cabina de passageiros, de desviarmos o olhar. O guia sabe bem o que chama a nossa infantil atenção. Há um grau de virtuosismo evidente, um orgulho na exibição de poses de difícil equilíbrio que não esperaríamos de um britânico de meia-idade radicado naquele pedaço roubado pela Grã-Bretanha à Irlanda - o roubo consentido, tão incongruente à noção de uma Europa unida (a par de Gibraltar, por sinal) que por si só a invalida. O britânico tem plena consciência disso, e por isso explica pouco - talvez por saber que numa era internética todo o conhecimento pode ser questionado, mas creio que será mais pela incapacidade em efectivamente extrapolar para além do razoável a evolução de uma terra que não é a sua, o progresso de uma cultura que não moldou o seu modo de pensar, a alteração de um contrato social cheio de limitações e cláusulas em letras miudinhas - como qualquer contrato social - que não lhe limitou as opções de vida, ao contrário do que acontece com qualquer escritor indiano. Perceber esta limitação não é um defeito, antes um acto de plena honestidade, e como tal não oferece mais do que é capaz, não explica além do ele próprio entende. O resto... o resto é pecado de escritor, mas um pecado paternalista, pois procura tranquilizar o nosso sono com ideais de um futuro no qual a tecnologia, e logo o Homem, se proclama como único e absoluto Redentor de si mesmo.

E o que oferece McDonald? Nada mais que um tradicional conto de FC (questões quânticas e problemas informáticos, como convém na era pós-século XX da física) - universos paralelos, transsexualidade, corporações à escala nacional, e o paradigma do Alienígena Entre Nós em que se tornaram as Inteligências Artificiais (I.A.s) à solta, o único artificio literário da FC que ainda é aceite como factor quase divino pela mente céptica, tecnocrática, do leitor de FC. Sobre este enredo, ou a sustentá-lo, situa-se o filtro colorido da Índia, em jeito de cenário, um toque de caril, um cheiro a cravinho, um volteio de saris. A tecnologia impele o enredo, a tecnologia justifica o enredo, a tecnologia proporciona o desfecho do enredo. Mas é uma tecnologia completamente ocidental. Ainda que o polícia da unidade Khrishna tenha baptizado as suas armas I.A, de acordo com as divindades do panteão hindu, consoante as respectivas funções informáticas, isto não passa de uma cortina de fumo - é uma tecnologia nascida do método científico, da evolução de racionalismo da mentalidade europeia, da cibernética norte-americana e dos laboratórios de investigação&desenvolvimento japoneses. Não algo que Bangladesh tivesse concebido em isolamento segundo a sua maneira muito própria de pensar.

O que não é necessariamente mau. Se o livro se destaca no espírito do leitor habitual da FC, se as palavras saltam das páginas e é acolhido como um dos grandes romances de FC deste início de século, não deixa de ser também por esta rendição absoluta, perfeita, ao poderio do mundo físico sobre o mundo do espírito. Por esta subversão do que a Índia é e do que representa a nível de conceito, das suas pretensas religiosidades e encantamentos e posições de lótus, como se fosse suposto esquecermo-nos da exploração desumana dos trabalhadores, do sistema de castas tão ou mais nocivo e impermeável que o racismo no Ocidente, da pobreza imensa, imunda, que invade o olhar do turista e lhe revela a verdadeira Índia, a Índia do intenso desrespeito pela natureza sagrada da vida humana. Não seria a intenção do autor, e possivemente é uma interpretação contrária à sua vontade, mas o que conseguiu demonstrar - pelo menos na sua incursão de turista ocidental convicto da salvação da espécie pelo conhecimento das leis físicas, genuínas, do universo - foi a incapacidade de conciliação da ficção científica ocidental com os arquétipos religiosos do oriente. Pelo menos quando a solução literária do romance de ficção científica é de apresentar um futuro de glória tecnológica.

Haveria outra solução? Possivelmente. Mas creio que não ao nível da ficção científica Tal Qual a Conhecemos. A ocorrer o nascimento de uma indo-FC, esta terá de provir das mãos de autores próprios à terra, autores com o mínimo dos contactos com a FC ocidental e que consigam desenvolver um racional literário e especulativo baseado na expansão e conhecimento intrínsecos ao país. O erro de McDonald foi precisamente de querer seguir a norma. Frank Herbert, neste aspecto, ao negar o desenvolvimento científico e tecnológico do universo de Dune e basear a narrativa em arquétipos messiânicos, conseguiu o que poucos imitaram: um universo fantástico conciliado com os ditames culturais do povo no qual se baseava. Dune, que se passa noutro planeta, é mais fiel ao que seria uma ficção científica islâmica do que River of Gods, decorrendo na própria Índia, o é a respeito da cultura indiana.

Não deixa contudo de ser um dos grandes romances da Ficção Científica. Para conhecerem mais a seu respeito, sugiro que leiam os textos de João Seixas e Nuno Fonseca, estes sim críticas na verdadeira acepção da palavra, a respeito da obra que este mês o Círculo de Leibowitz se comprometeu a apresentar-vos.


(Amazon inglesa)

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17 Maio 2009

(Desculpas Para) Momentos Monty Python. Não sei dizer se isto é uma prova da ironia do mundo ou simplesmente uma constatação da completa insanidade deste... (seja como for, o dono do cibercafé não conhecia certamente estas tácticas preciosas na arte de auto-defesa contra fruta fresca, correndo assim perigo de vida...)

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Um Homem Revisita-se no Passado. Em «Anel da Memória», de Alexander Jablokov, traduzido com maestria pelo João Barreiros, um conto que devia ter acompanhado um romance por publicar numa revista que não chegou a ser. Na Bang! nº.5, para vós que tratais como cascalho as pérolas que vos são dadas.

Salomon sentiu‑se maravilhado. Como era possível ter sido assim tão jovem, tão comunicativo? Como é que alguma vez teve a lata de se pôr a namorar com a filha da dona da pensão? Espreitou pela fresta da porta. E ali estava ele sentado, esguio e jovem, com o cabelo coberto de brilhantina, vestido com um fato de linho listrado e um chapéu de palhinha a condizer. Parecia não ter uma única preocupação no mundo.

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16 Maio 2009

O Requiem Pelos Autores Despercebidos deste fim-de-semana é atribuído a R. A. Lafferty, autor norte-americano já falecido que poucos (honrosamente) conhecem. Qual segredo bem conservado (mais bem conservado que o próprio Segredo, imagine-se), o prazer da sua descoberta fica na memória. Embora não seja fácil a leitura - muitos dirão que é mais propriamente um autor que só outros autores poderão apreciar devidamente, sendo a sua perspectiva e ironia e erudição de elevado calibre, à semelhança dos (ligeiramente) mais conhecidos Howard Waldrop e Avram Davidson. Como na história pela qual, em meados dos anos 60, antecipou, e satirizou, de forma tão perfeita o mundo globalizado, irrequieto, adolescente deste novo século XXI. Dele, em português, só conhecemos três contos em edições de alfarrabista. Felizmente temos a internet para nos presentar com bibliografia e referências e terminar este requiem com uma nota alegre de um futuro talvez promissor...

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A Vida Assombrosa (Também Breve) de Oscar Wao (Junot Díaz, Prémio Pulitzer 2008, Porto Editora) melhora progressivamente à medida que nos adentramos na história da família e abandonamos o nerd (inglês para «cromo» na opinião do tradutor) gordo com interesse pela ficção científica aventureira (o puto só gosta de Tolkien e Gordon Dickson e Doc Smith e Moorcock na fase de espadas&feitiçaria, e até ora não emitiu uma única opinião a respeito dos livros mais maduros de Simmons e Benford e Bear e outros tantos que estariam mais próximos da época da sua suposta adolescência), atingindo um ponto particularmente elevado quando descreve a história da mãe de família hispânica numa República Dominicana dos anos cinquenta/sessenta ainda dominada pela bota de Trujillo.

Aos treze anos, a Beli acreditava no amor tal qual uma viúva de setenta anos abandonada pela família, pelo marido, pelos filhos e pela sorte acredita em Deus.

(que não deixa de ser pungente, apesar de, depois de «abandonada pelo marido», o factor «viúva» seja pouco relevante...)

Como a maior parte dos Homúnculos, [Balaguer - ditador que sucedeu a Trujillo numa nova R.D. supostamente democrática, apelidado de Ladrão das Eleições ou Homúnculo] não casou e não deixou herdeiros.

(que produz ecos do nosso homúnculo de trazer por casa que a classe imberbe desta minúscula nação votou como o Maior Português de Sempre)

Dizer à Beli para não fazer gala daquelas curvas [ela que acabara de despontar gloriosamente para a adolescência] teria sido tal qual pedir àquele miúdo gordo, perseguido, para não fazer uso das suas recentemente descobertas capacidades de mutação. Com um poder maior chega uma maior responsabilidade... tretas. A nossa rapariga correu para o futuro que o seu novo corpo representava e nem olhou para trás.

(o que é uma forma interessante de salpicar um texto corriqueiro sobre o quotidiano com elementos e referências do género fantástico e dar-lhe um sabor inovador - suficientemente inovador, aliás, para conquistar um Pulitzer.)

Relativamente à tradução (de Victor Cabral), como se pode apreciar nos exemplos acima, produz uma sensação semelhante a ouvir uma peça executada com profissionalismo (embora com modesta paixão) num piano ligeiramente desafinado: ao nos deixarmos embalar pela música e pelo ritmo, surge aquela maldita tecla esganiçada de um termo ou expressão desnecessariamente mal traduzidos que nos faz saltar na cadeira...

Uma recomendação para os últimos dias de Feira do Livro.

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14 Maio 2009

Uma Nova Forma de Andar. Não havia um ditado que dizia, quanto mais alto maior o tombo? Não?...

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10 Maio 2009

A Minha Experiência Com A Feira do Livro, este ano, tem sido uma de pavilhões fechados e de visitas a correr, uma delas com sacrifício do almoço (não trabalho em Lisboa) porque alguma douta inteligência, individual ou colectiva, terá decidido que seria inglório e incómodo manter-se de portas abertas durante a noite, e determinou como hora de encerramento as 20.30 durante os dias de semana. Será desnecessário referir que esse horário apenas me deixaria meia-hora para visitar a Feira, caso me dispusesse a antecipar o momento de saída laboral e fosse a correr para o centro. Ainda o fiz uma vez, e tornou-se num momento frustrante, passando a correr por bancas de conhecidos só para chegar ao que pretendia - experiência partilhada pelos outros compradores desse dia, que se agarravam aos pavilhões como lapas, impedindo-os de fechar. Enquanto exercício de disciplina de compras orientadas e com objectivo, poderá ter o seu interesse, mas obviamente que estraga o prazer da compra aleatória, das poucas razões pela qual frequento o evento. Vozes dirão que teria o fim-de-semana - claro, se fosse minha vontade andar às cotoveladas com as enchentes de mirones de capas que impedem o acesso aos livros, não arredaria pé. Mas ainda não tomei o gosto de encarar a ida ao Parque Eduardo VII como uma manhã de domingo na Caparica, e dispenso mergulhar no mar social de corpos enfiados num espacinho de terreno que conseguem nesta impossibilidade o que só posso designar como a experi ncia de todos os sentidos: desde o conhecer-se intimamente o odor corporal do vizinho deitado quase em cima de nós à surdez causada pelos berros da criancinha à nossa esquerda, benditos os seus saudáveis pulmões e a generosidade dos pais que connosco partilham esta dádiva ao mundo, ao gosto a sal e protector solar da loja dos trezentos misturados na areia que nos cai na boca da malta nova que corre para e vinda da àgua. Talvez seja um defeito meu. Sei que tenho bastantes. Mas é com alívio que descubro esta notícia: a Feira passa a fechar uma hora mais tarde. Ora, um pouco da sensatez que retorna. Assim nem se torna penoso para os trabalhadores da Feira (que têm de aguentar dias a fio as alterações de clima, os clientes chatos, e chegam ao final com a Feira pelos cabelos) nem para os clientes. Mas foi preciso esperar durante mais de metade do evento para só na última semana a direcção arriscar esta mudança extraordinária... é fant stica esta celeridade, esta capacidade magnífica de adequação dos nossos eventos públicos às necessidades de quem o frequenta. Ao menos continua garantido o mercado dos pederastas e das prostitutas e da diversa fauna que diz-se frequentar a zona à noite, que, coitadinhos, eram afectados durante as três semanas de cultura com o tradicional encerramento das 23.00.

(Se estou indignado enquanto leitor e autor com a Feira este ano? Claro que sim. Além do disparate da hora de encerramento, mudaram um evento ao ar livre para uma época do ano em que o tempo ainda não está suficientemente estável e quente para assegurar a qualidade da visita. Que fosse necessário inovar pavilhões e alguns outros aspectos do evento, apoiado, eram medidas sensatas e óbvias. Mas o problema de mexer em tradições no nosso país é que nunca se sabe quando parar, e depois não basta corrigir-se o que estava mal, é preciso estragar-se o que estava bom...)

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O Conto Definitivo de Ballard, uma versão do «Last Man on Earth» apropriada por muitos autores, entre os quais André Carneiro. O desaparecimento pacífico de toda a vida no mundo, com a excepção do insofismável B, possivelmente irmão do James que atravessa o mundo onírico de Crash. B finalmente no território da sua imaginação, rodeado pelos verdadeiros personagens das suas histórias - os arranha-céus, as autovias, os pilares de betão, os silos abandonados, os acidentes da paisagem -, finalmente libertos da confusão da humanidade. Este era o autor cujo maior pesadelo, afirmava em entrevista, era de esquecer-se de onde vivia e jamais conseguir voltar a casa.

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O Dia Em Que Os Robôs Acordaram, uma curta-metragem simpática e interessante que venceu o prémio do público no festival de FC de Londres. Apesar da história algo desequilibrada (havia necessidade de acrescentar a Londres 2.0?), do pouco entusiasmo da voz narrativa, e do monótono antropomorfismo dos robôs (teria sido divertido ver robôs construidos a partir de peças de bicicletas, fogões, chaleiras...), fica a imagem de uma Londres coberta de vegetação, a boa opção da rima, muito depois de termos partido, e um exemplo como se pode fazer uma boa curta de FC para crianças com poucos meios.

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09 Maio 2009

233º C, que é como quem diz 451º F. Meryl Streep a ler um breve trecho da obra de Bradbury. Quem estiver mais interessado no original, pode ficar com a voz do próprio autor. Entre nós, teve uma recente edição pelas Publicações Europa-América. Via Bibliofilmes Festival.

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